quem sou eu

28.7.16

You've got to have freedom**

Leave

cry to the earth
then to the sea
laments that open your way
dig tunnels beneath your ground,
the soil that carries your soul
your furniture
all that you need to feel safe

then

Leave

shout out your groan
creak the timber under your feet
the sob that clears your lanes
make space for what needs to be born
your persuasion
the legacy you carry to feel sane

so

Leave

the past, the future
the so many choices
the not so possible ones
release what you don't wanna lose

Leave

just go
you've got to have freedom
an irreplaceable treasure
for you to take and also

Leave.


**Inspired by Pharoah Sanders tune "You've got to have freedom".





15.7.16

Smooth as the wind**


your breath next to my ears
smooth as the wind
your hands on my neck
soothing as the silk
your eyes gazing at me
serene as the night fall

make me peace and then war
sudden quiet storm
above our heads
brassy and chilled
rays of all colors
that relentlessly disappear

don't abandon all that's yours inside me
don't embrace me only under a gray sky
whisper in my ears more than a love song
calm me down as if you know how.

**inspired on Tommy Flanagan tune "Smooth as the wind"





22.6.16

O cliente

Emprestou o que era amor e dor,
os importou de um lugar longíquo
onde o horizonte era largo e azul escurecido.
A que serviu o empréstimo, não soube bem dizer;
se a delirar a prestações
se a tentar escapar de estimado juros
se a liquidar o que a vontade cobiçava
se a parcelar a imagem que reaparecia.

Por quais meios se fizeram a importação destes bens
nada se sabe alem, somente que alguém se beneficiara
do que se dera, do que fora, do que já era;
viera de um lugar remoto
onde o mar se perdia de vista.
Os bens puderam ser avaliados,
tiveram apreço, logo porem desconcerto,
quiseram devolução e troca
e nada se pudera fazer.

De amor e dor
mais um cliente se recompõe.


O cliente

Emprestou o que era amor e dor,
os importou de um lugar longíquo
onde o horizonte era largo e azul escurecido.
A que serviu o empréstimo, não soube bem dizer;
se a delirar a prestações
se a tentar escapar de estimado juros
se a liquidar o que a vontade cobiçava
se a parcelar a imagem que reaparecia.

Por quais meios se fizeram a importação destes bens
- se bens tão primários se manifestam no ato de parir -
pois alguém se beneficiou do que se dera
do que fora, do que já era;
viera de um lugar remoto
onde o mar se perdia de vista.
Os produtos puderam ser avaliados,
tiveram apreço, desconcerto,
quiseram devolução e troca
e nada se pode fazer.

De amor e dor
mais um cliente se recompõe.


Saudades de minha mãe

saudades de minha mãe
minha cantiga favorita
de amor, cozinha, sal
mãos bentas
olhar que abençoa
que dá ternura
que afaga o coração

saudades de minha mãe
minha ídola preferida
de compreensão, travesseiro,
cama, sofá e sonhos
ombros caridosos
que dão aconchego
que acarinham a alma

saudades de minha mãe
minha amiga certeira
de partilha, caminhada,
praia, pedra e sol
pés que dão apoio
que carregam a solidão

dessa saudade.

6.6.16

Alta Marea**

Pietro è scattato a parlare
Lui, il villaggio e la riva del mare
Il mio villaggio
Porta incertezze ai suoi Orishas
Alta marea
Temere nuotare
Come temere l’amore
Gli gira la testa
Si accorge che
frontiera non ce n’è.

Pietro sulla riva ha ricominciato a parlare
Porta incertezze al suo Orisha
Insiste
L’acqua salata non fa calmare
Fuggire
Temere nuotare
Perchè annegare
Gli gira la testa
Gli da fatica
Non c’è maniera.

Rinascere
Ritornai ad essere
Divenni  l’essere
Ricominciai ad essere
Lui galleggiava e temeva affondare
Porta la richiesta al suo Orisha
La mia legge
Lui, il villaggio e la riva del mare.


*Canção original de Fernando Machado "Preamar" traduzida para o italiano em Maio 2016.

2.6.16

SONANT*

The essence
What's the essence?
What's the essence of what you create?
Search for it.
Search for it out there
Search inside

Inside?

Inside where your beliefs are
Inside where your feelings grow
Inside where body meets soul

Body meets soul

A meaningful encounter
A resonant encounter
A sonant encounter

Sonant.

*written for the musical SONANT.

1.6.16

futuro do pretérito condicional

o que seria de mim se não fosse o canto
o que seria de mim se não fosse a dança
de mim o que seria o encanto se não o fosse
de mim o que seria a criança se não a fosse

senão a poesia, o que me manteria
senão o movimento, o que me restaria
me habitaria o que, senão a euforia
me residiria o que, senão o intento

não fosse a paixão, o que em mim nasceria
não fosse o desejo, o que em mim cresceria
a criação se não fosse, afloraria em mim o quê
o festejo se não fosse, brotaria em mim o quê

se arte fosse o que não surgiria, quem então
se música fosse o que não despertaria, quem então
de mim, a palavra que não fosse se partiria
de mim, o ritmo que não fosse se perderia

o que de mim deslizaria senão água, suor e lágrima
amor líquido, gota após gota sobre mim, a estima
esse amor, que por mim sempre pedira
viria, o via
ia, o veria
veio, o vi.












11.5.16

But beautiful*

But beautiful is to breath

uncover what is underneath

the timeless motion of a belief

all you can grip is a gift

and above all comprehension

yes, your boat is adrift


But beautiful is the singularity

of all space between words and their peculiarity

the everlasting roll full of whimsy

all you can be affected by makes a shift

on what you intend and then

yes, some authentic relief.


**Inspired by Freddie Hubbarb's tune "But beautiful".












10.5.16

Repost AR

tempo é vida.

tempo não é o que vai passar, nem o que vai chegar
tampouco é o que já passou

tempo é o que se respira
no momento em que o pulmão se enche de ar

falta tempo pra fazer um verso
falta tempo pra aprender a dançar
falta tempo pra visitar quem se ama
falta tempo pra cozinhar comida fresca

falta-lhe tempo? é porque nem se deu conta de que tem ar pra se respirar no seu andar

leva tempo pra curar um machucado
leva tempo pra construir uma casa
leva tempo pra fazer um amigo
leva tempo pra ir à pé

leva-lhe o tempo? o tempo que leva é o tempo que se tem pra se viver o que se queira

caso não queira, deixe o tempo passar
caso o tempo passe, culpe o tempo que passou
caso não viva, esqueça o tempo

tempo é vida.

vida é o tempo que temos para respirar - sem demora, sem pressa
no tempo em que o pulmão se enche de ar - e depois o solta.



2.4.16

Magma

Na Chapada flores renascem do solo incendiado
diamantes brotam de um terreno que parece infértil
e dentro de si germina o mais belo ser amado
tais petalas desabrocham em esperança versátil

Dos segredos que a terra guarda
o céu anoitece e a lua resplandece
chuva de estrelas vem saciar o que se escaldou
orvalho noturno vem humidificar o que se abrasou

O milagre das rochas que se cristalizaram no manto
e subiram à superficie em busca de ar e respiro
do inflamado e corado magma se dissiparam aos tantos
atônitos e desatinados se renderam a um maravilhado suspiro

Do que se ressurge, o sol vem e lhes nutre
Do que se afogueia, a água vem e lhes clareia
No que se afaga, o toque vem e lhes agrada
No que se crê, o tempo vem e lhes presenteia.








The Golden Lady**

If only your senses
flare up your temper
a snap decision
scintillates like ember
and glistens like a ray of bliss

Some sort of inquisition
commence to bring your head to spin

Uncovered memories at the helm
of a seething sea of thoughts
Unavoidable intentions tied
in a string with knots

Golden lady,
You can´t lose your gleam, though
Forget me not

If only your senses
guide you short way hence
your persuasive intention
and great eloquence
are like incandescent gold that flashes.

**Inspired by Sun Ra's tune "The Golden Lady" .

23.3.16

Centelha

deixe que te guiem
teus sentidos
tua centelha pequenina
lapidada no teu cerne
se assemelha
ao estalido das brasas
tilintante faísca doirada
ao afiado som das harpas
cintilante fagulha prateada

deixe que te carreguem
teus impulsos
lampejos femininos
congregados no teu ser
surgem como revelação
epifania inusitada
rajada de luz
mágica aparição
que se confia

se firma

se alia.








Steam

Green hearts on a
                                s
                                  t
                                   r
                                    i
                                     n
                                       g
           Suspension
P
u
r
p
l
e
r
a
i
n
o
f
l
e
a
v
e
s


Blue skies of crystal
                             Devotion
Hanging realities

            Solid Dreams
               being melted on a s
                                                   p
                                                     r
                                                       i
                                                        n
                                                          g
                                                           of sun
            Nothing is lost
                all being transformed into a mist of
                                                                                      s          e         m.
                                                                                            t          a  

8.3.16

She was too good to me*

Night of cold stars
moon off the clouds
dim light of the outside lumiere
leaning affectionately on the bedroom windows
her sentient body moved seamlessly

From Earth to Mars
fireworks sparkled all sort of sounds
tender perception fluttering everywhere
nuzzling passionately my torso
her awaken lips adored me endlessly

Orchestrating for brass
her scent brushed me around
flashes of smiles - the truth was there
longing fondly for more
her deep sigh surrounded me cares-singly

She was too good to me.


*inspired by Chet Baker´s album "She was too good to me".




28.2.16

I'll see you in my dreams*

I'll see you in my dreams
as broken gleaming particles of crystals
sharp thin crispy crushed bits
creep into my flesh
despite that's no blood for the sorrow.
Water is dripping from sky
perhaps it's an eyewitness cloud
just burst out laughing towards the remains
might have I just dropped the fragility
of this content
and still I can it all retain

I'll see you in my dreams
scattered over the stairs
no one is around sooner than
the moon lightens up the night
so I can sweep away the brittle fragments
that are about to grasp various layers of my tissues
Shall them pass from sight
be mislaid
leave a forgotten trace.

*inspired by Django Reinhart's "I'll see you in my dreams".






24.2.16

Excesso

Será que foi algum feitiço
o que deixaste em mim?
foi amor
foi excesso de calor
foi sede e fome
foi água e cheiro
foi pele e sabor
foi suor e lágrimas
milagre foi
foi-se um dia
foram-se mais dois
foi o que sinto
sinto o que foi
não o deixo ir
embora já o fostes
nem de ti sei
o que sentes
não digo
a mim repito
me insisto
fecho os olhos
longo suspiro
foi o quê?


22.2.16

A 1.000 senses

The see-thru passage has never looked like a collage as it seems today
just when my feet go one step after the other
there's hunger for swerving off the tiles
each little corner, a fragment of oneself
each single line, bloodstream in search of a bosom
tree shadows of no windproof
slapping on my face the truth
- yet hidden thoughts -
manic desires being devoured by a single soul
these corridors never looked like portraits of my concrete fears but today
as my hands search for some warmth in my pockets
the lush fields of my skin
thrive for what's beneath
a thousand senses
dankness inside spread, no sun to endeavor neatness
nevertheless a palpable drifting grain thrusts against the wall
has it been detached from the core?
has it become part of an investigation?
it just asks for the freedom to pass
break shell
through sheer persistence.







20.2.16

De passagem, o passante

assim quando chega, despretenciosamente, ou com algum plano em mente
carinhosamente ocupa o espa
ço, lança o olhar terno, se afaga mansamente,
passa silenciosamente, mas sempre deixa um rastro de 'estou aqui, pra você'


e se você nao me vê, estou a espiar pela janela, o céu, os passaros ao longe
e se você nao me ouve, estou a te chamar em pensamento, com a calma que preciso ter.

então o passante passa o dia em busca de intempéries, aventuras, amizades
outros cheiros, outros portões, outras janelas, outras paisagens
sobe e desce a ladeira, atravessa a rua, pula um muro, descobre o outro lado

quando eu voltar, quero te encontrar, te ver debaixo pra cima, tua beleza no alto
quando eu te encontrar, vou me achegar bem perto, tocar teu colo docemente.

durante a noite fica misterioso, tenro, eufórico e atiç
ado,
o que lhe desperta os sentidos seria o som, o escuro, a sombra, a lua?
vem passando, deixa o seu calor, roçando levemente a nuca, a orelha

e num ímpeto, eu arranho a ti e a tua roupa, te rasgo delicadamente a pele,
preciso me sentir vivo, eu quero estar vivo ao teu lado e te amar como posso.

pela manhã o passante adormece, fecha as pestanas como quem não vai abrí-las,
faz preguiça e fica com ar de quem vive de sonhos, em seu próprio mundo,
como se nada importasse, a não ser estar ali, lado a lado, emanando calor.


14.1.16

Regresso VII

Na chegada, flores
Na janela, poucas cores
Na poltrona, o choro continuo
No chao, o frio superfluo
Num quarto, o silencio
No outro, o cheiro
Na banheira, o ressentimento
Na pia, melancolia
No chuveiro, lagrimas
Na lareira, aspereza
Na geladeira, a crueza
No fogao, o fastio
Na cortina, o brio
Na cama, sono lento
No travesseiro, um acalento
No sonho, tome tento
Na manha, um novo dia
No olhar, o seguir da vida.

19.10.15

Dia

o dia querendo conversa.

- O que tens a dizer pequeno dia?

que a garoa fina corta o horizonte,
os ventos trazem o outono de mancinho
os sonhos estão pairando no ar
como pinceladas que vão as cores tingindo
e no branco da luz, o presente vem se amostrar.

-  O que mais queres proferir?

que de molhado a terra precisa
mesmo que nos pés a humidade pareça castigar
o que me convem é que sementes cresçam
e em todas a poças que refletem seu olhar
venha também o céu se lhe encobrir

o dia queria dizer de sonhos realizados, de verdades ditas, de passeios feitos,
de amigos que se encontravam como amigos que se encontram, de famílias que se amavam, de bicicletas que não se cansavam de pedalar no caminho à beira do rio, de cafés que se faziam no entardecer.

o dia não somente dizia memórias, discutia alegrias.




25.8.15

Tatayaya
Igarapé
Rios da minha terra
Caraybaya

vai-se a vida inteira êe
chuva cai no sertão
tece a tua história
com teus pés no chão



Filha do mar

Olorun mandou dizer:

"Quem nasce na terra do sol
navega em proteção.
Guia de luz no caminho,
de água pura se banha
e rema em certeira direção".

rio

Ali a remar
tao perto de ti
meus sentidos navegam
na correnteza que te guia

o remo faz uma curva
e se alonga sem demora
dentro de ti,
vira, mergulha e volta

te vejo tao perto
me afagas com delicadeza
sem muito tocar
quao imensa profundeza

nao te toco por completo
haveria o sabor de mar?
daquele que te invade
todo fim de tarde

dentro e fora de ti
vejo o ceu,
estamos no alto
ou submersos?

rio, sorrio.









23.3.15

Jardim de ébano**

Dias de sol no jardim que ela semeara: nossos encontros se faziam ali, no jardim que ela almejara ter durante os muitos anos que passara sua vida num apartamento, entre paredes que comprimiam, com janelas que pouca luz transmitiam. A procura por um novo espaço; e num piscar, surge o quintal abandonado da nova casa. Tudo por se refazer; árvores ressecadas pela ingratidão da ausencia, terra vermelha batida, seca, árida, mato crescido pelos lados do muro e das grades, uma mistura de vazio do desamparo, um esquecimento talvez, ou simplesmente desleixo, mais o entulho do que fora deixado pra trás, ao ermo.

Contudo, de repente, chega ela, cheia de energia, da realização do sonho de ter um quintal, ela vem com tudo, enxadas, rastelos, vassourões, mãos, pernas, braços, abdomem, a força de revirar a terra, de limpar o terreno, de amaciar o solo, agradá-lo e torná-lo propício ao plantio de árvores frutíferas, acelora, pitanga, limão, amora, pé-de-café, uma jaboticabeira que renasceu. Todos os dias, desde que se mudara, ela madrugava, da cama ao quintal ia, carregava suas ferramentas e pouco a pouco o quintal desarrimado transformando-se-ia em jardim.

Escolheu vasos de variados tamanhos, colocou grama, foi plantando mudas, escolheu flores e bromélias, adorava bromélias! e plantas suculentas - babozas, cactus, crasuláceas. Em pouco tempo, seu jardim parecia um sonho; uma realidade, um refúgio de belezas em frente à janela de sua sala. Vinham pássaros de tantos tipos, sabiás, bem-te-vis, tico-ticos, vinham abelhas, borboletas, joaninhas, as flores brotavam em felicidade. Quando lá íamos, colhíamos os frutos, e ela nos preparava suco de acerola do pé, e junto servia um café.

Deslumbrados com seu jardim, elogiávamos, e ela, que nunca parava, sempre tinha planos de fazer mais, uma cobertura de plantas trepadeiras, primavera, maracujazeira, jasmim-dos-poetas. Depois podava quando tudo demasiado crescia mas também replantava arbustos. Enfeitou os caminhos com pedras, ajeitou troncos - cedro, aroeira, ébano, para decoração rústica - meu tio até pendurou uns cristais em algumas árvores, para balançarem e brilharem com a brisa. No jardim sorriam, a vida parecia o que eles queriam viver.

Hoje o mato está um pouco crescido. Uma pequena árvore tombou por conta da estiagem do ano passado. Alguns vasos racharam com o passar das chuvas e dos ventos desse verão. Um e outro galho secaram. Mas o caminho de pedras continua lá. Os cristais continuam lá. O jardim perdeu um pouco suas formas, as plantas estão da maneira que a natureza lhes permite. As podas não serão feitas tão cedo, nem tampouco o replantio de sementes. Ela estivera sem forças. Ela fora transportada e não poderá madrugar para ir ao encontro dele. Ela, quando acordar estará em outro jardim, tão ou mais bonito que esse, mas ela ainda não sabe.


*inspirada em "Saudade do Brasil" de Tom Jobim, a pedido de Gracibella.
*Em memória a Elizete Macedo,