quem sou eu

30.1.09

Terra de Santo III

extrai da terra
a rica pureza
do olhar que se distancia
de toda ilusao
que um corpo cria
que a mente alucina
que um coracao dissipa.
dorme nos sonhos
embebidos de luz
e gotas de chuva
umedecendo a lama
verde da cura,
do sabor que a seiva
amacia nos labios
na carne suave
de um corpo sublime.

viram-se na longitude
celeste de um tempo
infindo
amor incondicional
na amplitude
do horizonte eterno
de lacos que transcendem
o espirito e a divindade.

15.1.09

Terra de Santo II

em Terra de Santo
o amor que o peito nao pode sentir
quer morrer
pra ascender-se no divino
ser apenas luz piscante
breve, distante, micropartícula

em Terra de Santo
a flor quer murchar em lentidão
pétala a pétala secando
e perdendo a cor
pra não deixar nenhuma rosa
perfumar o vento

em Terra de Santo
o vendaval vai inundar o buraco
onde todos que ali se protegem
terão de sair um a um
mas serão abençoados com
a chuva incessante

em Terra de Santo
hemos de partir solenemente
seguindo a carruagem da vida
amando quem nos é concedido
no presente que se lança ao
futuro ainda incerto

em Terra de Santo
hei de permanecer
sem memória
sem rancor
sem passado.

11.1.09

Terra de Santo

Há lembranças
que os corpos eternizam
com a sutileza
de uma ponta de luz,
minuciosa luminosidade
dentro de uma imagem
longíqua
quase dissolvida,
quase renascida
na sensação que
toca - com dedos
de cetim, -
um desejo que um dia
persistiu.

Quando o sol imperiou
sob a rosa-bahía,
cintilaram-se os pêlos do corpo todo
ao brilho do amanhecer.

Era ano quatro.

Na cama, um pássaro
me cantou seu hino de estupor,
veio trêmulo e esmiuçado
de pequeno pavor.
Mesmo triste, bonito soou.

Foi a cantiga da claridade
de mais um dia
em terra de Santo.

9.1.09

Descortina do mundo

por onde andam os passos que guiam os olhos
cujas pálpebras semi-cerradas enchergam na escuridão
o vazio da falta de esperança

de quem são os pés magros
que caminham diante da dor
do cenário de sangue, tortura, terror

o olhar traz o mundo dentro
contido como uma semente morta
que caiu na terra e secou na amargura

a lágrima que escorre é pouca
pra lavar a doença que contamina
outros olhos, outros pés, outras vidas

ninguém pode mudar o olhar daquele
que desespera
será?
e aquele vulto que passa no semblante da noite?

é o amor?
sim, trazendo paz
mas vagueando sem por nenhuma porta conseguir entrar.


1.1.09

anoema

um ano
de encanto
de gente que canta
um tanto de entoar
outro canto

um anoecer
na raridade
das partidas
saudades doídas
lamentos enaltecendo ídas

um anominhar
por estradelas
desconhecidas
passos celebram
verdades adormecidas

um anouvar
aos céus com braços erguidos
pelos dons recebidos
e a pureza do amor
de fora adentro
pra fora concebido.

13.12.08

l'epife

qualquer palavra trocada
é mais que poesia pronunciada

sentença no meio da noite
parafraseando desejo de longe

quem escreve muito se atreve
em água misteriosa se atira

para a leitura, o branco
se tinge de cintilante mistura

o que bebe a beleza
nela se inspira e corteja

a sorte da linha que cruza
e a letra de prazer se lambuza.

28.11.08

Sucinto

restinga
dentro da seca
na crua incerteza
que a mente alimenta

respinga
amargura de outros solos
sedentos de dignidade,
amor, decência

retinta
a pouca luz
que aos olhos resigna
pavor, estupor

novamente a restinga
baixa e rasteirinha
surge lentamente
entre grãos e selvageria

calmamente restinga
nos olhos diante da dor
suscita mais um ciclo
e ressucita amor.

2.11.08

Essência


como se estivessem deitados diante de um céu estrelado de possilibidades, universo de brilhos se acendendo e apagando-se constantemente, cada luz uma via, uma vontade, um caminho. no escuro azul do cenário de fundo, os mistérios, o que cada escolha reserva dentro do seu percurso, o invisível, pouco previsível. cada vez que uma porta se abre podem ser eternas e infinitas as andanças e as descobertas.
de olhos fechados parecem intuir a estrela que os chama, que pisca e reluz a sabedoria do instante. mas dentro da retina encoberta pela escuridão das pálpebras, dormem sonhos distantes, amores intocados no pedaço de terra que deitam seus corpos. cabeça unida com outra cabeca, unidas e separadas, cada olho que se abre mira uma estrela diferente, cada palavra que pronunciam emite um som e outro tom. eles sonham em mundos diversos, tentam fazer suas estradas se cruzarem, procuram o brilho raso, a preciosidade da essência.

1.11.08





leaves living loneliness,
lying lounged longevity
lighten and loosen
lovable, lusty, lyric lives...

28.10.08

metade nuvem, metade azul

A cidade tinha se tornado uma massa pesada, uma "mansidão",como diria uma amiga, condensada de falta de tempo e humor, pressa, fumaça, nóia, cheiros e mau-cheiros, publicidade e papéis, jornais rasgados, latas de cerveja. A cidade para mim estava mais pesada que a vontade de suportá-la. Compramos a passagem e fomos rumo ao interior, não importava onde, eu queria apenas ver a estrada, o horizonte, os campos verdes. A saída da cidade já foi divagante, o ônibus fez um caminho ao redor do maior parque da cidade, o tal do Hyde Park e do andar de cima do ônibus vi o tapete de folhas esparramadas pela grama e pelas calçadas. Adoro o outono na Europa, as ruas ficam cheias de folhas marrons esvoaçantes, parece que a calçada ficou doida varrida, as folhas estão dançando com o vento e fugindo de vassoura, uma beleza de carnaval que arrasta o que estiver na frente. No parque, árvores marrons, amarelas, avermelhadas sob um céu de nuvens. Mansidão.
Na estrada, lentamente no afastar da cidade as nuvens foram ganhando cores de tom azulado. No percorrer do trajeto um feixe amarelado começa a surgir por detrás dos aglutinados esbranquiçados. Estava olhando os campos, sabia que no interior desse país os campos seriam assim, com gramas tão verdes que parecem uma pintura impressionista, com poucas ovelhas e vacas pastando. Olho pro céu novamente e lá está a divisão de um céu carregado de nuvens e um céu límpido e azul. Esfrego os olhos, miro novamente; a divisão de céus é absurdamente comovente, chega a parecer forças do bem e do mau, o inferno e o paraíso, como bem descritos nos capítulos do antigo testamento. Mas dessa vez parecia que o mundo estava dividido em dois e que o ônibus cruzaria a linha.
A medida que avançava na estrada, os raios de sol iam surgindo um a um, delineando um brilho nos fios de cabelos dos passageiros que estavam sentados do lado da janela. E num piscar de olhos a luz amarela invadiu o onibus num jato dourado, estávamos atravessando o mundo de nuvens para o mundo de céu azul. Eu estava perplexa e comecei a agradecer deus por aquilo. Eu pedira o horizonte ao longe dos campos verdes, na amplitude sem margens. Ele estava me dando o sol, que aparecia tao enigmaticamente como tantas revelações na vida. Olhei pro lado, meu amor dormia e mais adiante tinha um rapaz, um rapaz que eu já tinha olhado antes porque ele estava muito arrumado, com sapatos de couro marrons, combinando com um cachecol também marron, um casaco aveludado e uma bolsa de couro, daquelas de antigos escritores de filme. Ele não ia pra uma festa, provavelmente estaria indo à universidade (como tantos por aqui). Me deparei com a luz do sol refletida nos olhos claros dele e sua cabeça levemente erguida pra ver a paisagem, porque ele estava sentado na fileira do outro lado do corredor, sua janela nao dava pro horizonte. Pude notar seu encantamento pela paisagem que se derramava diante de nossas visões e naturalmente um sorriso apareceu em sua face. OLhei mais ao redor, uns dormiam, outros escreviam no laptop, outros liam. Somente eu e aquele menino olhávamos pro espetáculo. Somente eu sabia o significado daquilo pra mim naquele momento.

22.10.08

Atrás da conversa

"Sinto que ele está triste" - disse Amalia. "Faz dias que não me olha nos olhos, não tem sorrido muito, a cabeça cabisbaixa pelos corredores da casa. Quando entro no quarto ele está jogando video-game, coisa que nunca faz, só quando nao tem nada pra fazer".
Ariela continuava a fitá-la, ouvindo-a atentamente. Então prosseguiu "Eu acho que ele está descobrindo. Está percebendo que talvez eu não seja a mulher que ele tanto desejou, porque eu nem provoco mais desejo nele. Há um mes estamos sem transar, voce sabe o que é isso?" Ariela desviou o olhar de Amalia para o clarão que desapareceu no chão do quarto, mais uma nuvem tinha vindo cobrir o sol. "Simplesmente não sabemos como despertar o prazer erótico um no outro" Continuou a dizer com palavras e mãos articulando. Deu uma pausa e uma longa piscada. "Nao sei se eu devo insistir. Toda vez que estou nua diante dele, parece que meu corpo não tem vida, cada parte é a mesma num todo, nada vibra, nada se aquece, nem um pedacinho de pele. As poucas vezes que ele me beijou eu não o desejei e logo ele parou de me beijar."
"Voce tentou dizer a ele que queria ser tocada de outra forma?" quis saber Ariela. Olhou para a janela, viu a sombra da árvore que vinha de fora e balançou a testa "Falamos algumas vezes sobre isso, mas eu não gosto muito. O que vou ficar repetindo? Meu amor, eu te amo mas voce nao me dá tesão? Oras, ninguem quer ouvir isso Ariela, eu sei que ele também não quer. Eu teria que chegar com a solução nas mãos, te-las na bandeija e serví-lo, mas enquanto eu não o oferecer isso, ele vai repetir a mesma coisa das outras conversas, que o prazer deve ser uma coisa espontanea, que um corpo saudavel sente prazer, que eu deveria ir procurar ajuda..." Suspirou.
Ariela então continuou. "Olhe, mesmo assim, isso não justifica o teu silencio. Voce tem que falar, tem que dizer o que quer e que não quer, o que gosta e o que não gosta. O pior numa relacao é a falta de comunicação, seja pras coisas positivas quanto pras negativas. Desse silencio pode virar um deserto e voces podem se chatear muito mais que se tivessem conversado. Um deserto pode matar tanto de frio quanto de calor. Tanto de seca quanto de vento."
Amalia mordeu os lábios, franziu levemente a testa, olhou pro teto. "Eu queria deseja-lo. Eu queria que ele me tocasse e fossemos à loucura. Eu não posso mais viver pensando que eternamente seremos mornos, casados com uma vida sexual estagnada, eu não posso me repetir isso todos os dias." E virou bruscamente a cabeça para o lado, em desaprovação. "Então mexa-se Amalia. Diga, grite, esperneie, faça qualquer coisa ou destrua seu casamento, deixe-o morrer lentamente e veja todos os dias um olhar que não te fita porque perdeu a confiança. Não confia porque não ouve sequer a verdade. Esclaresce amiga, isso é importante, ou voce quer continuar a ve-lo entristescer cada vez mais?" A pergunta ficou ressoando como um eco nos ouvidos de Amalia. Dentro de si, sabia perfeitamente que não queria ve-lo sofrer, mas que estava fazendo como se estivesse de olhos tapados, fingindo nao enxergar que ele sofria, e muito. "Tens razão. Vou dizer, nao sei bem como começar e nem sei no que isso vai terminar, mas ser fiel é ser verdadeiro."

Abriram a janela e foram ver o sol que voltava a aparecer por entre as nuvens.

17.10.08

Far from home II

far from home
that's the music she sings alone
passing through tones
finds her way back in a song

far from home
is where her heart is
miles distance beating
nowhere willing to go

far from home
she watches the life along
crossing borders over the years
sailing grounds of missing owns

far from home
she dares to live
and to hopefully sink and drown
cold blames in the water flows.

10.10.08

Oleo de mirra com gergelim

Subiamos as escadas de madeira, daquelas que precisa das maos pra dar empulso, os degraus eram distantes um do outro, era preciso segurar firme com as duas maos, uma de cada lado e um pe por vez apoiava no fino degrau e depois o outro. La em cima estava a palha estendida, alguns vasos, pedras, incensos, velas, umas pecas em madeira talhadas a mao, alguns livros sobre astrologia, calendario maia, heiki, medicina chinesa. Da janela de vidro se viam duas torres e o telhado de uma outra casa. O sotao fora construido para ele que queria ficar perto do ceu, no seu oratorio, recebendo a energia do alto. Quando subiamos ali, ficavamos suspensos em algum universo longiquo, nos transportavamos para alem da atmosfera, em alguma camada celeste. Nossa voz baixava de volume enquanto nossos ouvidos ficavam mais sensiveis para escutar a respiracao um do outro, que ia se tornando lisa, serena, profunda. Quando suspiravamos, alguma mao ja tinha procurado tocar em qualquer parte do corpo do outro e quando quem sentia ja se amolecia, relaxando no toque, o outro dizia, "pegue o oleo de mirra com gergelim".Estava iniciada a massagem. As maos de um que percorria os caminhos de veias, musculos, ossos, cavidades, todos sendo massageados com dedos atentos a cada pequena parte do corpo do outro, a cada reacao que certos pontos equivalentes a outras partes do corpo nos pe's ou nas maos provocada. Ficavamos horas, soltando algumas palavras, oras exprimindo reacoes prazerosas, oras dores que se desmanchavam nos dedos do outro, as vezes alguem dava uma risada boa, de alivio ou de deleite. Depois de um longo tempo, fora de qualquer cronometro, um tempo imaginario no qual ambos nos deixavamos levar pela sensacao provocada, e um suspiro em agradecimento era seguido de um sorriso que nao saia do rosto, ficava por entre os olhos, na face iluminada pela luz alaranjada da vela ou por algum raio de lua que vinha de fora. Assim permaneciamos aquecidos pela branda energia que disseminavamos mutuamente, cultivando um calor que nascia no peito e se espalhava pelo corpo e pela mente, como uma onda propagando suas moleculas sem cessar. Nos agradeciamos num abraco ainda com os joelhos sobre a palha. Quando era o momento de descer davam um longo suspiro e sabiam que tinham que voltar pra terra, mas voltavam flutuando, pisando em folhas de flores que brotavam de seuas coracoes.

6.10.08

Presentes e presencas

O bar nao era um bar qualquer. Do lado de fora dava pra ver uma luz amarelada e uma porta verde dando pra um pequeno jardim. Ao aproximar-me da porta, ouvi o som do piano, macio, percorrendo as teclas numa noite fria e azul. Entrei no bar e um cheiro de comida casieira invadiu as narinas, junto com um vapor de ambiente quente, "pretty warm", como dizem os ingleses. Cheiro de ervas e temperos, adocicados, levemente picantes. Dei tres passos e a musica acabou, olhei a pianista de soslaio e logo vi seu sorriso em agradecimento às palmas. Ela vestia uma meia-calça colorida, com uma saia acima do joelho e uma botinha de camurça. Nos demos um abraço e ela logo voltou ao seu banco para tocar outra musica, mas antes me apresentou sua mãe, uma senhora de cabelos brancos encaracolados, finos e esvoacantes. Ela acabara de chegar de viagem de Israel, tinha feito 4 horas de avião, mais duas horas de transito da cidade até o aeroporto. Estava com os olhos cansados, no entanto sorria pausadamente. Olhava a filha tocar piano. Fazia 9 meses que mãe e filha não se viam. Conversamos sobre o tempo em Israel, ela disse que estava calor, enquanto aqui a temperatura cai a cada dia, com vento frio e garoas constantes. Ela me perguntou se eu não gostaria de ir a Israel um dia, e eu respondi que sim, mesmo sem nunca ter pensado muito nisso efetivamente. É engraçado como a vida vai tecendo seus fios e de um momento ao outro você passa a pensar em lugares que nunca lhe trouxeram outras informações a nao ser as mesmas que a midia nos apresenta. Mas de repente você passa a conviver com pessoas de um certo pais, voce ouvê suas linguas, experimenta sua culinaria, ouve suas musicas, observa seus comportamentos.
"Ha mais instrumentos embaixo da mesa" me diz a pianista. "Toque-os quando quiser". Após um suco de limonada rosa, especialidade da casa, me levantei e fui ao lado dela com leves instrumentos percussivos comecei a acompanhá-la e logo estávamos entretidas tocando musica folclorica israelense e depois, com outros musicos que chegaram, tudo virou samba. A noite foi bonita, cheia de sorrisos e palmas. De vez em quando eu lembrava de olhar pra senhorinha e via que ela estava com os olhos semi-cerrados, num cansaço que dava pena de ver!
No dia seguinte acordo e recebo uma mensagem da pianista, agradecendo a minha presença na noite anterior. Eu é que tenho agradecido a presença dela na minha vida.

4.10.08

Pela rua

Passei o dia em casa sentada na frente do piano (nao e' um piano de verdade, um teclado que faz parecer) e em cima dele estava o computador, e nas telas eu procurei as musicas que quero cantar, enquanto no piano brincava com os tons e semitons das notas sendo transpostas pela voz. Finalmente estou descobrindo as notas dentro da minha propria voz. Parece magica, parece magia. Fiquei horas, saltanto de uma musica pra outra, encontrando versos dentro da melodia.
O tempo mudou. Talvez tenha mudado a estacao com a vinda de um vento frio e incessante que carrega nuvens cheias e passantes. Eu desviava o olhar do piano para a janela e via as folhas de uma parreira em cima do muro dancarem uma danca sem fim, movimentos continuos e aleatorios. No fim da tarde decidi ir a padaria e caminhando pela rua senti a garoa fina no cabelo e no nariz. Me lembrei que estou num outro pais, vivendo uma vida nova cheia de lembrancas da vida no meu pais, na minha casa, com os meus amigos querendo me ligar a qualquer hora, fazendo alguma visita deliciosa, buscando inventar algum passeio, algum show instrumental gratuito, comer uma pizza na pizzaria barata onde o garcon te trata bem. Sempre a lembranca de qualquer situacao imprevista,dos elogios e agradecimentos por ter o amigo por perto. Mas andando sozinha na rua, lembrei-me da sensacao de estar em outro pais, onde as situacoes tambem sao imprevistas porque voce sabe que aquele amigo nao esta' la' pra te ligar, nem vai encontrar sua mae de touca de banho cozinhando os legumes, esperando o tempo da tintura do cabelo. A sensasao nao e' essa, e' outra, e' tambem meio poetica porque o frio naturalmente traz instrospeccao, maos guardadas nos bolsos dos casacos longos e acolchoados. Parece que voce esta' sempre precisando proteger-se, aninhar-se num casulo quentinho, buscar calor dentro de voce mesmo e na sua casa que nao e' tao sua ainda, porque e' nova, mas que ja contem sua energia.
Em pleno sabado a noite, eu nao tenho a euforia no peito de saber que vai ter festa e eu vou sair pra dancar com meus amigos preferidos, nem vou comemorar o aniversario da mulher que eu mais admiro na vida, ela esta' longe, trabalhando pra poder vir pro outro pais e conhecer a sensacao de que tanto lhe falo. Se eu tivesse um cigarro, fumaria enquanto caminhava, e em casa tambem fumaria na frente da chamine' com uma xicara de cha.
O frio esta' trazendo calma e quietude. A mente comeca a perceber que o tempo vai passar mais devagar e isso vai ser bom pra nao ver a vida passar tao rapido, como acontece na maioria das vezes. Talvez seja tempo de compor, de descobrir pequenas coisas, de inventar historias e de sentir o coracao bater. E de escutar mais uma vez o que Chico gosta de dizer.

"Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo O afazer
Me pego em sonho A navegar
Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa Só o tempo não"

2.10.08

Ana Terra

Nao fale muito da tristeza que assola o peito, chore as lagrimas de dor, elas precisam escorrer como um rio caldaloso em direcao ao mar, com toda sua furia, com toda sua correnteza, rolando pesadamente sobre a pele macia do teu rosto. Tua face ficara' marcada por todos os sentimentos ruims que por ali passarao e penetrarao em cada poro, deixando um furor queimando de leve as linhas do teu semblante feminino. Desde crianca percebi que chorar e' fazer uma limpeza profunda, que traz toda a vermelhidao do sofrimento e estampa nos olhos tantas impurezas trazidas`a tona. Uma amiga me escreveu que esta' submersa num mar de lagrimas que ela nao chorou e por isso se sente sufocada, a agua dentro provocando um maremoto enquanto a agua colocada fora transborda, escoa, vai sendo transformada ate desaparecer. Transparecem os medos, os desejos perdidos, as ilusoes de todas as noites nao dormidas, as vontades intocadas, a falta de coragem, os receios dormindo na sua cama aconchegante, sem nunca quererem acordar e sair de perto, a culpa que cutuca, a duvida que julga o pensamento do outro, a falta de fe', de animo, de energia pura, de confianca, a cegueira. Tudo transparece em todas as lagrimas que milagrosamente brotam como agua da fonte, sem cessar, durante dias ou noites, tardes e fim de tardes, na solitude ou na doce companhia de alguem que desperta tua sensibilidade de alguma forma.
Pra mim foi assim. Jorrei as lagrimas que nao mais podia, ate' sentir que tudo havia escorrido, que a lagrima havia tornado-se agua pura, como se filtrada apos ter passado tantas vezes pelo mesmo lugar. Nesse dia pouco me olhei no espelho, ou nem me olhei, porque nao queria ficar questionando a razao de tudo isso, de dores que vao se acumulando no peito sem nos darmos conta. Evitei o meu proprio olhar para que evitasse julgar-me como ha semanas vinha fazendo. Apenas o choro e tudo o que nele continha.Apenas o choro regando a terra.

15.9.08



down by the bay
where the roses
show you the way

14.9.08

Foram longos os poucos dias

Canta a alma
embebida de luz
na varanda com sol.
Fita as folhas dancando
por detras do muro branco,
estao banhadas pelos raios
amarelecidos de uma estacao
que chega ao fim.

O verao foi suave,
dias claros na retina
vespertina.
Foi salpicado de briza
varrendo o ceu
sutilmente
como uma renda de nuvem
transparente.

O calor brando tocou
a pele, mao de seda
acariciando a nuca
num leve sopro;
os fios de cabelos
rocando as orelhas;
o coque ao topo da cabeca
enrolado com um laco de flor
tomando vento.

Numa manha de verao
colheram rosas e lirios
e enfeitaram a mesa
da cozinha.
O cha fumegante
na xicara ao lado do vaso
envolveu os aromas-
as ervas, as flores.

Sempre alguem oferecia
cafe.
Sempre em dia de sol
moviam-se com liberdade
os pes,
nus, umidecidos.

Foram longos
os poucos dias quentes
da estacao que traz
estado de euforia.
Aqui na ilha de nuvens chuvosas
e' raridade azular
por dias sucessivos,
e' como sombra no deserto,
quando se lhe avista,
tao rapido o corpo
dela se aproxima.

Hoje o sol atravessou
os telhados, saltou os muros,
espiou por entre as frestas,
apoiou-se nos cilios,
sagradamente
irradiou sanidade.
Acordei com voce me dizendo:

-"A cada abraco, uma lembranca se liberta".


-Quantos serao necessarios?!- o eco soou na concha acustica e me fez despertar.


O dia passou.Ainda espero a resposta.

7.9.08

Universos que nao nos pertencem

Estar em outro pais e' escutar historias que lembram aqueles filmes sobre a vida de alguem que ja se enfiou no fundo do abismo, com dias initerruptos de drogas injetaveis, os olhos revirando numa euforia descartavel que se lanca incontrolavelmente no jardim de alucinacoes mirabolaveis, depois rasteja incondicionalmente fincando suas garras na pele de quem precisa consumir uma outra porcao, os olhos nunca voltam ao seu branco aparente, riscos avermelhados estilhassam nas suas janelas. Alguns anos podem se passar sem que um dia limpo possa intervir na lembranca de quem soube o que era estar em paz. Pode-se tropecar com passos cambaleantes que amolecem as pernas, curvam a coluna, fazem o corpo espiralar quando um sorriso relaxado invade a feicao de quem quer passar seus estados de extase fora do universo comum, nao importa onde esteja, se o palco de suas realizacoes for um liquido que faz seu corpo extremecer, vibrar numa compulsao louca de uma energia exorbitante.
Um corpo pode ser esvaziado e ceder lugar a uma apropriacao de qualquer especie. Seus labirintos sao explorados com as toxinas que lhe possam trazer sensacoes indescritiveis, e a vida pode virar um trunfo de sensacoes que nao cabem em palavras, uma alternancia de dor e cor, parece que tudo brilha e ofusca os olhos, parece que tudo fica palido e sombrio, quando o peso do corpo cede 'a gravidade do chao umido e frio, e as pernas ficam desordenadas como se nao fizessem parte de um conjunto harmonioso que e' o corpo humano.
Quando ouve-se as historias de vidas que sugaram o verde-escuro de frias estacoes do ano, a mente recria o filme das cenas mais confusas tecendo as verdades que nunca se completam porque sao ilusoes na cabeca de quem delira. Depois de um tempo vem a fragilidade, o caos, o inferno queimando todas as veias que ardem incessantemente. A dor que tambem alucina, o grito da angustia, o sofrimento de alguem que nao sabe mais onde foi parar sua vida.
Alguem reconta uma tragetoria e ainda esta' jovem, mas sente o estremecer de um passado recente e borrado com cores indefinidas. Esse mesmo alguem busca respirar, olha o passado com receio de ter envelhecido muitos anos e lembra-se da dor com um fio de remorso sobre si mesmo.
O mundo interno traz tantos universos que nem sempre nos pertencem.

5.9.08

ode aos amigos

os amigos me cantam as melodias que trazem fe'
os amigos pintam palavras que se combinam e soam poesias a serem ouvidas;
os amigos enfeitam o muro das lembrancas com ornamentos reluzentes
e grafitam os desenhos de vidas que sao possiveis num aceno de maos;
os amigos criam versos e rimas que nitidamente pousam no livro de nossas parcerias;
os amigos recitam poemas de alem-mar, que trazem o verde aperolado do extenso oceano salgado;
os amigos perfazem cada qual seus caminhos e receitam a sabedoria de compartilhar cada lagrima partida, cada sorriso que espartilha;
os amigos intuem o anseio daquele que precisa de suas sabedorias, qualquer novidade do dia, o minimo que se conquista;
os amigos glorificam sua presenca, mesmo no espaco de uma atemporal ausencia.

os amigos

sao como jasmins perfumando a janela que se abre pro quintal;
sao luas eternas nas fases que se alternam entre o universo e a terra;
sao gotas de diamante que regam o solo sedento de novas sementes;
sao todos os sentimentos que prosperam no olhar quando lhes abraco, no beijo quando lhes toco, no dialogo quando lhes confidencio.

aos amigos escrevo e agradeco.

22.8.08

A na' ta' ali.

Se a vida fosse uma canção, cantaria com toda a vontade que a amizade é como um botão de flor que desabrocha quando chega a primavera, que sabe o valor de uma estação e inspira com prazer os perfumes que traz o vento.
No refrão, cantaria que a amizade sabe bem o quanto dura um tempo, sabe que os periodos distantes sao feitos de inverno, neve branca que cobre a vida, palavra petrificada pelo tapete de neve.
Como uma canção de amor, cantaria que o amor de um amigo não morre jamais, apenas repousa quando o tempo nao o permite viver com intensidade e respiros profundos; apenas acorda com o sopro de voz vindo do coração distante, a luz volta a iluminá-lo e o amor transparece na amizade em renascimento.
E como uma verdadeira canção, jamais deixaria de ser entoada. Uma vez cantada, resta encantada por mais de uma vida.

20.8.08

horas

o que mais ela quer quando fica escrevendo no escuro? ela fica remontando as estorias de seu passado, com se fossem unicas e devessem prevalescer. quando ela fica horas e horas assim, martelando palavras e arrancando pensamentos, o tempo presente nem existe. nao existe luz, nem pessoas, nem sentimentos, nem obrigacoes. quando para de escrever o mundo desaba em sua cabeca e ela lembra-se de quem e', de quem ainda nao foi e fica remoendo sua falta de animo pra fazer as coisas. ela escreve o que sabe fazer bem feito. ela conta nos dedos as habilidades que tem. depois se cansa e vai ler qualquer outro assunto que lhe seja interessante. mesmo quando le, se ve nas entrelinhas e busca nao parecer conformista, sentada diante de paginas enquanto tenta nutrir sua mente com informacoes que lhe sejam de grande sabedoria.
depois volta a sentar-se e escrever. pergunta-se o por onde deixou escapar a sabedoria de engrandecer o tempo. primeiro responde 'a pergunta do que seria engrandecer o tempo e repete a si mesma que e' dedicar-se as coisas que lhe sao importantes naquele caminho que esta' percorrendo. depois questiona porque deixou a sabedoria de engrandecer o tempo escapar se, afinal, ve diante de si todo o tempo do mundo. talvez ela responda que esta' confusa, que nao sabe pra que lado ir. talvez ela responda que esta' estudando as possibilidades. ainda assim ela argumenta que ainda havera' o tempo de colheitas. e no fundo de tudo que escreve, ela aceita que so' quer escrever.