quem sou eu

14.9.08

Foram longos os poucos dias

Canta a alma
embebida de luz
na varanda com sol.
Fita as folhas dancando
por detras do muro branco,
estao banhadas pelos raios
amarelecidos de uma estacao
que chega ao fim.

O verao foi suave,
dias claros na retina
vespertina.
Foi salpicado de briza
varrendo o ceu
sutilmente
como uma renda de nuvem
transparente.

O calor brando tocou
a pele, mao de seda
acariciando a nuca
num leve sopro;
os fios de cabelos
rocando as orelhas;
o coque ao topo da cabeca
enrolado com um laco de flor
tomando vento.

Numa manha de verao
colheram rosas e lirios
e enfeitaram a mesa
da cozinha.
O cha fumegante
na xicara ao lado do vaso
envolveu os aromas-
as ervas, as flores.

Sempre alguem oferecia
cafe.
Sempre em dia de sol
moviam-se com liberdade
os pes,
nus, umidecidos.

Foram longos
os poucos dias quentes
da estacao que traz
estado de euforia.
Aqui na ilha de nuvens chuvosas
e' raridade azular
por dias sucessivos,
e' como sombra no deserto,
quando se lhe avista,
tao rapido o corpo
dela se aproxima.

Hoje o sol atravessou
os telhados, saltou os muros,
espiou por entre as frestas,
apoiou-se nos cilios,
sagradamente
irradiou sanidade.
Acordei com voce me dizendo:

-"A cada abraco, uma lembranca se liberta".


-Quantos serao necessarios?!- o eco soou na concha acustica e me fez despertar.


O dia passou.Ainda espero a resposta.

7.9.08

Universos que nao nos pertencem

Estar em outro pais e' escutar historias que lembram aqueles filmes sobre a vida de alguem que ja se enfiou no fundo do abismo, com dias initerruptos de drogas injetaveis, os olhos revirando numa euforia descartavel que se lanca incontrolavelmente no jardim de alucinacoes mirabolaveis, depois rasteja incondicionalmente fincando suas garras na pele de quem precisa consumir uma outra porcao, os olhos nunca voltam ao seu branco aparente, riscos avermelhados estilhassam nas suas janelas. Alguns anos podem se passar sem que um dia limpo possa intervir na lembranca de quem soube o que era estar em paz. Pode-se tropecar com passos cambaleantes que amolecem as pernas, curvam a coluna, fazem o corpo espiralar quando um sorriso relaxado invade a feicao de quem quer passar seus estados de extase fora do universo comum, nao importa onde esteja, se o palco de suas realizacoes for um liquido que faz seu corpo extremecer, vibrar numa compulsao louca de uma energia exorbitante.
Um corpo pode ser esvaziado e ceder lugar a uma apropriacao de qualquer especie. Seus labirintos sao explorados com as toxinas que lhe possam trazer sensacoes indescritiveis, e a vida pode virar um trunfo de sensacoes que nao cabem em palavras, uma alternancia de dor e cor, parece que tudo brilha e ofusca os olhos, parece que tudo fica palido e sombrio, quando o peso do corpo cede 'a gravidade do chao umido e frio, e as pernas ficam desordenadas como se nao fizessem parte de um conjunto harmonioso que e' o corpo humano.
Quando ouve-se as historias de vidas que sugaram o verde-escuro de frias estacoes do ano, a mente recria o filme das cenas mais confusas tecendo as verdades que nunca se completam porque sao ilusoes na cabeca de quem delira. Depois de um tempo vem a fragilidade, o caos, o inferno queimando todas as veias que ardem incessantemente. A dor que tambem alucina, o grito da angustia, o sofrimento de alguem que nao sabe mais onde foi parar sua vida.
Alguem reconta uma tragetoria e ainda esta' jovem, mas sente o estremecer de um passado recente e borrado com cores indefinidas. Esse mesmo alguem busca respirar, olha o passado com receio de ter envelhecido muitos anos e lembra-se da dor com um fio de remorso sobre si mesmo.
O mundo interno traz tantos universos que nem sempre nos pertencem.

5.9.08

ode aos amigos

os amigos me cantam as melodias que trazem fe'
os amigos pintam palavras que se combinam e soam poesias a serem ouvidas;
os amigos enfeitam o muro das lembrancas com ornamentos reluzentes
e grafitam os desenhos de vidas que sao possiveis num aceno de maos;
os amigos criam versos e rimas que nitidamente pousam no livro de nossas parcerias;
os amigos recitam poemas de alem-mar, que trazem o verde aperolado do extenso oceano salgado;
os amigos perfazem cada qual seus caminhos e receitam a sabedoria de compartilhar cada lagrima partida, cada sorriso que espartilha;
os amigos intuem o anseio daquele que precisa de suas sabedorias, qualquer novidade do dia, o minimo que se conquista;
os amigos glorificam sua presenca, mesmo no espaco de uma atemporal ausencia.

os amigos

sao como jasmins perfumando a janela que se abre pro quintal;
sao luas eternas nas fases que se alternam entre o universo e a terra;
sao gotas de diamante que regam o solo sedento de novas sementes;
sao todos os sentimentos que prosperam no olhar quando lhes abraco, no beijo quando lhes toco, no dialogo quando lhes confidencio.

aos amigos escrevo e agradeco.

22.8.08

A na' ta' ali.

Se a vida fosse uma canção, cantaria com toda a vontade que a amizade é como um botão de flor que desabrocha quando chega a primavera, que sabe o valor de uma estação e inspira com prazer os perfumes que traz o vento.
No refrão, cantaria que a amizade sabe bem o quanto dura um tempo, sabe que os periodos distantes sao feitos de inverno, neve branca que cobre a vida, palavra petrificada pelo tapete de neve.
Como uma canção de amor, cantaria que o amor de um amigo não morre jamais, apenas repousa quando o tempo nao o permite viver com intensidade e respiros profundos; apenas acorda com o sopro de voz vindo do coração distante, a luz volta a iluminá-lo e o amor transparece na amizade em renascimento.
E como uma verdadeira canção, jamais deixaria de ser entoada. Uma vez cantada, resta encantada por mais de uma vida.

20.8.08

horas

o que mais ela quer quando fica escrevendo no escuro? ela fica remontando as estorias de seu passado, com se fossem unicas e devessem prevalescer. quando ela fica horas e horas assim, martelando palavras e arrancando pensamentos, o tempo presente nem existe. nao existe luz, nem pessoas, nem sentimentos, nem obrigacoes. quando para de escrever o mundo desaba em sua cabeca e ela lembra-se de quem e', de quem ainda nao foi e fica remoendo sua falta de animo pra fazer as coisas. ela escreve o que sabe fazer bem feito. ela conta nos dedos as habilidades que tem. depois se cansa e vai ler qualquer outro assunto que lhe seja interessante. mesmo quando le, se ve nas entrelinhas e busca nao parecer conformista, sentada diante de paginas enquanto tenta nutrir sua mente com informacoes que lhe sejam de grande sabedoria.
depois volta a sentar-se e escrever. pergunta-se o por onde deixou escapar a sabedoria de engrandecer o tempo. primeiro responde 'a pergunta do que seria engrandecer o tempo e repete a si mesma que e' dedicar-se as coisas que lhe sao importantes naquele caminho que esta' percorrendo. depois questiona porque deixou a sabedoria de engrandecer o tempo escapar se, afinal, ve diante de si todo o tempo do mundo. talvez ela responda que esta' confusa, que nao sabe pra que lado ir. talvez ela responda que esta' estudando as possibilidades. ainda assim ela argumenta que ainda havera' o tempo de colheitas. e no fundo de tudo que escreve, ela aceita que so' quer escrever.

distantes na linha

Um dia eles se falaram por telefone e suas vozes estavam distantes na linha. Cada uma vinha de um lado da estrada que percorriam, cada uma tinha um timbre tao delineado que criava certa melodia. Nao tiveram muito tempo para prosear, trocaram algumas palavras e seguiram seus rumos.

-Fico contente e um pouco triste talvez...
-Por que triste?
-Ah difícil dizer meu caro, a tristeza é senhora...
-Eu estou um pouco triste também
-Acho que eu sinto a sutil brisa desse entristecer,de algo tão bonito. Certa vez eu te disse: "Eu não o toco, para mim ele é sublime, quase um anjo", lembra-se? Vejo que palavras soltas são asas voando em muitas direções [pausa - suspiro]
A paixão revira, por mais que inspire.
- Eu sabia que isso aconteceria. Pude prever nos meus sonhos. Mas sabes tambem que sou um ser quase desprovido da razão, por isso danço.
-Dançaríamos assim
-Já dancei na noite do sim
- E eu na noite sem fim
-Na tarde do talvez [pausa]
Na manhã nasceu enfim,o sol do querubim
cujas asas caíram-se ao voar antes mesmo que pudesse sentir o peso da gravidade e a dor de uma saudade.
-Pois bem, nao temos outra saida, o tempo é o mágico da vez e ha muita agua no mar que existe entre no's.
-Adeus
-Ate' breve.


Despediram-se em silencio.

Lanca-se a brisa de quem ama e dança.

16.8.08

Flor em caule

Ter-te por perto 'e como acordar no meio da noite depois de um sonho bonito, um sonho de encontro de almas e sorrisos, apenas gestos e olhares, sem palavras. Ter-te por perto 'e abrir os olhos no silencio desta noite e sentir-te proximo, acariciando meus cabelos depois do sonho.
Levanto-me pois despertei-me com tua presenca. Intuo onde ela possa estar nesse momento. Abro a cortina e vejo que esta' amanhecendo. O ceu a leste tem um tom de azul que vai clareando pelos telhados das casas de ruas vazias, umidas e silenciosas. Te sinto ao amanhecer como quando da tua presenca ha poucos dias atras. Olho para baixo, desta mesma janela e avisto a unica flor cujo caule comprido sustentam petalas roseadas bem no canteiro ao lado de casa. A unica flor da rua, bem ao lado da minha janela, da minha nova janela, da minha mais nova casa.
Logo que cheguei, enquanto ainda caminhava pela rua, pensava qual seria a nova casa, ja que todas desta rua sao iguais ou muito parecisas, com algum ornamento na porta que as distinguem de outras portas de outras casas. Avistei a flor e a voz dele que me trazia: "Estamos chegando". -"E' aquela com a flor" pensei. Mas nao era, e sim a casa ao lado. Olho a flor novamente. Agora ela balanca levemente. Talvez seja um pequeno sopro de vento, talvez seja a tua presenca presenteando-me na primeira aurora desta vida deste lado de ca'. Lembro-me dos ceus que percorremos intensamente, dos dias amarelos em que tua musica soava suavemente pelos labirintos meus.
Ter-te por perto e' sentir a respiracao macia, o ar que perpassa por cada orgao, que entra e que sai, preenche e logo esvazia, na sutilidade da expansao, como se expande a luz do amanhecer, calmamente com a plenitude e a beleza de cada instante, de cada parte pequena do corpo, de cada nota na sua infinidade de som.
a flor parece erguer-se em direcao 'a luz que renasce nesta hora de comeco de dia, cuja vastidao vai cedendo lugar ao ceu escuro e misterioso da noite anterior. Os segredos que a noite guarda desmancham-se na sua luz, a luz da aurora.
Miro o fim da rua, l'a de onde o clarao comeca a amarelar-se. Hoje sera' dia de sol. Ter-te por perto e' como sentir a luz; vibrante, necessaria e verdadeira.

1.8.08

fios

deita na beleza
que sabe apreciar o coracao.
desliza na cama de sementes;
nela a alma encontra descanso

os dias sao ensolarados
passam com sopro de vento.
revelam os passos em silencio;
calam alguma dor

rastejam lembrancas,
serpentinam memorias lentas.
o amor renasce;
tem gosto de uva

saboreia a saudade,
experimenta a liberdade.
ralenta os anseios;
serena a conquista

beleza
raridade

10.7.08

espaco tao maior que o imaginado

todas as noites segue aquele choro contido de quem quer amar demais e nao consegue deixar o peito livre da dor. escorre uma lagrima, escorre a saudade de uma beleza que ficou longe, sentindo-se pequena, embora nao saiba o espaco que ocupa nessas noites de meia lua. deixar pra tras o que esta' no coracao nao simplifica a intensidade da ausencia. um vacuo. uma vastidao. um deserto. um clarao que cega os olhos. o branco que nao deixa cor transparecer. um fica. outro parte. quem leva a escolha assume a tristeza lentamente, raramente sabe se a carrega nas maos ou se nela deita e espera o dia amanhecer. com os punhos cerrados nao quer aceitar a mudanca que caminha embaixo dos pe's. quem assiste a escolha permanece calado. observa com alguma dor, eleva as maos ao alto e talvez ore, talvez chore.
ambos esperam a saudade ir-se com o vazio do tempo que ocupa no peito um espaco tao maior que o imaginado.

9.7.08

" a musica nao precisa se parecer com nada, a nao ser com ela mesma, uma expressao do que esta' no coracao em cada momento" - em Nota Preta de Mo Toledo.

2.7.08

o que é querer o quê da vida

não quero que muito menos o papa venha me fazer essa pergunta tentando insinuar algum moralismo. a preocupação dos homens deveria girar em torno do bem estar coletivo, da preservação à natureza, da sanação da miséria, do fim à crueldade carnal e logo espiritual. O que querer mais além de aprender para poder ensinar? ensinar é disseminar. disseminar é espalhar sementes, que por sua vez é plantar. se planta se colhe. há beleza maior que essa?
mas hoje não há beleza neste pensamento. não cabe a poesia de viver porque também é preciso questionar umas coisas mesquinhas que saem das bocas de alguns seres. nem todas as pessoas tem o mesmo olhar sobre vida. não mesmo. algumas querem o quê quando outras sabe-se lá o que querem..e mesmo não sabendo o quê exatamente poderiam ao menos respeitar as escolhas.

28.6.08

O amor ensina

Outro dia um cara que só me conhece dos anos em que nos encontrávamos no caminho para a faculdade, me perguntou, segurando minha cabeça: "O que você quer da sua vida garota?" Aquela pergunta vinha para me assustar, mas pelo contrário, a resposta foi imediata: "Eu quero viver apenas". Deposi seguiram-se horas de discussões intermináveis sobre o futuro das velhas e novas gerações, sobre a tecnologia nos países desenvolvidos, sobre a modernidade na China, sobre a inconsciência política dos problemas no Brasil. Ele passou anos da vida acreditando na ambição, ensinando os outros a terem ambição, porque afinal, conseguir as coisas é o objetivo do desenvolver da humanidade. Mas dentre todos os questionamentos que fizemos, o que mais me deixou abismada foi a pergunta que ele me havia feito. Como assim? O que ele quer insinuar? Eu estou partindo para mais uma viagem no exterior, a segunda em menos 10 meses após eu ter regressado de uma vivência que fiz durante um ano, num país da Europa. Não que eu ache que a Europa seja a solução dos milagres, o paraíso dos deuses, a perfeição dos homens. Nada disso. Muito pelo contrário, a perfeição é tão superficial que às vezes dá nojo. Mas existe um elo entre uma vida intelectual estagnada e a procura sendenta por vida mais pulsante que me deixou intrigada e talvez esteja me fazendo voltar pra lá. Porque as pessoas de lá não sabem o que é miséria social e pureza de espírito. Nem o que é lavrar a terra com os próprios pés. Assim como os brasileiros não sabem o que é tranquilidade social e respeito mútuo. Ainda preciso trocar muito com eles para sentir que ambos os lados estejam aprendendo e melhorando com essa troca. Ninguém pode ser tão bitolado a ponto de pensar que abrir os olhos pra cultura do outro é insignificante. Quase respondi a ele com uma outra pergunta, "e quem faz todo dia a mesma coisa, pega o mesmo ônibus, senta na frente do mesmo computador, exerce os mesmos programas, volta pra casa no mesmo horário de trânsito e assiste as mesmas novelas, quer o quê da vida?" Oras, aquilo me intrigou. Mas o que sucedeu-se não foi a pergunta, foi aquela resposta simples e imediata, que veio precedida da voz dele: "Você precisa ter ambição. Você precisa ter sonhos." Eu já sabia que ele era meio equivocado quanto à sua forma de julgar a minha vida, mas a partir dessas palavras eu percebi que ele não alimentava algo fundamental: seu próprio espírito. E quando eu falei pra ele cuidar do espírito ele disse: "Eu não ligo pra isso, ando meio sem tempo". Então eu não quis insistir e deixei de pensar que talvez eu estivesse errada mesmo, sem sequer zelar por algum tipo de ambição de "coisas". Dessa vida, nada se leva. O amor fica. O amor ensina.

1.6.08

Tecido

são verdades escondidas no tecido colorido
tudo o que o olhar compreende
tudo que aos olhos encanta

são dons que os ouvidos orientam
por entre o silêncio do anoitecer
na claridade da lua que se põe
quando a solaridade do pensar
esvai-se na beleza das lembranças

são como anjos que sobrevoam
o quarto aquecido
por aquele que nele respira
preenchendo o próprio espaço
com a alma que lhe abita

são como divindades espelhadas
na luminosidade do luar
são estrelas unidas
arco-íris brilhando
arqueado em recordar-se

são riquezas como pérolas
acordar em companhia
aspirar a solenidade de mais um dia
agradecer à proteção evocada de cima
para a benção receber
quando o ar se inspira.

17.5.08

Re-trato

Ela esperava por aquela noite de silêncio e lua na janela. Queria desafiar sua intuição que previa sombra e luz, calor e arrepio, mãos e pés naquela noite sem fim. Também sabia que tudo findaria, talvez alguma sensação pudesse prolongar-se pelo infinito de seu corpo, pelo espiralar dos seus desejos. Ela queria a espiral no centro de seu corpo, abaixo de seu umbigo, pulsando quente, tremendo de energia.

Quando chegou no quarto dele, percebeu seus desejos esvaindo-se e sua imediata tentativa de resgatá-los para que não saíssem pela ampla janela, cuja luz do universo refletia o tatame de palha bem ao lado do colchão resistente no chão. Avistou um quadro embaixo da mesa, uma silhueta de mulher nua deitada e um homem de costas dando suas coxas para que a mulher apoiasse sua cabeça. A mulher tinha contornos bonitos. O homem, coitado, mais parecia um bicho indefeso. Porém, não há coitados nessa história, nem culpados, nem vítimas, nem nada. Haviam duas pessoas que queriam experimentar. Talvez uma quisesse mais que a outra, mas isso ninguém pode medir com termômetros.

Procurando conversar baixinho com seus desejos que já tinham pulado pela janela, ela pensou que provocaria suas vontades intimas, afinal o que mais queria era sentir a provocação dele se enrroscando nela, passando a língua em seu pescoço. No início não foi assim. Ele estava afoito, quis logo arrancar sua blusa, beijar seus lábios de qualquer jeito, respirava ofegante, queimava. Suportar o incendio é quase impossível, improvável, ou se corre dele ou nele joga-se água. Usou suas mãos frias e úmidas para acalmá-lo, para fazê-lo sentir cada parte de seu corpo e do dela sem pegar fogo. Ela temia virar carvão, não queria, não naquela noite, não com ele ali.

A noite foi mais branda quando tudo virou brasa e vapor. Atingiram estados mais sutis e puderam fazer amor com algumas sensações que o corpo sente quando está ouvindo os toques atentamente. Ela achava estranho não olhar nos seus olhos, nem sequer na sua face. Não conseguia. Não ouvia seus gemidos de prazer, se é que existiam ali. Sentiu prazer mas não soube explicar sua tranquilidade, no fundo pensou que pudesse sentir mais. Mas a noite não permitia culpados. Nem se culpou, nem a ele pela ausência de algo mais intenso. Mais erótico. Mais sedutor.

Dormiram sem palavras. Sem afagos. Levemente abraçados. Não se olharam. Não sorriram um ao outro. Ela continuava tranquila. Nem triste nem feliz. Em repouso. Ele talvez nem pensasse em nada, logo sua respiração ficou profunda e adormeceu.

18.4.08

pérolas da vida

As tragetórias que fazem o maior sentido na nossa vida: acordar num dia em que tudo parece simples, nada exige um mínimo esforço seu. Nesse mesmo dia, perceber que existe uma emoção que vem de dentro e que faz o coração pulsar de uma forma mais intensa, chega a ressoar no peito. O dia vai passando e a realização está pra acontecer. Mas no fundo já aconteceu. O momento de uma estréia, um lançamento, uma publicação, uma inauguração enfim, é sempre a concretização de algo que vem acontecendo na sua vida há algum tempo, porém algumas pessoas nem se deram conta, nem mesmo você talvez. Os dias são feitos de sonhos. As noites também. Os meses passam e os sonhos acordam em personagens reais. O que um dia foi nuvem de pensamentos e delírios ou simplesmente desejo comedido, no outro tornou-se presente. Graças à sua tragetória, aos passos de cada dia. Descobrir os passos é fantástico. É bonito. É simples e verdadeiro.

8.4.08

Silêncio

Querem apenas o silêncio.

O silêncio do amanhecer
na eterna busca do ser

O silêncio de uma manhã
com luz do sol e mente sã

O silêncio de um pássaro cantante
no céu com seu vôo rasante

O silêncio de um sopro de vento
que anuncia a chegada do tempo

O silêncio do lento respirar
O silêncio do coração a bater
O silêncio da mente ao sentir

Querem apenas silenciar.

Pedem apenas licença
para o silêncio se assentar.

20.3.08

nube

Aprì la porta di casa, tutto era silenzio. “Ecco” pensò “la casa è vuota”. Entrò nel bagno e fece una doccia. Dopo la doccia, ancora nuda, spense la luce, chiuse la porta della sua camera anche se sapeva che non c´era nessuno lì. Mise il disco che prese in prestitto dal suo migliore amico, un duo di clarinetto e chitarra classica. Si sdraiò sul letto e sentì tutto il disco mentre pensava nelle onde sonore, nelle dita sulle corde, nel soffiare che veniva dal cuore, nella musicalità dei suoi pensieri.

Chiuse gli occhi. Si ricordò delle notti che passava a casa del suo ultimo amore. Quello che dormiva nudo e si svegliava sorridendo ormai i suoi occhi non erano ancora aperti. Prima di addormentarsi, a lui piaceva sentire la musica che veniva dalla chitarra e del clarinetto, fusi tutti i due insieme, a fare um bordello delizioso.

Pocche lacrimme le hanno bagnata. I ricordi ognitanto vogliono che il cuore dica alcune belle oppure tristti parole. Decise di fare una copia del disco per spedirglielo. Sul disco, verrà scritto: “Ascoltalo nudo al buio”’.

Per Maria

Se la vita fosse una canzone, canterei con tutta la voglia che l´amicizia è como un fiorellino che si sboccia quando viene la primavera, che sa il valore di una stagione, che gode i profummi portati dal vento.

Nel ritornelo ripeterei che l´amicizia conosce la durata di un tempo, sa che i periodi distanti sono fatti d´inverno, nebbia bianca coprendo la vita, parole ghiacciate dalla pioggia di neve.

Come una canzone d´amore, direi che l´amore di un amico non muore mai, riposa quando il tempo non lo permette di vivere con intensità e respiri profondi, si sveglia appena vede la luce, strizza la sua rinascita appena ascolta la voce soffiata dall´altro cuore che gli pensa.

E come una vera canzone, non sarebbe mai finita. Una volta cantata resta incantata per più di una vita.

11.3.08

vira dança magia




dançaria por toda a vida
deixaria a música tê-la invadida
celebraria a cada dia
a sabedoria de cada cantiga
de cada passo que ocupa o espaço
na roda onde seu corpo gira.

o sanfoneirinho

tem coração que toca
com a delicadeza das mãos
tem o balanço das ondas
que soam dentro de cada nota
tem nos olhos - quando os fecha,
a sutil beleza
da música que vagueia
por todos os cantos seus.

nuance

Abriu a porta de casa, tudo era silêncio. "Ufa!" pensou "a casa está vazia". Entrou no banho e depois do banho, ainda nua, apagou a luz e fechou a porta de seu quarto, mesmo sabendo da ausência de pessoas por ali. Colocou o disco que pegou emprestado do seu melhor amigo, um duo de clarinete e violão. Encostou a cabeça no travesseiro e ouviu o disco inteiro, pensando nas ondas sonoras, nos dedos sobre as cordas, no sopro que vem de dentro, na musicalidade de seus pensamentos.
Fechou os olhos. Relembrou suas noites na casa do seu último amor, daquele que dormia nu e acordava sorrindo, dando risadas de olhos ainda fechados. Antes de dormir, ele gostava de ouvir o som do violão e do clarinete juntos, numa algazarra sem fim.
Chorou poucas lágrimas. A lembrança faz o coração dizer algumas palavras tristes e tão bonitas às vezes. Decidiu fazer uma cópia do disco e enviá-lo pelo correio, e na capa com os nomes dos músicos escreveu: "Escute-o nu, no escuro".

na consulta

Sentada com as pernas cruzadas bem em frente ao seu terapeuta, ela perguntou ousadamente:
- Já se apaixonou por alguma paciente tua?
Ele olhou para o lado, depois voltou seu olhar para ela e devolveu a pergunta com um sorriso no canto da boca, aproximando-se de seu semblante:
- E você, já se apaixonou por algum de seus alunos?
Com o sorriso de lábios fechados, ela nem hesitou:
- Já!
- E então? o que aconteceu? - perguntou ele com interesse.
- Nada! - veio a resposta leve junto com um levantar de ombros.
- Mas...a paixão não foi declarada? - quis saber ele enrrugando a testa.
Com um risinho suspirante e uma longa piscada, respondeu:
- A paixão é declarada a todo momento quando se a tem. Nem sempre em palavras, talvez muito menos em palavras, o olhar sabe dizer. Basta que o outro saiba decifrar e receber o sentimento que escapa pelos olhos. Então, já não depende mais de quem entrega tudo aquilo, mas de quem recebe, se é que recebe, se é que quer receber.
Ele, um pouco perplexo diante da resposta disse olhando pra baixo:
- Muito bem. Nos vemos na próxima semana, espero que você volte.
- Sim. Até logo.

Ela saiu pela rua pensando em telefonar a um amigo que queria ver. Não conseguiu encontrá-lo em casa e não respondeu ao celular. Desceu a ladeira pensando que os homens, independente de seu tamanho, vão sempre baixar os olhos para uma mulher que sabe o que quer.

6.12.07

casa de maria



a casa de Maria
tem varanda com flor
abélia, lírio, azulzinha
vaso de margarida
canteiro de rosa
miúdo jasmim

o jardim da casa de Maria
tem árvore cerejeira
castanha, castanheira
limoeiro e oliveira
nasce uva na parreira

na horta da mãe de Maria
cresce pomodorino verde e vermelho
pimentinha e pimentão
alcachofra tamanho pequeno
salsinha o verão inteiro

da janela de casa
Maria vê a montanha
alta e verdejante
de Borgo São Lourenço
branca com a neve
quando cai o inverno

da porta da cozinha
late o cão que Maria cria
tem pêlo escuro
das noites sem lua
tem olhos grandes
pra ver a rua

acena do portão
ao vilarejo Maria
é Lucco de Mugello
onde passa seus dias
de descanso
leva os amigos
que acreditam que paz
e passarinhos podem reinar
por todos os cantos.

em sua terra ela ainda muito ressoa



Ela repousa sob os braços que se modelam para abraçá-la.
Pode ser boneca por ser adorada pelos que a têm no colo. É uma senhorita com elegância e respeito que uma donzela gosta de instruir. Esbanja charme e junto com ele esparrama beleza e trejeitos tão únicos que se interceptam com a velocidade dos dedos mas também com o som de um lento respirar. Ela pode ser vermelha se for sanfona, ele pode ser escuro se for um acordeon.
Tão peculiar e complexo, esse instrumento vem chamar atençao do olhar do passante, do passante que anda, passeia por muitos países e encontra em todos os foles de povos diferentes, a sua unidade e também a sua diversidade. Ela é única. Ele só pode ser tocado se houver um casamento; quando casam movimentos do corpo, de cada parte pequena, dedos, mãos, num crescente ante-braços, bíceps, ombros, escápula, dorso e seu segmento ascendente ao pescoço. Casam-se pensamentos e capacidades, sentimentos e improvisos, melodias e harmonias, timbres e tons, amor e dor, dança e lentidão, sonho e sonorização. É o casamento de todos os elementes presentes, oriundos da comunhão harmônica, que fica perto do coração.

O carregar da sanfona na Itália traz a sensação de que é a melhor companhia para uma praça com sol, para uma rua de pedras com pés que pisam todos os chãos, para um céu que se abre em azul e sobrevoa o tempo que existe na música em execução. É bonito de ver os mais velhos com sabedoria a distraírem-se com ela no colo, ouvindo suas próprias canções, que provavelmente continuam a dar sequência à uma tradição de gerações, e que permanece no seu berço madrigal, popular e oral. Está sempre nos braços dos que acariciam o povo sem tocá-los efetivamente, mas cobrindo-os com uma manto de saudação.