quem sou eu

16.4.10

Para Dora

Dora,
quem te adora
põe-te na mão e ora
e na beleza da face
de te ver, se cora


quem te namora,
Dora
é teu pai
que faz hora
nunca vai-se
embora
sem antes amar-te
mais que outrora


a feminilidade
de Dora
se incorpora
aos doces olhos de agora
azul de céu de amora


ainda pouco chora,
acorda Dora,
sonha e vê
o mundo a sorrir-te
como a lua lá fora.

14.4.10

Imagem

corre menino
vai pra ponta
na beira do mar

sopra o ar vazio
de volta pro navio
na saída do cais

segura outra criança
na palma a herança
de outro que se vai

salta o menino
pro fundo
no escuro da água de sal

toca a areia
do mundo
onde o corpo se desfaz

abraça o laço
de memória no céu
de anis de alma que vai em paz

o passado afunda
e bóia na presença
da saudade que jaz.

9.4.10

Cabeça de Pipa

"Por asas nas costas e voar por aí
do céu dá pra se ver
bem melhor
por aí

De sua sede, de sua lágrima
que hidrata a dor da sede

Cantei toada no monte do morro
olhei por fora do fogo do sol
a gente nem tava ligando pra pipa
mas ela levou o mundo todo de anzol"

Lenis Rino
me deu de presente seu Cd de suas composições, "Cabeça de pipa". Ele é grande, troncudo, forte, tem um coração imenso e escreve bonito...pra quem quiser dá pra baixar pela Traquitana discos.

6.4.10

Regresso

quando um coração quer permanecer

e tendo que partir

escolhe deixar o amor,

nasce em cada amanhecer

ilumina o pranto em cada entardecer

dorme com o sol

se veste de sonhos

se imagina real

transparece verdadeiro

colhe flores,

cuida pra não murchar

e o tempo despetala

com o vento.

quando resta ao coração partir

cobre-se com o manto

da oração

humilde desejo de ter-se abençoado

e cantando prossegue

como se a vida fosse uma canção.

1.4.10

no céu

Ela não está mais aprisionada em sua dor, ela se libertou.
Foi com o sopro do vento forte do jardim de camélias. Foi quando saiu daquele hospital sem cor e com cheiros fortes. Ela vai descansar muito, ela nos deixou compaixão, gratidão, amor, a dor que ainda vai cicatrizar, o gosto amargo da doença que corroeu seu corpo por dentro. Mas sua alma repousa no céu.

Essas coisas são sempre bonitas de se dizer, e elas tem de ser ditas pra que tragam o silêncio eterno e o silêncio dentro de nós mesmos, pra que a serenidade nos conforte. Eu passei a admirar a morte sem sofrimento desde que ela começou a sofrer, há um ano atrás. Mas houve luta; foi bonito. A batalha pra se viver, pra vencer, pra curar, pra conseguir, pra prolongar a vida. Depois da batalha um grande esmagador de esperanças apossou-se de nós todos e dela, comeu a carne, os órgãos, dia após dia, noite após noite, um exagero com um fim.

Minha avó morre em véspera de Páscoa, junto com o Jesus que ela tanto amava. Não deixou de ser uma crucificação tudo isso, tudo que Ela passou e que nós compartilhamos, podíamos apenas confortá-la com nosso calor, nossa compaixão.

Muito querida, minha avó. Cuido das flores de seus vasinhos, pequenino jardim de cultivar amor. Cuido da felicidade que pra ela era tão difícil de abraçar.
O amor não tem fim.

26.2.10

Sono profundo

Ela está lá dentro de si mesma
Aprisionada em sonhos de momentos passados
Clama por liberdade
Chama pela morte
E permanece em silencio enquanto não a tem.

Os cabelos brancos estão limpos,
o lençol em que ela se deita é lavado
- dia após dia -
das manchas que escorrem de seu corpo
magro e sereno.

Os olhos azuis tampouco contemplam o céu,
enxergam a brancura da ausência de um caminho,
névoa sobrecarregada na terra,
passos cambaleantes e poucos.
A camisola se lhe escorrega pelos flancos.

A cada hora, um líquido na veia.
A cada intervalo, a medida da temperatura, pressão, inchasso.

Nas plantas dos pés, as ramificações avermelhadas
desordenadamente desenham-se sob a alvidez da pele.
Quando não há riso,
Não há choro,
Não há fantasia.

A luz que ora se reacende neste quarto
Não é a mesma que batia na janela de seu quintal
O quintal que era sua vida,
Suas plantas,
Suas roupas estendidas,
Seus afazeres que nunca tinham fim.

Quando as vozes no corredor soam alto,
Ela diz que é a reunião.
[são as enfermeiras discutindo acerca da medicina]
Quando escurece,
Ela pergunta se o filho já chegou.
Assim ela adormece em sua consciência,
aquela que nunca transcende,
jamais se esvazia.

Resta sempre
dentro de si.

Suspensa

A vida em escolha
entre ir-se
ou retornar
O que vem
só pode ser
Felicidade
Ensinamento
Som
Certeza
Sentido
Continuidade.
O fio
que puxa o corpo
pro eixo
está em laço
com a mente,
balança
se estende
Tem-se firme,
conciso.
A vida
se quer
fazer presente
embora se ausente
enquanto
no ar
está

Suspensa.

22.2.10

Alvidez

Água benta.
Pura e iluminada.
Lava um coração imperfeito.
Leva consigo manchas de impurezas,
dores incolores.
Veste-o como uma luva
protegendo do frio.
Salva-o de sua cor rubro sangue,
inundado de inquietações.

A completude de um ciclo;
a conversa franca e alva
como a água preenche os caminhos
que circundam o labirinto interno.
A boca pede mais que sorrir.
Saber falar
de dentro
daquilo que se sente,
de tudo que não se entende,
não se declara.
De sensações truncadas.
De desgosto amargo.
De tristeza sem culpa.


O movimento pede uma cadência,
momento da água se espalhar
deixá-la circular
em abrangência, a todos os lados rolar.
Tempo de limpeza clara,
como lençol molhado no varal tomando vento.

12.2.10

ã

solta o grito

QUERO me libertar

que a mente aprisiona conceitos

QUE A Mente enlouquece aos poucos

o vinho tinto misturado na água
o papel riscado de tinta azul


QUERO me esquecer


o mundo é o espaço imaginário
quem o imaginaria?


as cordas soltas do violão
trastes

O QUE cantam?


a voz ora enrouquece
depois respira e adormece


VAI quando Acordar?


nem de manhã
no amanhã de ontem.

11.2.10

manhã bocejo

ver o sino bater
a veneziana se abrir
ouvir o tom do grilar
sentir o cheiro do luar

{ainda noite]

por debaixo dos olhos
nasce o sol
lençol esparramado é o céu
nos sonhos, a claridade ri-se

véu do amanhecer
caindo sobre o sono;
silêncio com cantos
pássaro entre tantos

quem acorda e levanta,
criança.
café no coador,
irene preta.
cadeira de balanço,
avô.

a cama?
dorme...

21.11.09

ai

cai
esvai
se vai

pelo chao
vai caindo
tudo solto
deixa morrer

pelo ar
tudo voando
vento soprando
deixa escapar

pela terra
a queda continua
acumulo de vida
deixa adubar.

Mais uma vez outono






Cena I.

Precisava encontrar um laco de fita colorido pra por na cabeca. Revirava sacolas, gavetas, mancebos, haviam tambem tecidos espalhados pelos quartos e tambem pelos corredores. Haviam fantasias penduradas, penas caidas e lantejoulas espalhadas no carpete. Algumas garotas tinham perucas de macarrao, outras de espuma verde, outras de folhas de outono e uma tambem de missangas. Cada cabeca uma sentenca...mas ainda precisava encontrar o laco que me serviria na cabeca, nao queria pendurar bananas ou macarrao parafuso, nem chapeu de oncinha ou zebra. Nao encontrei o laco e amarrei um pano qualquer, sem pensar mais no assunto, pois quando todos ja haviam partido para o desfile, eu ainda estava la', no meio da bagunca dos camarins, tentando encontrar algo que eu nao conseguiria achar em poucos segundos. Ou talvez sim. Meu grupo seria o ultimo a desfilar, mas ja estava pronto, lined up, cada qual com seu instrumento. O tema do que colocar na cabeca fora resolvido, entao resolvi checar meu intrumento de percussao, uma especie de djembe de mao, pequeno e me deparei com a pele furada. Fiquei com essa imagem do instrumento sendo trocado de uma mao pra outra, como se houvesse uma solucao imediata..corri pra dentro do camarim novamente, procurando agogos, baquetas, algo que pudesse substituir meu instrumento original, afinal tudo se pode improvisar nesta vida..eis que o grupo parte para o desfile e eu fico ali, na indecisao de correr pra alcanca-los, usar qualquer coisa que tivesse encontrado pelo caminho - nao tinha encontrado agogos e sim um chocalho feito de conchas de ostras.

Cena II.

Em velocidade sob o patinete preto e prateado na doutor Arnaldo, avenida movimentada que encontra Reboucas, Paulista, Heitor Penteado. O trajeto era por ali, precisava achar o predio da sessao Pos-cirurgica do Instituto de Cancer do Hospital das Clinicas, para visitar minha avo'. Patinetes em punho, transito de Sao Paulo, sempre movimento e luzes, eu de casaco amarelho e duas sacolas, capacete. A um certo ponto, encontro minha irma, tambem de patinete, tentando se lembrar qual dos predios era o certo. Nao conseguiamos. PAravamos, perguntavamos, iamos de um lado pro outro. O horario de visitas ja se esgotara e ainda estavamos diante da portaria de um predio qualquer. Escurecia.Ainda havia a possibilidade de conseguir chegar pro turno da visita noturna. Ficamos ali, sem saber pra que lado ir, na indecisao de correr ou telefonar pra alguem que nos desse indicacoes precisas para se chegar ao hospital.

Cena III.

Caminhada pela trilha rumo a uma cachoeira. Adultos e criancas com calcas e galochas coloridas, primos que hoje tem a minha idade eram criancas naquela cena. A cachoeira era a Santa Clara, ou famosa veu-de-noiva. O trajeto era divertido, com pedras pelo meio, riachinhos pra atravessar, raizes e troncos pra pular. Barro, excursao de escola. No meio do caminho uma construcao com degraus a frente. Uma plaquinha dizendo: tirem os sapatos para entrar. Todas as criancas curiosas tirando apressadamente suas galochas e deixando-as tombar de qualquer maneira pelos degraus. Entrando no local, vejo imensas banheiras hidromassagens - tambem conhecidas como jakuzzis de diversos tamanhos, todas com a agua evaporando, algumas ja com clientes sentados, outras ainda vazia. As criancas ficaram encantadas, queriam pular em todas as banheiras. Iamos passando por todas, pelas maiores para poder escolher uma e la' pelo meio do salao encontramos Silvia sorrindo na banheira - Silvia nao mais vive conosco, mas ja esteve com a gente em uma das trilhas pra cachoeira. Silvia estava la', rindo e nos chamando pra entrar na agua quente. Nos queriamos seguir pra cachoeira, mas queriamos tambem ficar, aguas diversas -uma parada, outra corrente; uma quente outra fria; uma a ceu aberto, outra fechada a quatro paredes; a indecisao entre partir ou megulhar.

Cenas I, II e III.

Tres cenas. Tres diferentes sonhos, diferentes e iguais. Movimento e pausa. Procuras, trajetos, tempo, grupos, minha consciencia, escolha, indecisao. Todos os sonhos giram em torno desse tema - alcancar o objetivo, a confusao pra alcanca-lo, os imprevistos, o que fazer? Nenhuma solucao aparente nas cenas, a claqueta bate sempre ali, quando meus olhos encontram meus proprios olhos e fazem a pergunta, e agora?

10.11.09

Longe dos olhos

Meus olhos estao fechados e sinto a pouca claridade refletida em minhas palpebras. Meu corpo esta' imovel. Nao o sinto competamente, parece haver uma consciencia distante de que ele esta ' ali comigo, acompanhada de um brando calor, quase como um vulto que nao tem peso nem consistencia. Parece que estou imersa numa piscina de nuvens de algodao, consigo ouvir ligeiramente alguns sons sem continuidade, mas e' como se os ouvisse de dentro do meu cerebro pra fora, e nao o inverso. Nao ha muito pra pensar nesse estado atual. Todas as imagens vem borradas e diluidas, sobram algumas cores mescladas, nada escuro, nada muito claro.

Existe um silencio que quer permanecer. E nao ha outra maneira de interrompe-lo, ja que meus sentidos estao adormecidos, ralentados por algum estimulo energetico que vem de fora, este porem, nao e' um estimulo como outro qualquer. Possui uma densidade que sobrepoe o peso de meu corpo, carrega um branco que nao da' luz nem a devolve, a mantem condensada. Nao possui cheiro este estimulo energetico, priva o olfato de sensacoes que os odores ou aromas lhe causam. Nao e' palpavel, nao tem uma forma definida, nem esta' diluida, e' sempre densa, se move bem lentamente.

Assim, meu corpo - como que em repouso - recebe esta energia. Fica ali, passivel de qualquer reflexo. Longe dos olhos tudo esta'.Dentro do labirinto de mim mesma, nao sinto o chao que outrora pisaram meus pes. Penso pouco. Nao ha desespero, nem dor, nem consciencia do tempo que passa. Apenas a retinta luz, o espaco das quatro paredes, a colcha quadriculada, a aquecedor soltando vapor. Permanecerei o tempo que precisar.

29.10.09

Santa Clara

Escorre a agua
clara e cristalina
pela pedra,
rocha primitiva
carrega vida
pura e divina
respinga a espuma
branca e salubre,
gota que no poço
pinga,
ao rio se une.
Santa Clara
beleza rara,
na clareira
de uma tao
verde mata
a cachoeira
em cascata.
Lava a alma
do corpo que
ali se banhou,
leva a dor
que a morte
à vida deixou,
limpa a tristeza
das partidas
que o tempo preparou,
louva a liberdade
que a eles foi concedida
luzeia nosso luto
e torna sempre agua
o que ja nao e' vida.

Mirador

Saudades de Mirantao, daquela aldeia distante no meio de altas montanhas, entre a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira. Ha dois dias acordei com a lembranca de Mirantao, do trajeto tortuoso que o onibus empoeirado fazia na estradinha de terra Maua-Mirantao para la' chegarmos, no topo do Vale do Alcantilado. Dentro do onibus, a chacoalhoes iamos parte em pe', parte agarrados as barras de metal do velho transporte que fazia barulho de motor engasgado, e carregava diariamente velhos, criancas, sacolas, colheitas, mochilas de viajantes, encomendas da cidade. Iamos eu, minha prima e minha tia visitar sua amiga e o filho que moravam em Mirantao.

A casa, me lembro bem, era de barro e tijolos a vista, com teto recem-construido, pilares de madeira, nao haviam portas dividindo os ambientes da casa, apenas cortinas,as cortinas de algodao costuradas a mao, sempre com alguma remenda 'a mostra. As janelas eram amplas e recebiam de fora a luz pura de regiao de montanha. O ar e o silencio eram as coisas mais puras e significativas naquele lugar.

Brincavamos nas montanhas ao redor. Alguem sempre contava uma historia de disco voador que se aproximava do local em noite sem lua e ceu estrelado. Brincavamos ate' o entardecer, quando esfriava um pouco e os adultos nos chamavam para tomar sopa. Me lembro bem da sopa de ervilha que se cozinhava. A Silvia, amiga da minha tia, era uma mulher forte, com uma larga mandibula e voz rouca, ela sempre ria e contava piadas, tinha uma preocupacao com a saude mental e o esforco de cada dia, a vontade de conquistar mas ao mesmo tempo a humildade de saber colher as coisas no tempo e na medida certa. A Silvia sempre me dizia que quando eu crescesse, seria sua nora! O pretendente era seu filho Leo, que tinha a mesma idade, ou era um ano mais novo que eu. La' em Mirantao acendiamos a lareira e assavamos pao. Elas cozinhavam em fogao a lenha e ficavam ate' mais tarde conversando enquanto as criancas iam pro quarto dormir 'a luz de velas.

Vinte e dois anos se passaram.Por quantas vezes a lembranca de Mirantao me visitou ao longo desses anos, nao sei calcular. Sempre a lembranca da luz clara, do cheiro de mato, do nosso caminhar com galochas pelas trilhas nao muito distantes da casa, dos jogos de cartas na varanda de cimento queimado, da terra batida da rua, as pedras que seguravam os amontoados de outras terras nos barrancos das vielas. Tantas vezes Mirantao nos meus sonhos, o ceu iluminado com mais de cinco estrelas cadentes que riscavam o ceu quando nos colocavamos sentados por algum momento da noite, do lado de fora da casa.

As lembrancas nos pintam as cores das sensasoes que tinhamos quando ali estavamos, sao como laranja e perola, verde e azul pastel. A memoria que leva e traz as outras vidas que tornaram possivel e real tudo aquilo, naquele cenario. Minha tia segurando minhas maos e de minha prima. A Silvia rindo-se da minha tia quando ela amassava pao. O Leo cutucando os gatos com uma vareta de bambu. Minha prima enrrugando o nariz feito coelho.

Ha dois dias acordei com saudade de Mirantao. Vi todos que um dia ali estiveram.

Hoje acordei e recebi a noticia de que a Silvia e o Leo de outrora Mirantao foram parar em outra esfera da vida, la onde nunca mais veremos seus olhos brilharem, nem tampouco ouviremos suas risadas. La' onde estao tantos outros espiritos em liberdade. La' onde deus vive em paz.

11.10.09

Turquia III

O ceu e' um tanto esbranquicado ao longe, mas nao ha nuvens. Deve ser o clima arido do Oriente. Faz calor durante o dia, a' noite, no entanto, a temperatura cai. Nao chega a ser frio, um leve frescor de cidade costeira. O outono se aproxima, isso quer dizer que a temperatura e' perfeita, brando calor, nada parecido com aquela imagem de temperatura sufocante que eu tinha.

Istambul e' a cidade dos gatos. Nao ha cachorros vira-latas e sim gatos que enfeitam os bancos das pracas, os jardins, as calcadas, os latoes de lixo, as vitrines, as portas de bar..sao pequenos ornamentos vivos sob os tapetes que ficam estendidos em algumas ruas. Os gatos vira-latas dao um certo charme 'as ruas, possuem uma beleza delicada e feminina, alguns bem peludos e saudaveis, outros magricelos e um tantos judiados pela "vida de cao".

Enquanto caminhamos pelas ruas, os turcos chamam nossa atencao, tentam varias linguas - Hola! Ciao! Hello! De donde eres? Where are you from?, Mira! Venga! Come here! South America? Muitos acertam. Um outro veio exclamando de dentro de uma Kebaberia (sao as tipicas lanchonetes que preparam os Kebab's, pao com a carne que fica amontoada num pau de ferro tostanto).Pois estavamos caminhando quando surge um turco empolgado "Brasil! Brasil!" disse que sabia reconhecer de longe o viso brasileiro pelo cabelo- nao o meu, mas do meu companheiro.

Os inumeros restaurantes e kebaberias dispoem suas cadeiras, poltronas e sofas para o lado de fora, nas calcadas, onde os passantes veem os pratos coloridos e enchem-se de agua na boca. Uma festa de cores, as comidas a disposicao em vitrines, muito pimentao, tomate, beringela, cebola e pepino, dentre varios tipos de carne e frango. Os garcons sempre usam as varias linguas e mais a deles pra insistir que um fregues escolha seu restaurante. Entre um restaurante e outro estao as docerias. Docinhos de massa folhada caramelizadas com castanha, amendoas, pistaches 'a mostra em enormes formas de aluminio e sao vendidos por quilo.

Na mao dos vendedores e garcons, sempre a porta de seu comercio, ve-se o Cai (diz-se tchai)famoso cha turco, servido em pequenos copos "acinturados" com detalhes desenhados em dourado e pires com uma colherinha pra mexer a barrinha de acucar. Curioso que pelas ruas, nao se sabe muito bem de onde vem, meninos ou senhores carregam uma bandeja com os chas e distribuem pela rua de comercio. Vemos tanto as pessoas tomando o cha, quando os copinhos vazios, que serao recolhidos pelos mesmos que passaram com a bandeija servindo. Alem do cha turco, o cafe turco tradicional e' muito saboroso.Em muitos cafes alugam-se narguiles para serem fumados, possuem diferentes aromas e na rua sente-se os odores das farias essencias das pedrinhas de fumo - maca, pessego, uva, cereja, menta...






Suco de fruta, principalmente roma e laranja estao espalhados por toda a cidade


Doces e frutas cristalizadas


Festa das cores nas varias feiras espalhadas pelos bairros


Os compradores sempre em atividade!


Hora do Cha

9.10.09

Turquia II

Na primeira noite, saimos pra jantar e ao subir a rua nos deparamos com uma imensa Mesquita circundada por um Patio. Entramos pois todas as portas estavam abertas. O patio era todo de marmore e possuia varios compartimentos, que viemos a descobrir, eram salas onde haviam hospitais ou sala de emergencia, cozinha, escola, dormitorio, biblioteca, banheiro, todos em desuso atualmente. No centro do Patio encontra-se uma cupula com varias torneiras e banquinhos de marmore a frente das torneiras. Ali, os fieis habitualmente lavam seus pes antes de entrarem na Mesquita. No's visitante, cumprimos apenas parte do ritual; tiramos os sapatos e as mulheres devem vestir um lenco para cobrir a cabeca e colo.

Pisamos no tapete que cobre toda a parte interna da Mesquita, era de um vermelho bordo muito vivo em oposicao aos vitrais coloridos, as paredes com os azulejos pintados a mao e os escritos na caligrafia arabe em dourado. Desde a primeira vez que entramos em uma mesquita nessa noite e muitas outras vezes nos dias precedentes, tivemos a sensacao de estarmos num momento de contemplacao e silencio, ou silencio precedido de contemplacao. Dos tapetes limpos e majestosos sob nossos pes ao teto em cupula sobre nossas cabecas, esvaziamos o corpoe a mente cheia de sugestionamentos e passamos a esse estado de espirito contemplativo, que vai no interior de si, comunicar-se consigo ou com Deus. Era bonito de ver jovens, homens e senhores fazendo suas oracoes, ajoelhando, encostando a testa no chao, ajoelhando novamente com as maos apoiadas nas pernas e levantando em seguida. Repetem essa sequencia de movimentos diversas vezes e parecem estar concentrados no que estao fazendo.

A mesquita e' um tempo sem altar ou imagens de santos, esculturas e ornamentos. E' feita de marmore por fora e por dentro estao os azulejos em tons verdes e azuis em sua maioria com a grafia arabe, provavelmente partes do Alcorao estao escritos. Os lustres ficam proximos a nossa cabeca, sao presos por longos fios de aco que vem la da cupula ate chegar numa estrutura redonda de metal onde estao presas as lampadas. Entramos em diversas Mesquitas em diferentes periodos do dia e sempre haviam pessoas fazendo oracao. Sempre curioso, as mulheres ficavam num canto separado.



De dentro de uma mesquita, outra...








8.10.09

Turquia I

Seguimos rumo ao Oriente. Na verdade, exatamente na divisa de terras, entre o canal que divide as terras ocidentais e orientais; verso norte esta' o Mar Negro e verso sul o Mar Marmara que se encontra com o Mar Mediterraneo pelo oeste. Terras antigas dos livros de historia, terra conquistada pelos romanos, chamada de Bizantina, a grande capital do comercio no Oriente, enquanto Roma se expandia no Ocidente. Terra que apos mil anos de ocupacao romana foi conquistada pelo povo otomano, e logo o novo imperio se reestabeleceu. Imperiavam os sultoes, como grande senhores feudais que comandavam o territorio e detinham a maior parte da riqueza.

Terras pelas quais passavam tantos navegadores...quantos barcos por ali passaram para trocar ou levar mercadorias, quantos negociadores estiveram a fazer render suas moedas e quanta prata e ouro encontraram, quantas pedras preciosas, tecido, ornamentos, temperos, pimenta, cafe, cha, quanto dessas coisas todas foram produzidas e vendidas nesta terra? Ainda hoje o sao. Terra das mercadorias, infinitas vitrines exibindo joias, colares, aneis, rubi, turquesa, perola, jade, ambar..serao realmente verdadeiras todas as pecas? Sendo ou nao, brilham, reluzem uma beleza de encher os olhos, enfeitam as calcadas, os bazares, as vielas.

Alem das joias, os tapetes imensos e coloridos, diz-se que sao feitos de seda e muitos bordados 'a mao. Serao mesmo? Colorem as ruas, paredes, jardins, varandas, pracas, ficam pendurados em qualquer muro arcaico com tijolos imensos, contribuem para um cenario particular e se tornaram a marca registrada do pais turco. Alguem menciona Turquia e a memoria, mesmo que ainda nao tenha conhecido este lugar, logo ve cores e objetos, mercado, troca, interesse, venda, barganha, pechincha.



Istambul vista por quem navega e' encantadora



Saindo do aeroporto, logo vimos nosso nome no cartaz do taxista que nos esperava. Ele murmurou um "one minute" e mais oito pessoas seguiram para a van. Outro rapaz veio acomodar as pessoas e suas bagagens e ali notamos que a comunicacao era baseada em gestos. Uma rapida comuncacao com o olhar e mais gestos. Do aeroporto 'a cidade, entre uma cochilada e outra, chegamos 'a ponte de Bosphorus para atravessar o canal divisor de aguas e terras. Finalmente Istambul diante de nossos olhos. Muitos navios pelo canal, muitos carros pelas ruas, pessoas caminhando, transito, buzinas, ultrapassagens rapidas.

A chegada ate' o hostel foi demorada. Passamos por varios bairros ate' chegarmos ao que ficamos hospedados; uma tranquila viela com ruas de pedra no antigo centro historico Sultanamneth - literalmente o bairro dos sultaos, onde se concentram os maiores palacios e mesquitas.Um senhor muito gentil e muito simples (com poucos dentes na boca) nos recebeu. Chamava-se Oman e aqui a comunicacao continuou gestual. Poucas palavras e as mimicas nos divertiam.

Da janela do nosso quarto vemos a cupula de uma mesquita e mais a frente o Mar Marmara. Em poucos minutos ouvimos a primeira "ladainha", momento de oracao islamica advinda dos auto-falantes na torre das mesquitas. Se ouve a melodia bem proxima e outras mais ao longe, numa mistura de melodias repletas de microtons - tons menores que os meio-tons (intervalos entre uma nota e outra) presentes na musica ocidental. Os micro-tons estao muito presentes na musica do oriente, principalmente musica arabe e grega. Contudo, aos nossos ouvidos desacostumados, soam como uma especie de gemido. A "cantoria sagrada" -como optei por chamar, para nao confundir com as ladainhas catolicas, dura em media 3 a 5 minutos e depois o silencio (ou o barulho do transito) volta a imperar na cidade.

A ponte


Vista da janela do nosso quarto

22.9.09

Contact corpo

sala cheia de corpos estendidos. lentamente se movimentavam, se alongavam, esticavam, faziam curvas, levantavam as pernas, giravam o pescoco. alguns eram tao flexiveis que sem perceber faziam danca antes mesmo da danca intensionada.
uma garota com bracos fortes, costas largas e cabelo curto fazia impulsos com o ventre e lancava as pernas para o outro lado, voltava, apoiava as maos no chao, sustentava seu corpo,entao se reerguia, uma beleza de corpo consistente com a leveza dos movimentos impulsionados por uma forca invisivel mas transparente. era a menina mais bonita da sala.
um rapaz vestia calca rosa-pessego e tinha o cabelo quase raspado. era magro. ficou sentado em posicao de lotus enquanto a sala com os corpos dentro apenas comecava o aquecimento. quando de fato os corpos foram motivados a movimentarem-se pelo "lider", era nitida clareza dos movimentos dele, o olhar sempre 'a frente como se executasse antes do corpo.

a danca comecou com cada qual independente pra depois se entrelacar com outros corpos. pulsos tocando as partes de outros corpos, o pescoco leve, giros, apoio, sutentacao, respiracao. contato. improviso. um corpo interrogando outro corpo, haveriam respostas? como interpreta-las? estavam a dizer sempre a mesma coisa ou outra?

e' quase inexplicavel em palavras e movimentos como seu corpo se identifica com outro corpo nessa linguagem sem olhar e sem fala. de repente alguem toca nas suas costas e voce sente que aquele peso exerce um fascinio no teu corpo e o improviso acontece de os corpos levarem-se pra uma danca que simplesmente acontece.

com alguns corpos, ao contrario isso nao parece acontecer. ha a tentativa de tocar as maos, os pulsos, os bracos. mas o deixar-se receber o peso da outra pessoa, a entrega para um ritmo e uma combinacao, como uma composicao que vai criando forma, permanece na intencao de faze-lo, que e' a intencao da propria aula de contato-improvisacao.

alguns corpos eu deixei que viessem com a danca que queriam dancar, mas meu corpo nao reagiu. poucos outros corpos exerceram o fascinio do movimento, e do toque, o peso, aproximacao e afastamento, ombros e barriga, um suspiro junto. a menina de bracos fortes por duas ou tres vezes encontrou meu corpo. eu recebia o peso dela nas minhas costas e nas minhas pernas e sentia a energia ali contida. o menino de calca roa-pessego tocava seus pulsos e impulsionava meu corpo pra tantos outros movimentos e por tantas vezes deixei a gravidade da terra presente no corpo dele sustentar meu corpo.

houveram momentos de corpos aglomerados e duplas que se comunicavam como se se conhecessem ha muito tempo. um tempo no espaco de outro tempo.

29.8.09

a vida na arte,
ou a arte na vida?

sempre fui da segunda opcao. a arte na vida e' leveza, beleza, e' aquilo que faz a diferenca no seu dia, depois de dar tantas aulas, ou depois aqueles relatorios interminaveis, ou mesmo pegar aquele busao chacoalhando e ir la' no terminal capelinha, dar aquela reposicao de aula que voce nunca mais vai querer se lembrar...a arte depois de chegar em casa e tirar os sapatos. tem uma musica ali te esperando, o violao afinado, o piano na sala. Ou os melhores poemas de um poeta brasileiro ou italiano ou espanhol ou portugues. a arte na vida tambem pode ser aquela batucada no fim de tarde, as rodas de cantoria no parque, na casa de algum amigo, na praca. pode ser danca contemporanea, pode ser uma umbigada, saias rodando, macaibas saltitando. a arte na vida traz um brilho que as outras coisas nao tem e voce se sente como se desenhasse com giz pastel, borrando ligeiramente e misturando as cores.

a vida na arte foi sempre um questionamento. ainda o e'. como tornar o que e' prazer infindo com responsabilidade do dia-a-dia, a arte virar seu ganha pao, seu negocio. ter que negociar a sua arte com alguem e' uma das coisas mais entorpecedoras na minha vida. tabelar. botar preco. fazer marketing. vender-se. mostrar-se boa. muito boa, performatica ate', cheia de conhecimentos acumulados, dons, dotes. a vida na arte e' uma barra de ferro atravessando o teu caminho. talvez nem seja tao dificil ultrapassa-la, talvez ela seja so' uma pedra no caminho..que tinha uma pedra no caminho..drummond provavelmente sabia dizer bem o tamanho dessa pedra. a vida na arte exige mais que talento, exige dedicacao integral, vira ate' alguma coisa como todas as outras, parece que nao faz mais a diferenca, porque o dia inteiro voce esta' ali, praticando uma coisa pra que fique boa e que possa te dar um repertorio pra criar algo novo. ninguem cria boa arte sem ter antes malhado ate' acabar com a caixa inteira de giz colorido.
enquanto isso, quem tem a arte na vida nao precisa pensar muito nisso, sabe apenas admira-la, fica com o resultado prazeroso, com a magnitude. a vida na arte, contudo exige constancia, disciplina, repeticao.

27.8.09

Prados

embarco contigo
neste encontro de quem a alma leva
'a passeio pelos prados dourados
despetalando as emocoes
ensandecidamente desabrochadas

com a palma das maos
lancei-as no sopro de brisa
flutuando lentamente
perderam-se umas 'as outras
sem lagrimas de solidao
nem resmungo de lamento
lascas amareladas soltas
no espaco vazio,
apenas o prado,
o ceu curvado
em acolhimento.

contigo embarquei
nas cancoes que repousam
dentro de cada silencio
intervalo de cada nota
o meio pelo qual se ergue um corpo
lucido ao atravessar os campos
corria como se meditasse
sem pressa, selena
luz que clareia a lua
tem nas margens de ti
a pureza de ser
contigo ar, amor.

16.8.09

onde

procurei pelos cantos, pelas beiradas estreitas, por debaixo dos panos, dos lençóis, pelas frestas da janela, da porta, das tablas do chão de madeira antiga. procurei pelas gavetas, entre as roupas cheirando a sabonete, entre alguns livros empoeirados, procurei em cada toque, entre cada fio de cabelo, e cheiro, entre os movimentos da silhoueta, por muitos do ângulos nao encontrei. nao sei onde foi parar aquilo que dá o curto circuito dentro de todos os órgãos e retumba levemente em todas as partes e também no cérebro. procurei se pelo caminho se perdera nas mãos de quem soubera um dia encontrá-lo e vê-lo de perto acontecer. nao sei se lhe roubaram de dentro ou de fora, se lhe arrancaram a raíz profunda ou se a raíz continua lá, intacta neste longo momento de ausência, querendo ser procurada, esperando a vez de quem sabe que vai encontrá-la.talvez nada tenha se perdido, é só o tempo que vai dizer o que está escondido e que não se tenha vez de achar. quem terá? qual o fim de um percurso desconhecido? existe um chakra do autoconhecimento espiritual e da intuição. situa-se ao centro da cabeça, perto de toda a maquina que está dia e noite funcionando para que tudo fique nos eixos, do jeito que tem sempre de ser. este chakra em desequilibrio pulsa freneticamente, quando lateja de uma sensação invisivel, que comprime e parece que explode lá dentro. em algum momento da vida um tesouro foi escondido ou deu-se por desaparecido. ninguém sabe ao certo o que dele está sendo feito. é preciso procurá-lo. quem ousa?

13.8.09

eviva

a fe' que se tem a coragem brota a verdade dentro de cada ser a heranca ainda a se conceber a faceira magia do acontecer no universo de cada umbigo fora do centro pra cima da curva de prontidao a todos os angulos em espiral retumba o movimento da' energia reflete se transforma em acao produtiva viva!

Serpente

Cabelos compridos
moreno tem um cheiro
quando passa se desmancha
na brisa que suaviza o ar.
Voz enternecida
improvisa a melodia
desenhando versos
com a ponta dos dedos
quando toca nos labios
Paira no silencio
sobre a luz do olhar
se aproxima e logo se afasta
como se nao pudesse
muito perto se achegar
O nome que tem
na biblia esta',
um menino escolhido
por Moises, ao povo
vai ser digno de alguma
verdade que lhe ensinou
o profeta nas montanhas
sagradas
vindo de la',
do quase sertao desconhecido
bota na cor de sua pele
a mistura de indio
que se esconde no mato
por entre as folhagens espia
sabe quem chega
quem esta' de partida
banha-se na agua corrente
e com o corpo iluminado
desaparece como serpente.