quem sou eu

25.8.15

Tatayaya
Igarapé
Rios da minha terra
Caraybaya

vai-se a vida inteira êe
chuva cai no sertão
tece a tua história
com teus pés no chão



Filha do mar

Olorun mandou dizer:

"Quem nasce na terra do sol
navega em proteção.
Guia de luz no caminho,
de água pura se banha
e rema em certeira direção".

rio

Ali a remar
tao perto de ti
meus sentidos navegam
na correnteza que te guia

o remo faz uma curva
e se alonga sem demora
dentro de ti,
vira, mergulha e volta

te vejo tao perto
me afagas com delicadeza
sem muito tocar
quao imensa profundeza

nao te toco por completo
haveria o sabor de mar?
daquele que te invade
todo fim de tarde

dentro e fora de ti
vejo o ceu,
estamos no alto
ou submersos?

rio, sorrio.









23.3.15

Jardim de ébano**

Dias de sol no jardim que ela semeara: nossos encontros se faziam ali, no jardim que ela almejara ter durante os muitos anos que passara sua vida num apartamento, entre paredes que comprimiam, com janelas que pouca luz transmitiam. A procura por um novo espaço; e num piscar, surge o quintal abandonado da nova casa. Tudo por se refazer; árvores ressecadas pela ingratidão da ausencia, terra vermelha batida, seca, árida, mato crescido pelos lados do muro e das grades, uma mistura de vazio do desamparo, um esquecimento talvez, ou simplesmente desleixo, mais o entulho do que fora deixado pra trás, ao ermo.

Contudo, de repente, chega ela, cheia de energia, da realização do sonho de ter um quintal, ela vem com tudo, enxadas, rastelos, vassourões, mãos, pernas, braços, abdomem, a força de revirar a terra, de limpar o terreno, de amaciar o solo, agradá-lo e torná-lo propício ao plantio de árvores frutíferas, acelora, pitanga, limão, amora, pé-de-café, uma jaboticabeira que renasceu. Todos os dias, desde que se mudara, ela madrugava, da cama ao quintal ia, carregava suas ferramentas e pouco a pouco o quintal desarrimado transformando-se-ia em jardim.

Escolheu vasos de variados tamanhos, colocou grama, foi plantando mudas, escolheu flores e bromélias, adorava bromélias! e plantas suculentas - babozas, cactus, crasuláceas. Em pouco tempo, seu jardim parecia um sonho; uma realidade, um refúgio de belezas em frente à janela de sua sala. Vinham pássaros de tantos tipos, sabiás, bem-te-vis, tico-ticos, vinham abelhas, borboletas, joaninhas, as flores brotavam em felicidade. Quando lá íamos, colhíamos os frutos, e ela nos preparava suco de acerola do pé, e junto servia um café.

Deslumbrados com seu jardim, elogiávamos, e ela, que nunca parava, sempre tinha planos de fazer mais, uma cobertura de plantas trepadeiras, primavera, maracujazeira, jasmim-dos-poetas. Depois podava quando tudo demasiado crescia mas também replantava arbustos. Enfeitou os caminhos com pedras, ajeitou troncos - cedro, aroeira, ébano, para decoração rústica - meu tio até pendurou uns cristais em algumas árvores, para balançarem e brilharem com a brisa. No jardim sorriam, a vida parecia o que eles queriam viver.

Hoje o mato está um pouco crescido. Uma pequena árvore tombou por conta da estiagem do ano passado. Alguns vasos racharam com o passar das chuvas e dos ventos desse verão. Um e outro galho secaram. Mas o caminho de pedras continua lá. Os cristais continuam lá. O jardim perdeu um pouco suas formas, as plantas estão da maneira que a natureza lhes permite. As podas não serão feitas tão cedo, nem tampouco o replantio de sementes. Ela estivera sem forças. Ela fora transportada e não poderá madrugar para ir ao encontro dele. Ela, quando acordar estará em outro jardim, tão ou mais bonito que esse, mas ela ainda não sabe.


*inspirada em "Saudade do Brasil" de Tom Jobim, a pedido de Gracibella.
*Em memória a Elizete Macedo,

Caros ouvintes (para o Tio Ari, escrito em 2009).

Ele se foi. Estava com o coração pequeno, frágil, já nao dava conta de pulsar e jorrar sangue por todo um corpo robusto. Dentro de mim, a lembrança dos cabelos grisalhos, esvoaçantes e soltos, às vezes com gel, penteados pro lado, com a costelheta ao lado, também branca. Usava bigode quando eu era criança, mas há muitos anos abandonara o hábito de cultivá-lo. Piscava um olho pra dizer que estava concordando com algo e fazia que sim com a cabeça lentamente. Dizia "Hum..benzinho meu amor, o teu tio ta velho".

Quando éramos pequenas levava-nos para passeios inusitados, cidades do interior, Suzano, Pirapora, Cambuquira, Praia Grande. Ia a viagem inteira reclamando dos maus motoristas e quando lhe apetecia soltava buzinas enfurecidas e fazia o sinal com o dedo, logo censurado por minha tia que ia no banco da frente. "Pára com isso Ari". Mas ele só se acalmava quando parava em algum restaurante à beira da estrada pra almoçar um pratão de espagueti com frango.

Nunca teve bons modos, era um senhor faladeiro, reclamão, alto, troncudo e barrigudo, às vezes engordava demais e o médico lhe receitava dieta, que nunca seguia por mais de uma semana. Gostava de ver mulheres gordas, redondas, dizia ele, com as coxas grandes e o trazeiro do tamanho do bonde. Era um personagem tão raro, com costumes tao únicos e falas até importunas em muitas situações. Acreditava fosse louco no meu pensamento de criança, mas no fundo eu adorava quando esse tio tão único colocava valsas pra tocar no último volume e junto cantava um lararirara', nos puxando pro baile. Ríamos.

Gostava de ver a casa cheia com cheiro de comida, bebida, falação, irmãos, sobrinhas e sobrinhos- netos. Não tivera filhos; mas sempre nos teve como netas, tão queridas e adoradas que ficava enjoada de aguentar seus elogios, sua mão pesada fazendo carinho em nossas cabeças. Usava aneis de advogado, mesmo sem nunca ter sido tal. Colecionava diplomas nem sempre verdadeiros, cheios de carimbos e símbolos, todos emoldurados e pendurados na parede de sua casa. Desde que eu nasci, mudou tres vezes de casa e em todas elas carregava suas coleções, máquinas de escrever antigas, moedas, porta-retratos, cofres, relógios, pratos pintados à mão, balança com dois pratos (símbolo da justiça em sua mesa comprida), caneteiros, grampeadores e tanta quinquilaria. Dizia que os rifaria um dia, para assim ganhar muito dinheiro. Carregou em todas as casas um órgão antigo, cujas teclas tinham uma fita com o nome das notas. Sempre sonhou tocá-lo, mas o órgão acabou por virar artigo de museu na sala de sua casa.

Escrevera tantas cartas ao governador, ao prefeito, ao embaixador, ao diretor da escola que tinha o nome de sua mãe, ao desembargador, ao carteiro, ao lixeiro, ao leiteiro. Tinha o dom de elaborar cartas formais, dizia ser seu oficio de escrivão que tinha sido na juventude. Sua habilidade de escrever rápido à maquina vinha de sua antiga profissão e sua caligrafia era tão fina e elegante que parecia letra de advogado em documento formal antigo. Nunca fumara, a nao ser numa época em que deslumbrou-se com um caximbo, fez-nos provar tabaco de chocolate. Tantas são as lembrancas que me caem na memória ainda coloridas, como as roupas que usava pra ir ao sapateiro, ao supermercado, ao INSS, ao correio. A verdade é que ele era um homem muito vivaz, eloquente, tão notado por onde passava e ainda deixava seus barulhos pelo caminho, gritos agudos, assovios, sons de peido com a lingua, latidos de cachorro, risadas de bruxo com os dentes a mostra, aliás, com a banguela de fora, tinha uma ponte entre os dentes incisivos que sempre lhe caía e aproveitava para tirar fotos com o sorriso arreganhado. 

Fez-nos rir, fez-nos irritar, fez-nos bufar com sua pentelhação, fez-nos escutar histórias de sua adolescencia, aventuras inocentes na sua lambreta. Não sossegava, a não ser nos seus cochilos diários depois do almoço, feito pontualmente ao meio-dia ou na hora de suas novelas favoritas ou ainda quando sentava no sofá de casa fazendo palavras cruzadas. Sabia se entreter. Falava de politica, era conservador. Caçoava dos pobres, dos negros, dos humildes, mas tinha um coração que queria abraçar quem lhe trazia confiança. Nos aniversários dos sobrinhos, presenteava-nos com pasta-de-dente, sabonete e perfume Pinho, seu favorito. Quantas vezes dormíamos em sua casa e nos ríamos dos roncos altos vindos do seu quarto, sempre ao fundo do corredor. Minha tia dizia que às vezes mudava de quarto pra conseguir dormir, mas a verdade é que ela nunca largava esse homem por um minuto que fosse. Um amor conjugal, fraternal, imenso, infindo.

Foi-se. Não o vi partir, não sei qual roupa lhe vestiram, o cabelo como lhe pentearam. Até engraçado foi seu enterro, como me contaram, de tão grande o caixão ficou entalado na cova...bem que dizia, ele queria ser cremado e que suas cinzas fossem lançadas de helicóptero pelo bairro onde morou boa parte de sua vida. Não tenho a imagem de sua partida, tenho todos os sorrisos banguelas na minha coleção de lembranças, os beijos estalados que dava, a sua mão rodando o garfo e a faca enquanto esperava ansioso pela comida que vinha sempre servida pela minha tia.

Diante da distancia, o passeio pelo tempo, a companhia do tio mais presente na minha vida do que qualquer outro. Meu tio-avo, a combinação de maluquice e sanidade, inteligencia e austeridade. Sua partida faz-me pensar nos ciclos da vida, nos percursos que a vida faz, as pessoas que existiram na minha vida e que não existirão mais. Tantas fotografias. Tanta vida vivida. Segue em paz, em seu animado carnaval!

9.2.15

Brincante

quintal com árvores frutíferas
manga, goiaba, jabuticaba,
mexirica, mamão, amora,
acerola, laranja, limão.

jardim da frente florido
margarida, orquídea,
jasmim, dama-da-noite,
primavera, rosas, dente-de-leão.

no fim da rua maré
ondas, conchinas, areia
pedras, mariscos,
espuma, peixinhos, carangueijo.

no céu o que é luz;
lua, sol, estrelas, nuvens
arco-íris, chuva, vento
por-do sol, nasce o sol

brincadeira na vida,
um sonho de paz.


8.2.15

Leve água leve

A água leva 
no leito de sua 
terra amolecida
verdades que
pelo tempo 
escorreu
 
Leva a água
deleites
que deságuam
na beira do mar
quando pelo rio
vem a deslizar
 
Água leve,
como o fio
da vida que 
o tempo percorreu
 
Leve água
no seio da terra
onde o ser
se concebeu
 
A levar-se 
a água levando,
aguamente
leve será
 
Levaguar enquanto
se aguando,
levemente a água
nos levará.
 
Aurora 02/2008

18.1.15

Regresso VI

nem adianta tentar esquecer

nem adianta marcar encontros

fica lá quieta eu seu leito

que as lágrimas vem

e vão, voltam e se soltam

fica lá repensando escolhas

que não servem ao presente

ao futuro talvez?

o desespero é um chicote

que arde em lentidão,

a cada chibatada

desapego
desengano
descanso

antes disso,

me apego
me engano
me canso

o regresso serve

pra dormir

dez horas a fio.






Brasil

o sol rachando lá fora,
uma soneca antes do entardecer

sonhos ensolarados
e quase enluarados

mistura de sal,
pedra e concha

sonhos de sol nascente
e quase poente

a chuva caindo forte,
um raio luzeia no horizonte

sonhos anuviados
e quase relampejados

o balanço da rede
enquanto o pássaro cantarola

sonhos de lua crescente
e quase incandecente

meu coração acalentado
pelo assovio da brisa serena.








31.12.14

Ar

tempo é vida.

tempo não é o que vai passar, nem o que vai chegar
tampouco é o que já passou

tempo é o que se respira
no momento em que o pulmão se enche de ar

falta tempo pra fazer um verso
falta tempo pra aprender a dançar
falta tempo pra visitar quem se ama
falta tempo pra cozinhar comida fresca

falta-lhe tempo? é porque nem se deu conta de que tem ar pra se respirar no seu andar

leva tempo pra curar um machucado
leva tempo pra construir uma casa
leva tempo pra fazer um amigo
leva tempo pra ir à pé

leva-lhe o tempo? o tempo que leva é o tempo que se tem pra se viver o que se queira

caso não queira, deixe o tempo passar
caso o tempo passe, culpe o tempo que passou
caso não viva, esqueça o tempo

tempo é vida.

vida é o tempo que temos para respirar - sem demora, sem pressa
no tempo em que o pulmão se enche de ar - e depois o solta.




23.8.14

Terrazza paradiso

era una
erano due
furono tante volte
fuocchi di artifici
dalla finestra all'universo
sospiri all'orecchio
una canzoncina che leggermente
si propagava insieme
ai loro respiri

c'era il sole
c'erano le nuvole
furono le stelle
brillanti e scintillanti
che gli rapportavano ovvunque
dalla stanza al pianeta
più lontano
in secondi tutto ciò perpetuato 
per anni

una piccola terrazza
una grande terrazza
tutte le due parevano le stesse;
erano il paradiso
di due amanti
che di giorno godevano
e di sera si nascondevano 
sotto le coperte
nudi, al buio.

20.8.14

Olhos de lince

o que nele sorri
sao os olhos
felicidade de menino
contagiante
brincante
espontanea

o sorriso é o que
fala por si
e se revela 
fotografando
dançando
fluindo

uma alma cheia de cor
e suas perguntas sobre
o que cantam
tom zé e macalé

lança o olhar;
parece mel na luz da manhã -
doce e irresistível

amanhã no parque? ele diz
depois conta que correu
mergulhou e
meditou

fez tudo sozinho
ou acompanhado da letra A,
seu par de olhos de lince.



















Arboles Magicas

Saudade
risca no peito
rasga um pedaço da carne,
do corpo, da alma.
a dor apropriando-se de um espaço
de aço, nas pernas um cansaço -
como o vazio que a morte ocupa,
imenso vácuo feito de vento -
tormento, calma e pouco além.
um dia plantaram uma semente,
cresceria a árvore do desapego
verde como a sabedoria
e nela se subiria sempre que o tempo
se fizesse soberano.
seu tronco porém, alongado se fez
suas raízes bem profundas
e sua copa, lentamente o céu beijou.
nela um corpo se moldaria
sobre firmes galhos da não lembrança,
para que não se sentisse dissabor
de qualquer memória distante.
Contudo, essa árvore
que um dia ousara ser plantada no meu jardim,
está intacta
quem nela se empoleirar
há de sorrir que toda uma saudade
ofuscar-se-á como a visão quando
na luz do sol penetra;
quem nela subir, há de se considerar
um vitorioso das saudades bruscas
que batem como ondas
de ressaca de um temporal.
E sem qualquer aparato,
sem cordas, escadas,
caixotes sobre pedras,
ou pano esticado,
a não ser pelos próprios braços,
quem nela um dia estiver,
lá no alto, há de ter o aconchego
como num passe de mágica,
de sentir saudades com moderação-
uma pitada de paz pra um coração.




29.3.14

Regresso V

Foi de se afastar que a vida a levou a outro lugar
uma paisagem de poucos contrastes
onde as cores eram brandas e suaves
onde as ruas eram estreitas e vazias
onde seu coração buscava sentir o que jamais sentiria

Foi de se deixar levar que a vida a encaminhou a outro sonhar
uma paisagem de muita contemplação
onde o verde era quase mais que a mata virgem
e o amarelo aluía o que a cidade construia
o céu, porém, era onde seu coração queria sempre estar

Naqueles dias, não pôde fotografar
e num piscar, as lembranças se fizeram numa grande colheita;
o colorido dos pés que dançavam
a alegria das mãos que tocavam
o afago em cada sorriso que passava

o sol refletido na jarra de vidro, cristal
o estandarte apontando para o universo, infinito
a voz que cantava e lampejava, ternura
a dança que os quadris acarinhava, ensejo

Foi de se deixar partir que a vida a desgarrou
de uma paisagem que outra virou
- assim como quando uma página se vira
a seguinte contém a anterior -
tudo o que nela se atrela, são imagens que guardou.






1.11.13

La scoperta

Sopravive nel tempo
in cui l´esistenza del momento
è fugace e se ne va con il vento
Niente però, toglierà il suo intento

Incrocciato tra tanti sentimenti
aggiunti ai pensieri sparsi,
vuole sorprese ed avvenimenti varie
Allora, crea delle ali ed scompare

Ora se ne va,
nel mondo provverà
quali sapori ci offrirano
le spezie della libertà

Sorvolla i cieli lontani
dall´alto se ne accorge:
tutto ciò che può compiere
verrà con il sudore delle sue mani

Ora scenderà,
nella terra scoprirà
quali aromi ci avrano
i condimenti della realtà.













28.8.13

Chorando baixinho

Como as crianças faziam naquele tempo, corriam pra debaixo da cama naquele quarto onde se guardavam as coisas que ninguém usava no dia-a-dia, onde a avó de vez em quando costurava uma peça de roupa nova e simples; era um abrigo secreto, seguro, onde o choro poderia vir, quentinho escorrendo nas bochechas, salgando o cantinho da boca, com uma dorzinha apertada no peito, uma dor que era até boa de se sentir. Chorando baixinho, pelas coisas que passam, pelas que passarão.

O filho está doente. Comporta-se mal. Sofre, todos sofrem juntos. Estão perdendo a fé na saúde, estão assustados, perdidos na loucura que acordou consigo numa manhã do futuro que lhes bateu à porta. Era uma realidade e no entanto tornou-se um fato. Algo que poderia se justificar? A quem, ao quê exatamente?As perguntas que os pais se fazem todos os dias, em cada pausa de silêncio, na refeição que fazem quando o filho está ausente.

O irmão tenta encontrar um consolo. Uma leve esperança que chove no seu rosto lavando expectativas, impurezas de pensamentos imperfeitos, julgamentos, lembranças do passado. Sabe reconhecer e aceitar a condição em que se encontra seu irmão. Tenta conversar com os pais, mas sua compaixão não é aquela de oferecer as mãos e um carinho. É aquela de dizer com firmeza que o presente é a realidade da qual não se pode escapar.

Chorando baixinho no quarto escuro. Apenas o colchão e uma velha cama. Apenas o clarão da luz que vem do pátio, pela fresta da veneziana quebrada, percorrendo a sombra que fazem as grades. Ao longe, ele ouve alguns gemidos, o ranger de portas, passos que passam apressados, oras se acalmam. O corredor é comprido, com paredes descascadas. Alguns dos que ali estão perderam a lucidez, a luz de dentro e a de fora, vivem no mundo atemporal. Mas ele não, chora baixinho, e ainda pede pra Deus iluminar seu caminho.

26.8.13

Soundbath

Ele toca com paixão nos olhos, nos dedos, na voz. Ele olha pra dentro de si mesmo enquanto esbanja música pelo corpo, por cada fio de cabelo. O que faz com que a admiração por um  artista seja maior do que pelo outro, é o quão entregue este artista está enquanto faz aquilo. A entrega ao amor, ao presente, ao próprio ato, à cada segundo que acontece diante dos olhos de quem o vê, ouve, e se entrega juntamente.

A entrega de mim mesma naquilo que faço faz o amor transbordar eloquente por cada nota, espelho do que quer dizer a alma, que carinhosamente compôs a melodia, o ritmo, cada pequena parte de um todo. Naquele dia, eu precisava estar concentrada, pensei que o público poderia se conectar com meu olhar, mas eu não podia olhá-los, a execução exigia o foco dentro de mim mesma. A luz era pouca, mas brilhava quando as meninas sorriam. E ao mesmo tempo, o pensamento de deixar-se levar, de estar ali em função da música que preenchia o espaço de dentro e de fora do corpo.

A beleza está também na preparação, na dedicação que ocupa os dias com criatividade, com insistência. Ensaiar, repetir, parar, recomeçar é um processo que caminha com pernas próprias, nem nos damos conta. Mas ao vivo, a conexão consigo mesmo ultrapassa o entendimento racional. É inebriante, lúdico, desafiador. Como equilibrar taças sem deixá-las cair. A noite foi bonita, com gotas de chuva, com banho de som.


16.8.13

Contorno

o brilho
era um sonho
da cor do céu arrastado de nuvens
delineadas pela cor do fogo do sol

o sonho
era um brilho
que refletido no rio de águas limpas
desenhava a silhoueta
de um caminho reluzente

logo a ponte ficou iluminada
as lumiaras se acenderam
e a luz poente foi ficando azul turquesa,
uma e outra estrela
pequenas partículas diante de um olhar
uma dança de quietude
presente como o infinito
sem tempo, sem limites.










13.5.13

no fundo
vida permeada de sonhos
fantasias duradouras
brilho de uma gota iluminada
o pulso em cada passo
a vida respira
o coração escuta
a mente vê


11.4.13

Regresso IV

seria a vez de um encontro que não quer deixar-se encontrar?
todos os anos, pelo menos uma vez, pelo menos duas vezes, aquilo que não se vê quer vir de encontro com aquilo que não se toca. é tudo tão abstrato e ao mesmo tempo tão insuportável.

relendo, se reconhece. em palavras de conforto, de passagem, de partida, de chegada, de intuito revelador, de castigo desonesto. tudo que é possível de se reinventar e não ter coragem. reinvente se esconder no mato, tentando protejê-lo. reinvente cuidar das crianças miseráveis, alimentando-as. reinvente curar os doentes tocando sua música. reinvente acordar às 5h30 para meditar. reinvente sua respiração, sua vontade de se doar, de se tratar, de se amar.

seria amor, ou falta de?

amor não falta, se esconde. de quem. de quê.
nada está pronto. tudo fora do lugar. e se o que estiver pra fora, não couber dentro. seria esse o dilema. não, não seria. não é. não pode ser. o encontro que não quer deixar-se encontrar. "buraco velho tem cobra dentro", o que fica lá fazendo, importunando, impertigando ou só vivendo no escuro. querendo dar o bote, ou só vivendo.
o que dizer. o que reinventar.
descanso não me serve. só se for de mim mesma, de meus pensamentos, minhas emoções, minha falta de crença, meus medos, minha solidão, minha perturbação. Estão todos unidos, juntos querendo me destruir, arrancar de mim meus cabelos, sombra de mim mesma, cor de pouca aparência. Não podem vencer, não devem. Uma parte de mim pensa que é arte, outra parte é.

o que resgatar. o que jogar.
pausa não adianta. já parei, já voltei. só se for pra nunca mais voltar, pra sentir saudades, pra acreditar que serviu, que foi verdadeiro, que não ocupa mais, que não perturba mais. Serão espíritos maus ou reencarnação não escolhida. será passado, não será futuro. não há de ser.

o que escutar.o que não escutar.
apontar o dedo é tocar na ferida. é mastigar a dor. é esganar o desprezo. ele precisa ser esganado. mas ele geme, se enfurece, se desgarra de si mesmo, cai por algum lugar. despreender-se é aliviar-se, tudo que amarra, sufoca. as opiniões, de si e de outrem também sufocam.

o que rebelar. o que?

27.1.13

Nas ondas do rio do mar

Morrer no mar é doce aos olhos de Caymmi.

É doce ir-se afogar as dores, os apegos, os medos, a ira, o desconsolo, a pena, as palavras não ditas a quem  tanto se queria dizer.

Nas ondas verdes do mar é doce o som que emana mais alto que a voz interna, falando consigo mesmo dos absurdos, das culpas, do amigo perdido, que se perdeu de uma amizade que parecia verdadeira, até que veio a onda e varreu com clareza a vastidão do sentimento da ver-d-ade.

No mar docemente morrer o gosto amargo da não despedida, do não-olhar, da cumplicidade que não se teve, que navegou sem destino, pra atrás do horizonte.

Ela se foi com seu jangadeiro, no balanço do mar, na infinitude do verde que se torna azul, sem remos, sem bote, sem vela, sem nada. Seu coração, um vazio preenchido de alguma coisa que não se sabe bem o que é. Amor? Abstração?

Espelho do céu, espuma são como nuvens. Esfumacê das ondas cobre a areia e toca a mata rasteira, encontra o morro, sobe pro céu e se esvai. Calor do sol adentra na areia, aquecida ela despeja tudo no mar.

Os sonhos que o amigo tinha nas mãos, despejo no mar. Onde os despejaria senão no mar? Pra poder voltar amar.

2.12.12

Numa tarde bem distante

Se a tela do cinema da minha memória quisesse projetar os filmes mais bonitos de um pedaço de história, escolheria um horizonte o qual não se via o fim, a companhia dos que amam, o conforto do sorriso, dos sons das palavras e do que aparecia diante aos olhos. Numa tarde bem distante, o sol se assentava devagar. Atemporal seria a cena do filme da lembrança daquele dia, lento o revisitar das imagens.

 Sendo lento, tengo lengo. 




Retratos

Caminho das cores de que são feitos os frutos, o céu, as montanhas, 
caminho das trilhas das casas de pedra,
dos portões de ferro, dos campos sem cerca, dos ciprestes compridos,
dos vinhedos. 

Paz aos olhos, esperança de que o mundo existe aos poucos, sem muito. 



                                                     
                                                 Trequanda & Chiusura - Toscana - Itália 2012

19.3.12

Regresso III

Desta vez, entramos em casa e o cheiro de madeira limpa nos fez lembrar que nesta casa, nos poucos meses que moramos nela, tivemos todas as coisas boas, a luz, o silêncio, o cheiro doce, as árvores, o calor, os jantares e os cafés, os ensaios, os estudos, as composições, as fogueiras, o jardim cuidado, folhas de outono, terra úmida.

Nesta casa tornamos pela primeira vez, cuidaram bem dela, a vemos exatamente como a deixamos. Agora parece que os momentos continuarão fluindo dentro de tudo que se passa aqui. Por enquanto, a saudade do que ficou antes do trajeto de mais uma viagem, a saudade assolando os pensamentos. Vez e outro minuto, porém, as memórias vem vindo, bem vindas, sobre os dias por aqui passados em outro momento.

Uma conquista, um sonho bom. Está tudo bem, apesar das distâncias.