quem sou eu

2.12.10

Almirante

Lendo "O Poeta  é um fingidor", não esse livro exatamente, mas uma coletânea de poemas com comentários de uma pessoa que passou boa parte da vida lendo o Pessoa, reconhecendo seus museus, sabendo cada pedaço de vida do poeta amargurado, veio a pausa para observar; uma aparente infelicidade do Poeta fingidor se apoderava. Quem o sabe exatamente? Conviver com as palavras podia ser um caminho dos bem-acompanhados. O mundo lá fora pareceria pouco poético quando as palavras que um ser podia juntar eram todos os outros sonhos que se realizavam, outras imagens que se apresentavam, uma realidade que podia trazer algum sentimento novo, fora aquele que já se reconhecia no mundinho em que o poeta vivia. Ele vivia circundado de poucas pessoas, poucos poetas amantes de verdade.

Ao ler o poeta navegador, ele dizia - ou o personagem que nele existia, dizia: "Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida./ Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei/ A caligrafia rápida desses versos/ Pórtico partido para o Impossivel (...)". Em poucas novas linhas, quem tem a cabeça incendiada de versos, logo faz a ponte do que está fora e o que ele, seu próprio ser enfrenta dentro. São momentos distintos entre bater de frente, face a face contra sua outra mesma face, de se xingar, de enrugar a testa, dá quase pra ouvir o tom de voz engrossando com desgosto de encher a boca com aquelas palavras proferidas pelo seu Eu, vindas do seu próprio espelho em fúria. São, enfim, momentos de ver o barco navegar e passar lentamente, com todas as estações que nele se carrega.

O Poeta acreditava ser sempre "o da mansarda" e talvez o fosse, não sei, hoje são muitos outros que traduzem suas palavras, são ensadecidos por elas, pelo que elas provocam, pela maneira como se configuram e mostram um pensamento, o Pessoa tinha um gênio que em si vivia e não se concebia, como tantos outros homens e por não crer em nada e  não ter certeza de nada, também se perguntava, "sou mais certo ou menos certo"? Hoje em dia e também antigamente, quem respondia à questão eram os pais das crianças, regrando tudo, colocando horários, notas, impostando sonhos. Ainda tem gente pagando imposto pra sonhar..."Mas-esta é  boa!- era de coração que eu falava...e onde diabo estou eu agora com almirante em vez de sensação?..."

véu de neve

vai caindo assim, de pouquin em punhadin
leve como pluma, branca como nuvem
devararin vira um montão
cara de algodão
traz branda sensação
de estar no deserto
e sozinho no mundo
frágil diante de tanto gelo,
completamente suscetível
ao que o céu imenso
tem pra oferecer;
o vazio de cor
o silencio dos pontinhos
brancos em movimento
a temperatura tão baixa
que o corpo luta
dentro
para aquecer
resplandecer
não adormecer
e nesse incessar do corpo
não querer se calar frágil
não podendo vencer o tempo
nem se render à poesia
da ausencia de luz no fim do dia,
todo um coração se enternece,
vai balançando como os flocos de neve
de um lado para o outro,
numa lenta dança que sempre acontece
e vai deitar-se nos outros pontinhos brancos
que já se achegaram de outro ceu,
deita macia no todo
em cima de outros todos
dentro porém o edredon branco como a neve
chama por aquele mesmo corpo
pequeno diante da imansidão,
clama no pé do ouvido baixinho
acariciando os sonhos
a levidade do sono
que invade os olhos
quando a paisagem branca olha.

deita um corpo. sonha no sonho.
ao acordar, vê o branco no escurecer.

16.10.10

Paradeiro

Rumam todos
ao ponto mais alto
do centro da terra,
cesto de mantimentos
equilibrando-se na cabeça,
filhos acomodados nos panos
amarrados pelo corpo
na curva do cocix,
no calor do ventre,
no macio do seio materno
na cela do pescoço alongado do pai
outros filhos maiores vão caminhando
também carregando suas ninharias,
poucas roupas e algumas palhas
nas quais dormem.
não carregam espelho nem brinquedo,
sapatos nem bolsas
vão soltos, mudam de paradeiro
quando a seca chega e a chuva desaparece.
O céu, mesmo ausente de gotas,
 permanece esperança;
talvez pelo azul, talvez pela infinitude.
O trajeto é longo. Vão-se dias.
a paisagem muda de cor
e quanto mais o verde se aproxima,
mais cresce a alegria de saber
a saga chegando ao fim.
Na beira de uma lagoa feita de chuvas passadas,
acomodam suas tendas, seus barros, suas pedras.
Estão a salvo até a seguinte estação
que antecede a seca.
Depois seguem, na vida não se pode parar.

12.10.10

Fly, fly high butterfly

Um batalhao inteiro de homens diz estar sofrendo.
Será que os homens estão mais sensiveis? Ou sofrem com a constante opressão feminina?
Gente! As mulheres oprimem seus homens. Eu já vi. Elas saem de dentro de casa, com passos apressados ao encontro deles, e quando os veem numa mesa, conversando com outras mulheres, ficam furiosas e chegam bufando, apesar do sorriso sinico, dizendo qualquer coisa do tipo: "nossa, mas eu queria ter só um pouquinho do meu homem pra mim, há horas que o estou procurando" - e virando-se para o tal, logo acrescentam: "Você pode me dar atenção ja que eu vim até aqui te ver, meu amor?".

Que cena. Se eu tivesse nascido homem, ia chutar o pau da barraca. Se elas ficassem furiosas por uma besteira qualquer, eu faria questão de deixa-las ainda mais furiosas, ignorando completamente qualquer manifestação de egoismo e ainda por cima disfarçado querendo parecer doçura feminina. Encontrar uma mulher equilibrada, normal, que não precisasse se agarrar aos seus medos para proteger a sua presa seria uma saga muito interessante. Saberia reconhecer desde os primeiros movimentos a loucura quase esquizofrênica de um olhar em busca de pra-onde-esta-olhando-meu-namorado.

Outro dia eu fui sugada com um esses olhares. Que unpleasant, deselegante, desconfortável, insuportável. Fui embora da balada porque aquela mulher tava me tirando do sério. Vai ver que ela desconfia que o homem dela me olha com o olhar de quem gosta de olhar profundamente, mas que culpa tenho eu se ela é assim pra sempre louca, como muitas outras? O que quase me trucida é o sorriso mediocre, a vontade de demonstrar simpatia enquanto vemos sua face corar de ódio.

Pode ser que algum dia eu descubra a pilula do não-refletir no espelho. Acho que sou um espelho. Vejo exatamente as pessoas como são quando me olham. Vejo tudo, meu espelho as reflete e no silêncio absorve tudo que elas exibem quando à minha frente. Já viram, por acaso, tantas mulheres fazendo pose de esnobe, sensual, aborrecida, choramingosa, doce, alegre, todas essas e outras expressões na frente do espelho? Normamente elas fazem isso quando não há ninguém por perto, assim podem descontar - no espelho - o que lhes está dentro. E aquela moldura que está sempre ali, vê a tudo e todos caladamente....

Minha moldura quer desprender-se lentamente do espelho que nela habita. Preferia ser uma borboleta, que sai voando, nota poucas coisas ao redor, percebe flores, escapa dos sapos. Hoje na escola fizemos borboletas de origami com as crianças. As mães estavam ajudando. Quando terminadas, perguntei se sabiam cantar uma musica sobre borboleta na lingua delas. Ninguém sabia nenhuma cantiga.O que é isso minha gente? Não houve por acaso uma alma pueril a cantar pelas borboletas nessa lingua? O que as mulheres ficaram fazendo na vida que não criaram canções sobre as borboletas para suas crianças?! Me restou ficar repertindo assim de improviso: Fly, fly high butterfly....

11.10.10

Cenas ao redor do fogo num país da Europa

Ontem à noite, ao redor da fogueira, entre baixas melodias que as pessoas cantavam, uma breve pausa entre um comentário e outro, alguns diziam-se hipnotizados, outros riam baixo e permaneciam calados; entre o prazer de ver os olhares brilharem com o calor do fogo, apareceu um cara alto de ombros largos e barriga saliente, com uma camisa xadrez vermelho e preta, com um copo de cerveja heinekeen na mão, dizendo:
"A fogueira é que nem televisao. Fica todo mundo horas sentado olhando pra ele e até esquecem da vida. Pra mim, o fogo é uma televisao, infact". Nisso, eu que já cutucava a lenha, posicionando melhor os galhos pra que o fogo nao cessasse, disse:
"Discordo. Aproxime sua mao do fogo e da TV e veja o que você sente. É bem diferente!"
Ele disse que sim, claro, aquilo era evidente. Mas o que ele queria dizer e que não foi muito bem expressado, era que antigamente as pessoas contavam histórias em volta do fogo, quando ainda não havia luz elétrica e as pessoas ficavam ali paradas, olhando e ouvindo. E hoje em dia, as pessoas continuam paradas olhando e ouvindo histórias que vem da televisão. Então ele complementou: "Eu mesmo ficaria horas aqui, que nem quando assisto TV" e eu que ja tinha ido buscar outra lenha mais ao fundo do quintal arrematei: "Eu fico horas aqui e nem um minuto assistindo TV, por isso nao concordo com voce".

Ninguém na roda quis efetivamente que aquilo virasse uma discussão. Ninguem quis se aventurar a dizer o que era melhor, que tv era uma merda, que no passado as pessoas eram mais livres para se expressarem na frente do fogo, as histórias aconteciam porque as pessoas se manifestavam, não porque o fogo lhes contava historia. Ninguém rebateu aquele comentário inútil, que aliás nao passou de um comentário, como deveria ser e eu que queria suscitar uma contrariedade a um pensamento estreito, logo acabei na risada irônica silenciosa que me restou rir.

Nessa mesma roda ao redor do fogo, haviam pessoas de outros paises. Ali´ss, esse cara de camisa xadrez não era da minha nacionalidade. Certo tempo depois de mais cantorias, risadas, vinho, amizade, eu desabafei o quanto poderia ser dificil naquele momento falar uma outra lingua, já que me sentia tão conectada com o fogo da terra, que parecia o da minha terra. Nesse momento, senti o olhar de sensura do meu companheiro. "Não diga essa blasfemia", pude ouvi-lo em silêncio. Oras, eu só queria me expressar com pessoas que tambem falavam a minha lingua e que poderiam ter sentido o mesmo. Calei-me. Ainda alguns minutos depois, a anfitrian da festa entoava versos e agradecia os aplausos, claro, numa lingua comum a todos. Após uma das inumeras cantigas que interpretou, virou-se pra mim, e disse: "Agora é a sua vez de cantar, que musica você escolhe?" Respondi: "Cantei muitas aqui enquanto você não estava, agora só canto quando todos cantam juntos". Imediatamente ela franziu a testa e reprovou-me "Why are you speaking in portuguese?!"

OH! suuuugar! Me deixem falar a minha lingua pelamordideus! - pensei mas nao falei. Talvez o fogo tivesse suscitado alguma selvageria dentro de mim, algum bicho adormecido que precisava esbaforar o calor de dentro. Ao final de tudo isso, antes que o vizinho reclamasse do barulho -quase a uma da manhâ - minha amiga, sentada ao meu lado, aproximou-se de minha orelha e me disse: "Olha só que engracado, enquanto nós que estamos sentados perto do fogo (do lado esquerdo onde a fumaça nao vem), estamos tão relaxados que parecemos estarmos nas nossas casas de praia com quintal,  o pessoal do lado de lá (lado direito, todos em pé cercados por um murinho, pra onde a fumaça ia) está todo tumultuado como se tivessem dentro do apartamento deles, achando que a vida é normal e legal assim. Que sorte termos nossas casas de praia!" e soltou uma gargalhada. Pena ela nao estivesse presente na hora do comentário infeliz do cara da cerveja heinekeen, nem no fora que tomei por falar a minha lingua. Uma gargalhada dela em qualquer um daqueles momentos teria sido incrivel...pra descontrair assim, quebrando o gelo, coisa que nem o fogo foi capaz de fazer.

12.9.10

Enlaçado


solta as correntes da vaidade
verdade estampa na pele
os laços que apertam
se desamarram

cada nó uma sentença

em cada quadro de grade
um trecho de liberdade
libertinagem é Bandeira
se carrega com braços abertos

para além da cerca,
passos descompassados

o caminho fora dos trilhos

longe dos canteiros
as rosas
o perfume
espinhos que não ferem

véu acerca dos sonhos
rendado
se tinge de pérola

farpas desprendem-se
dos fios de arame
faça-se passar
pouco ou nada arranha

tá vindo?
- tô vendo o céu.

6.9.10

Variaçao de tema

que a clareza do mar
venha trazer pedras
para no futuro lancar
brisa marinha
de espuma e sol
agua com vento
sal e sombra

quem vê o mar
sabe o gosto que tem
amar
fita o horizonte
barco a vela
vida a navegar

Pessoa dizia um dia:
"Navegar é preciso"
rimaria também com
viver é impreciso
já que viver
é sempre um risco.

No semblante da noite

- Vim só pra te ver essa noite, você sabe disso nao é?

Ele olhou pra ela com olhos profundos e castanhos, não esperava por aquele comentário, nem tampouco supunha a reaçao que nele causaria logo de imediato. E numa resposta que nem era resposta mas continuação da conversa que ela iniciou, desabafou:

-Eu penso em você às vezes viu? Aliás muitas vezes e fico lá pensando, pensando. Mas logo me vem a realidade a toda, aquelas outras vozes separando as fantasias e aí deixo tudo escapar.

-Eu tive um sonho - imendou ela. - Acordei dizendo teu nome alto e forte e de repente aquela outra voz da realidade também me disse: Ei, mais baixo aí com toda esta sonharia!

Risos. Riram a felicidade do sentimento mútuo. Ela acrescentou:

-Pelo menos não surgiu a pergunta: Mas o que você sonhou exatamente? Ufa, era melhor não contar mesmo..talvez eu nem poderia contar a ninguem.

Ele prosseguiu:

-Mas espera lá; fizeram muito bem em não perguntar nadica de nada. Deixa-se ao menos que sonhemos à vontade, que não venham perturbar essa fantasia tão boa. Aliás, vivemos todos de fantasia, você não acha?

Ela sorriu, concordou e logo passou um outro amigo interrompendo:

-Po! desculpe atrapalhar o papo sobre arte, que eu sei que vocês estão falando disso, mas precisamos brindar, pega aqui o copo....

E todos da festa se reuniram para outras conversas, outras risadas, outros brindes.
A noite passou-se com os olhares que ele lançaava sobre ela, e junto com o olhar, o sorriso.

-Você nunca deixa o cabelo solto né? Mas voce é linda de qualquer jeito.

Ambos sabiam o que estava acontecendo, um silêncio no meio de todo aquele barulho. Um raio que se propagava entre todas as distâncias que permaneciam. Ele passou as mâos nos ombros dela, na sombrancelha, em algum momento apertou a coxa dela, meio rapido, meio de supetão, depois ele brincou com os dedos da mão dela enquanto outras pessoas falavam sobre a situação do transito da cidade e tomavam cerveja. Ela quis mostrar os versos que fez pra ele numa outra vez, mas achou que tudo estava muito colorido naquela noite e preferiu guardar pra outro momento.

16.8.10

Valsa da Lua

"...vi tão sem brio
e o breu se riu
sorriu
seguiu
e a lua pérola
a se desnudar
de vulto firme
tal farol que é
luz toda luz
reluz
transluz..."



(lincoln e ney mesquita)

10.8.10

"nao é por ser flor que sempre trará o bem;
nao é por ser poesia que será um mar de alegria"

sagrado segredo

um proverbio chines diz que quem tem um segredo deve andar num bosque, escolher uma arvore, cavar um buraco nela ou perto dela e sussurrar o segredo la dentro. depois deve tapa-lo e esquecer pra sempre que um dia existiu.

aquele homem passou anos da vida repetindo este proverbio a alguns poucos amigos. os amigos entao lhe diziam: "ora, podes me contar, eu guardo o segredo" e ele respondia que nao tinha segredo algum para contar.

muitos anos depois, em sua ida as ruinas nos templos em cambodja, aproximou-se de uma das paredes feitas com centanarios tijolos pesados e um tanto gastos com aspecto de abandonados, sussurrou no buraco seu segredo. nao o tapou.

ha muito tempo que vivia da relembranca de um amor no passado, no entanto ja nao mais o enxergava nitidamente. tinha a impressao de te-lo sonhado.



a mulher continuara casada com seu marido mas agora tinha um filho.

9.8.10

des-pre-ten-der

quero  publicar um livro. nao para ter o prestigio de ver a capa na vitrine da livraria que tem o cafe' mais bacana da cidade; nao pra sair na critica do jornal mais lido da cidade, ensaios perfeccionistas feitos por aqueles escritores terceirizados que fumam feito chamine. quero publicar um livro para poder apreciar seu meio, seu feitio, passar horas, noites, alvoreceres, entardeceres preenchendo paginas, buscando palavras no fundo do cerebro, la dentro onde quase ninguem tem acesso, onde a abundancia de pensamentos jorra incessantemente como fonte em praca publica.
a trama sendo tecida fio por fio, linha por linha, em paragrafos maiores, em capitulos com nomes de lugar, de objeto, de pornografia. quantas serao as historias de amantes dentro da vida do personagem que o narrador quiser inventar. tudo que ele quiser viver e encontrar no futuro, tudo que na vida e' sempre um risco de se correr. tudo pode acontecer minuciosamente elaborado, como tudo pode vir a ser uma tremenda coincidencia que ganha certo sentido depois que o tempo passa. Ou na hora mesmo em que esta' se passando.

Um grande sabio disse-me outro dia que o tempo esta' sempre la, quem passa somos no's. que o tempo nao se segura e que muito menos somos segurados por ele. me proferia estas palavras com um sorriso despretencioso exatamente quando ele chegou na estaçao de trem onde eu o esperava em tom bufante e inquieto, estive a conversar com meus pes de um lado pro outro na curta porem longa espera, xingando nao sei quantas palavras porque ele estava fazendo-me atrasar para um ensaio. quando ele terminou sua curta sentença, virei-me, dei-lhe as costas, desci as escadas, com um ligeiro riso sinico. Ainda esbaforida, tinha de comprar o bilhete do trem. Acaso ou sorte, quando sentamos no vagao, o tempo juntou-se a no's, na mesma velocidade do trajeto, no mesmo batimento do peito. Entao o grande sabio recitou poemas, contou piadas, leu versos, entoou proverbios, apontou o dedo para cima e colocou as maos sobre as minhas.

Um outro grande poeta me escreveu: o tempo e' gordo. acreditamos tanto na precisao com que devemos usa-lo, entretanto de repente nos damos conta de que aquela pressa toda ja virou outra profissao, outro filme, mais um filho, outro livro, mais uma viagem e que assim tudo e' passivel de acontecer. Esse mesmo poeta ja pensou o que um dia eu lhe propus; publicarmos uma coletanea de poemas-temas - como por exemplo, poemas cujos versos tem apenas e sempre a mesma consoante inicial. sao feitos de palavras e frases inteiras que metaforizam a imagem ao que se pretende dizer em certa poesia. Ha alguns anos nos demos conta, fazemos assim: um mesmo momento por no's vivido vira verso na mao do outro e sempre temos uma variacao de abordagem do mesmo tema. Por isso poemas-temas.

Enquanto vou conhecendo o mundo, abraço novamente quem nele pisa. Reencontro de outras almas, camas de lençol amarelado, colchao velho de molas e paredes descascadas. Mas na varanda sempre ha flores enquanto nao faz muito frio. Na estaçao do  frio elas secam, na primavera renascem, como um milagre. Com um miraculo de gotas cintilantes e bordadas, com som de gotas de orvalho na gruta pouco iluminada, transparencia da agua, escuridao do buraco. No tunel de meu ventre habita uma serpente. Ela no entanto dorme enquanto o tocador nao vem armar a tenda de seu circo. Ela participa do espetaculo quando ele vem. Ela nunca sabe quando ele vai vir, mas ele sempre diz que um dia chega.

Assim chega mais um dia, mais uma noite se vai. Mais uma pagina pode vir a ser completada. O tempo e' largo e os sonhos mais ainda.

6.8.10

mais uma despedida.

vai ser assim pra sempre?

as lembranças mais doídas são aquelas que diz o tempo: "nao se engane, é hora da partida"

quem fica chora. quem parte vê outra paisagem. e na outra paisagem vê o por-do-sol. na mesma paisagem, quem resta não sabe onde procurar o sol, tanta nuvem encobrindo.

foram os dias mais lentos, aqueles que culminam com a breve saudação de adeus e até a próxima vida.

porque cada um leva uma vida, até que elas se encontram, se provam juntas por tão pouco. e parece muito.

no centro da terra, a linha tênue do que separa um sentimento do outro.
do que parece sonho e do que é realidade.
do que quer permanecer e sabe que não vai tão cedo regressar.

o solo está queimado com a falta de chuva. mas as árvores mais altas tem troncos fortes pra carregá-las se quiserem esconder-se do vento - elas sempre querem.

então lembraram-se da história de Cosmo, o menino que decidiu subir nas árvores e viver lá pra sempre, tornou-se o Barão das Árvores, porque a vida sempre exige que alguém se faça presente onde estiver e tome liderança para viver bem, se alimentando bem, discutindo bem, defendendo ideias, ideais melhores ainda.

a partida chega, e assim não tem como o trem não seguir. Ele segue.

Alimento pra todos os sentidos

Ando precisando de poesia. De homens poetas que saibam rimar e descombinar versos;
de homens que saibam usar as palavras como sabe combinar cores uma mulher;
preciso de versos de quem se joga na noite, sonha de olhos abertos, dorme olhando pra lua, senta com a poltrona virada pra janela, cozinha e faz uso de ervas caseiras preferencialmente plantadas no horto dos fundos;
tenho sede de versos doces e descabelados; de versos picantes e desarmados; de versos trágicos e encantados.

Quem mais poderia um verso me oferecer senão os poucos poetas que vim a conhecer? O Bandeira carrego na bolsa, o Drummond pousa na estante, o Pessoa na cabeceira da cama, o Sabino sempre pra lá e pra cá. Mas eles estão empaginados. Tesouro de paginas, sim sabemos. Mas os vivos poetas, de carne e osso e olhos que me olham, esses quero provocá-los. Deles receber poemas diários, feitos no supetão da inspiração, no estimulo da vontade, na desgraça da tristeza, na dor de quem se sente magoado, na felicidade de quem ama com simplicidade.

Alguém? algum? sim, alguns, graças a deus. Sempre das duas mesmas pessoas, que os outros parecem não ter coragem. Ou dignidade pra fazer a coisa mesmo.

5.8.10

versi al vento

"tu mi hai lasciato nelle mani un profumo diciamo cosi molto intimo e nall'animo una forza che mi sento carico come una bomba".

"L'avion va vole bientot, il va vole sur le montaigne e sur la mer, sur le bonne chose de la nature...mais tu, un peau va voler aussi avec moi, dans le coeur et dans mon bon memoire.

"Indietro o ha lasciato solo un pezzeto di cuore e tanta felicita"

"sei magia e meraviglia zingara"

"Inutile dire che nel letto con te la vita sarebbe un'emozione unica ed intensa al completo richiamo dei sensi...inutile dirti che affianco a te si impara il coraggio di vivere la vita con coraggio...inutile dire tutto sei selvagia e divina, la tua bellezza mi invade tutto come spuma che bagna la spiaggia"

2Grazie a te per l'assoluta sincerita che mette in secondo piano le tristezze i sogni e il dolore di un cuore che ama. sei una persona magica e per come sei io ti stimo e ti desidero come sempre".

7.7.10

S

segue sendo
sentindo sacando
segurando soltando
sorrindo solevando
sacudindo sirigaitando
saltitando surupiando
sao sons sincronizando
seda sonido saudade
sabiá segredo sentencia
secreta sintonia
solariza santo sucinta
será sina semear santeria
sabença, saberania
silencio sou
sua Seu sinhô.

Coco de Jersey

Tao grande, tao grande, tao grande e' o mundo
nem cavando o ano inteiro se chega no fundo

Ja parti em disparada, feito cavalo assustado
Naveguei na minha jangada, cruzando a tempestade
Ja chorei e fiz chorar, e de nada me arrependo
So' me faltou foi voar, pra acabar com todo sofrimento.

Tao grande, tao grande, tao grande e' o mundo
nem cavando o ano inteiro se chega no fundo.

Subi no alto das pedra, pra avistar terra de longe
Ca de cima da vertigem, alma no mar se esconde
Lanca-se no azul profundo, no ceu retoma seu prumo
Nessa vida deixo uns verso, que canto pr'as aguas sem rumo.

Tao grande, tao grande, tao grande e' o mundo
nem cavando o ano inteiro se chega no fundo.

Ja rodei por muito canto, curti demais esse mundo
Mas parei nessa cidade, como um bom vagabundo
Aqui vamo abrindo as portas, em formato de cultura
Eu vou sempre vadiando, sem perder a compostura.

Tao grande, tao grande, tao grande e' o mundo
nem cavando o ano inteiro se chega no fundo.

Composicao incidental melodia Otto Nascarella. verso 1,Otto; 2, Alba e 3 Pedro.

2.7.10

ela está

da pra ver o mundo de onde ela está
as cores que ele tem,
os pés que nele pisam
os olhos que por ele brilham

dá pra sentir a paixão nos homens
o amor entretanto que eles não tem
o valor que eles não sabem dar
a beleza que pouco querem cultivar

dá pra ouvir os cantos lá onde está ela
os sotaques que outros povos tem
a lingua que cada um expressa
a quietude e a euforia que vem de outrem

onde esta', no paladar os sabores extremos
amargo, doce, pouco azedo, picante
na boca se lhe vem temperar
o alimento de cor intrigante

ela está onde os aviões sobem
e descem na velocidade do pensar
se arriscam, se aventuram
coragem para em outro mundo aterrizar

onde está ela?
está ela onde?
ela onde está?
está onde está!

1.7.10

Avo'

sorrindo esta'
no azul celeste
encontrou paz
corada com luz nos olhos
olhando do alto
ainda por perto
sabendo-se longe
contente esta'
nos cantos da sala
por todos os lados
aparece aqui
e some do lado de la'
em poucas palavras
sabe-se que radiante
no semblante divino
na liberdade de alma
na cura de impurezas
no outro plano astral esta'.
hoje faz 90 dias que ela
se foi com despedidas
lentas
lamentosas
lamuriosas
e seu espirito lutou
pra poder descansar
o sonho da noite passada
veio a mensagem clarear
ela esta' feliz
pois liberdade e' tao bom
e ate' melhor
como amar.

31.5.10

Do lado de fora

beleza da criatura
curvas e sombras
na chuva pousa,
ora.

ombros e cintura
bela de costas
gota por gota
chora.

nuca e dorso
sensualidade de fora
cabisbaixa ela pensa,
cora.

pausa e contempla;
canta e silencia
deseja sexo sabor
amora.

Juremada

Ter uma plateia enlouquecida na sua frente e sorrir.
Cantar sorrindo e dancar fechando os olhos.
Nao da pra manter os olhos fechados quando existe um mundareu de gente te olhando com euforia. No meio da multidao nada e' real. Tudo em movimento, todos os bracos e acenos, todas as camisas coloridas e as garrafas cintilantes das bebidas consumidas.
No porao medieval, a balada underground londrina, onde as pessoas soltam suas vontades, seus ais, seus desejos pela danca, pelo corpo que reverencia musica, pelo canto da garganta profunda. E' noite escura, sao luzes e sombras refletidas nas paredes umidas por debaixo da terra. Retumbante e reverberante e' o som que sai das caixas. Estamos os quatro no palco, eu e mais tres que me acompanham nesta saga musical. Temos o nome de uma arvore sagrada, Pe-de-Jurema. Estamos apaixonados por cada toque. Estamos vibrando em cada coro que cantamos. O mais lunatico dos integrantes conversa com a plateia como se estivesse na sala de casa. O mais alto toca como se as mulheres mais bonitas do mundo estivessem olhando pra ele. O outro canta como se estivesse na rua junto com os amigos que mais ama. Eu abro e fecho os olhos, eu e os cablocos da Jurema, como num delirio continuo, feito de cores e imagens levemente distorcidas. Eu nao nasci de oculos e nao uso lentes. O que meus olhos veem pode ser puro brilho.

A arvore que vai crescendo. As folhas sagradas vao sendo curtidas. A madeira queimada exala o aroma do axe. A bebida de Jurema traz a riqueza da musica e dos rituais.
Ie..."Jurema..a mais linda flor do meu sertao..."

20.5.10

blessed girl

Voltei. Voltei-me para mim mesma e reconheci todas as partes, as menores, as maiores, as mais internas, as mais externas. Meu corpo esta' magro, leve. Posso elevar as pernas de ponta cabeca. Meu sonho de plantar bananeira!

Acabo de visitar a pagina da minha escritora preferida. Ela disse que ninguem mais escreve no blog hoje dia. Entao resolvi prestar-lhe uma homenagem. Este texto e' sobre mim, e o quanto de nos duas e' desenhado neste pedaco de papel. Depois de um auto-massacre, foram meses querendo descobrir e voltar a sonhar, foram semanas longe das pessoas que amamos, foram dias e noites num ceu desconhecido, foram kilos de lagrimas e olhos vermelhos, montanhas, parques verdes, silencio e passaros, dor, a falta de sonhos. Os nossos sonhos estavam ocultos porque tinham medo de nao tornarem-se reais. Nada mais banal esconde-los e viver na espreita, achando que um dia tudo passa.

E' verdade. Tudo passa. Os sonhos reaparecem, e ja sao reais. Minha amiga teve momentos na infancia que a levaram a desejar uma coisa; a mesma que a minha: tocar piano. Acho que exatamente comigo aconteceu, me lembro de todas as vezes que desejei um piano e o quanto desejei ter um em casa- na escola tinha um, nao podia toca-lo. Acho que ninguem mais que eu conheca tinha um piano. Ate' eu ficar muito grande e ir ate' a casa da blessed girl. O pai dela era pianista, ela tinha um piano, mas dizia que nao tinha. Eu nao sei bem como foi isso. Mas eu nunca tive um piano em casa ate' o ano passado. Agora tem. E o sonho de sentar nele e poder toca-lo e' como felicidade eterna. sim, Julia, estamos certas, teremos amantes que nunca nos deixarao!

Isso tudo pra dizer que um sonho moido se transformou em vida. A gente tem professora agora. A gente sabe escolher uns sambas que a gente gosta e ir la', harmonizar. Eu fui dar aulas pra criancas e pude tocar o piano na escolhinha. E o mais surreal e' que ambas colocavam esse sonho no congelador, como se na velhice ou quem sabe um dia, na ranzinhes de nossa ignorancia, pudessemos sair dela. Bem, ate' que demos um salto pra gloria, e ca estamos, nao mais nos primeiros acordes.

Continuamos longe, fazendo o que gostamos. Estou cantando com outras cantoras. Estou tocando com outros musicos. Estou ensinando muitas criancas, estou ritmando muitos adultos. Estou feliz por estar vivendo plena, mesmo longe. feliz por sentir-me desamarrada, solta, gingando, virando estrela, plantando bananeira, fazendo as postura dos assanas. Muita coisa mudou, e somos a continuidade do que ja estavamos fazendo. De repente muitas tardes ensolaradas num pais frio, longe de Sao Paulo, a terra sufocante que mais soubemos amar e odiar.

Minha blessed girl! agua de palavra, arvore de volta pra terra, caminho do mar, da montanha, da cachoeira. maracatus de preto velho, tu maraca, tomaladaca, o amor e' uma flor.

8.5.10

Contemplada

- Por que olhas para a areia do deserto que voa para longe como se caminhasse constantemente, sempre juntando-se a outros grãos? parece que admiras o desprendimento, a inconstância temporal, um outro céu de estrelas?

O velho continuava sentado na cadeira, abaixo de si uma antiga almofada de tecido turco.

-Por que nao me respondes quando dirijo-te a palavra? Por que estás sempre distante em teus pensamentos e não voltas para o trabalho?

O velho permaneceu em silêncio. Havia anos tentara explicar à velha senhora que a vida lhe fazia sentido do jeito que a vivia.

Solto

Sigo pendurada nos sonhos
das estacoes que no mundo
temporariamente renascem

quando o canto
devolve encanto,
soltam-se as garras

quem agarra
segura e amarra
parece estar preso

um grande peso
que pouco se desfaz
de repente jaz

caido no fundo
do mar,
paz.

19.4.10

Fragmentos de dança

Sai de dentro dos corpos a dança, o mote, a razão do movimento, a leveza que se faz intensa, pés que giram em ponta, articulações estão soltas.
São muitas as quedas, o barulho do corpo ao chão, a força da gravidade que os puxa, o incômodo de vê-los cair, a dor de quem não a sente, a dor supostamente sentida para quem cai, os tombos que acontecem na vida. Um tombo e depois mais outro.

O espetáculo de dança Corpos Frágeis reverencia a força - em oposição, a fragilidade feminina nos braços de quem as protege - às vezes. Uma mulher segura um candelabro enquanto a outra se despi. Um homem começa a fazer um colar enfiando as miçangas pelo fio e depois outros revezam o feitio. O artesanato que passa de mãos em mãos, tudo que se inicia,completa-se em continuidade. O colar se rebenta, as miçangas se espalham no palco, fragmentos de uma obra, os corpos em meio à destruição. A peça é a rotação dos sofrimentos humanos. A delicadeza em cada ato, a violência do não-estático.

Como se um corpo quisesse partir, mas tendo que ficar resolvesse não ir. Ou não tendo que ir determinasse voltar; querendo ficar decidisse partir; com medo de seguir, segurasse as pernas pra não ir. Vindo e não indo. Indo e logo voltando. A não auto-permissão. O estilhaço. Quem se permite ser feliz, o é. Mas de quantas falhas são feitas os homens que arrancam as próprias pernas para não mais prosseguirem? Quantas são as mulheres que amarram seus braços para não mais abrí-los ao céu?

É a dança da não-liberdade, mesmo que seja involuntário dos corpos ir buscar por ela. Na beleza de cada e todo movimento, expressão. De tudo que não se fala e muito se vê. De como pode ser bonito fragmentar o que causa dor, até que tudo recomece.