quem sou eu

26.7.17

Desengano da vista**

Desengano não é ficção
nem ilusão
apenas um breve ofuscar de dentro pra fora
por uns instantes tudo vibra
sentimentos à flor da pele
o sentir é pelo toque
e depois tudo desaparece
como se não existisse
mas as vistas enxergam
onde há delirio
houve provocação
que gosto que tem a liberdade
do tempo que passa
e nos engana com promessas não prometidas
e nos desencanta com o que não é palpável?
nada à vista depois de carne e osso
fica a melodia
a linha do intocável
se distancia
No peito o sopro permanece
mas também logo vai sumir
desengano da vista,
de olhar que desvia
de sonho que cria outros sonhos
de repente outras vidas se pré-anunciam
as mãos seguem firme no swing
tocando conforme a música
o engano nunca é do coração
de quem seria?
Não há engano
nem equívoco
é fogo na certa
que uma hora se abrasa
o que renasce tem vida própria
feto de um amor profundo
e outros amores que virão
clarão nas vistas
desacerto que vira acerto
um tal de seguir tranquilo
Sempre seguir.

Inspirado no som Desengano da Vista de Pedro Santos por Bixiga 70.

23.3.17

Regresso VIII

para continuar e' preciso partir
e' necessario seguir adiante
provocar a dor, senti-la
olhar como se pudesse acaricia-la
coloca-la no colo,
dormir e acordar com ela,
saber que esta' ali,
nao por muito tempo
nem por tao pouco
mas que sua presenca e' o que alimenta,
que nutre os sonhos do que estao por vir
regressar e' um eterno pesar
que busca se libertar
do que nao parece possivel
do que soa irreal
e' um movimento que se repete em ciclos
desgarrando-se de conforto
de conformismo,
lancando-se em confusao,
conflito
para entao poder colher
mais uma vez os sonhos que virao.

11.9.16

My foolish heart**

my foolish heart is again trapped
begging for the same sort of desires

when the night falls entirely
it pulses frankly as a freak addict

only when the day aspires
my foolish heart is asleep and tired

then forgets what it has been like
to be confined to laughter and cry

constant craving for a pause to relish
my foolish heart is indulging in fantasy

becoming exhausted and lost in hallucination
it's not a disease subject to interpretation

my foolish heart just wants to be jazzy.

Inspired by Victor Young's tune "My Foolish Heart", Ahmad Jamal & George Coleman's version.









31.8.16

Lonely girl**

she is sitting
the world doesn't exist
the window is open
warm breeze brings her emptiness

she is breathing
the earth doesn't hold her
the door is shut
warm air carries her blessedness

she is inert
the fields are denuded
the footpath's just disappeared
green leaves blew her conscienceless

she is a lonely girl
there's no nuisance
no real hassle
solely peace in abundance.


Inspired by Dorothy Ashby's tune "Lonely girl"

26.8.16

Embraceable you**

Here on the far shore
a mirage is what appears
on the horizon of my eyes;
the intersection of sea and sphere
in a curved line
enfolds my shoulders
and I feel in safe hands
as free as waves
coming and going,
rolling unceasingly
in a kind of blue
as clear as the water
as infinite as the sky
as tender as the far away
embraceable arms
that carry me now.

Inspired by Georgie Gershwin's tune "Embraceable you" (Wynton Marsalis version).

25.8.16

Lonely fire**


tiny sparkle of light
there you are
refulgent inside your flame
that burns meticulously
inch by inch
there's nothing left
that could not be reached
your solely singular radiance
reflects upon surfaces
that surround you
it doesn't really matter
you seem lonely
as your luminance vigorously
widens the whole site

what incinerates
right inmost
belongs to you,
lonely fire:
image that coils
smoke that arouses
heat that emanates
all in you, lonely fire
coruscates far beyond.

**inspired by Miles Davie's tune "Lonely fire".


28.7.16

You've got to have freedom**

Leave

cry to the earth
then to the sea
laments that open your way
dig tunnels beneath your ground,
the soil that carries your soul
your furniture
all that you need to feel safe

then

Leave

shout out your groan
creak the timber under your feet
the sob that clears your lanes
make space for what needs to be born
your persuasion
the legacy you carry to feel sane

so

Leave

the past, the future
the so many choices
the not so possible ones
release what you don't wanna lose

Leave

just go
you've got to have freedom
an irreplaceable treasure
for you to take and also

Leave.


**Inspired by Pharoah Sanders tune "You've got to have freedom".





15.7.16

Smooth as the wind**


your breath next to my ears
smooth as the wind
your hands on my neck
soothing as the silk
your eyes gazing at me
serene as the night fall

make me peace and then war
sudden quiet storm
above our heads
brassy and chilled
rays of all colors
that relentlessly disappear

don't abandon all that's yours inside me
don't embrace me only under a gray sky
whisper in my ears more than a love song
calm me down as if you know how.

**inspired on Tommy Flanagan tune "Smooth as the wind"





22.6.16

O cliente

Emprestou o que era amor e dor,
os importou de um lugar longíquo
onde o horizonte era largo e azul escurecido.
A que serviu o empréstimo, não soube bem dizer;
se a delirar a prestações
se a tentar escapar de estimado juros
se a liquidar o que a vontade cobiçava
se a parcelar a imagem que reaparecia.

Por quais meios se fizeram a importação destes bens
nada se sabe alem, somente que alguém se beneficiara
do que se dera, do que fora, do que já era;
viera de um lugar remoto
onde o mar se perdia de vista.
Os bens puderam ser avaliados,
tiveram apreço, logo porem desconcerto,
quiseram devolução e troca
e nada se pudera fazer.

De amor e dor
mais um cliente se recompõe.


O cliente

Emprestou o que era amor e dor,
os importou de um lugar longíquo
onde o horizonte era largo e azul escurecido.
A que serviu o empréstimo, não soube bem dizer;
se a delirar a prestações
se a tentar escapar de estimado juros
se a liquidar o que a vontade cobiçava
se a parcelar a imagem que reaparecia.

Por quais meios se fizeram a importação destes bens
- se bens tão primários se manifestam no ato de parir -
pois alguém se beneficiou do que se dera
do que fora, do que já era;
viera de um lugar remoto
onde o mar se perdia de vista.
Os produtos puderam ser avaliados,
tiveram apreço, desconcerto,
quiseram devolução e troca
e nada se pode fazer.

De amor e dor
mais um cliente se recompõe.


Saudades de minha mãe

saudades de minha mãe
minha cantiga favorita
de amor, cozinha, sal
mãos bentas
olhar que abençoa
que dá ternura
que afaga o coração

saudades de minha mãe
minha ídola preferida
de compreensão, travesseiro,
cama, sofá e sonhos
ombros caridosos
que dão aconchego
que acarinham a alma

saudades de minha mãe
minha amiga certeira
de partilha, caminhada,
praia, pedra e sol
pés que dão apoio
que carregam a solidão

dessa saudade.

6.6.16

Alta Marea**

Pietro è scattato a parlare
Lui, il villaggio e la riva del mare
Il mio villaggio
Porta incertezze ai suoi Orishas
Alta marea
Temere nuotare
Come temere l’amore
Gli gira la testa
Si accorge che
frontiera non ce n’è.

Pietro sulla riva ha ricominciato a parlare
Porta incertezze al suo Orisha
Insiste
L’acqua salata non fa calmare
Fuggire
Temere nuotare
Perchè annegare
Gli gira la testa
Gli da fatica
Non c’è maniera.

Rinascere
Ritornai ad essere
Divenni  l’essere
Ricominciai ad essere
Lui galleggiava e temeva affondare
Porta la richiesta al suo Orisha
La mia legge
Lui, il villaggio e la riva del mare.


*Canção original de Fernando Machado "Preamar" traduzida para o italiano em Maio 2016.

2.6.16

SONANT*

The essence
What's the essence?
What's the essence of what you create?
Search for it.
Search for it out there
Search inside

Inside?

Inside where your beliefs are
Inside where your feelings grow
Inside where body meets soul

Body meets soul

A meaningful encounter
A resonant encounter
A sonant encounter

Sonant.

*written for the musical SONANT.

1.6.16

futuro do pretérito condicional

o que seria de mim se não fosse o canto
o que seria de mim se não fosse a dança
de mim o que seria o encanto se não o fosse
de mim o que seria a criança se não a fosse

senão a poesia, o que me manteria
senão o movimento, o que me restaria
me habitaria o que, senão a euforia
me residiria o que, senão o intento

não fosse a paixão, o que em mim nasceria
não fosse o desejo, o que em mim cresceria
a criação se não fosse, afloraria em mim o quê
o festejo se não fosse, brotaria em mim o quê

se arte fosse o que não surgiria, quem então
se música fosse o que não despertaria, quem então
de mim, a palavra que não fosse se partiria
de mim, o ritmo que não fosse se perderia

o que de mim deslizaria senão água, suor e lágrima
amor líquido, gota após gota sobre mim, a estima
esse amor, que por mim sempre pedira
viria, o via
ia, o veria
veio, o vi.












11.5.16

But beautiful*

But beautiful is to breath

uncover what is underneath

the timeless motion of a belief

all you can grip is a gift

and above all comprehension

yes, your boat is adrift


But beautiful is the singularity

of all space between words and their peculiarity

the everlasting roll full of whimsy

all you can be affected by makes a shift

on what you intend and then

yes, some authentic relief.


**Inspired by Freddie Hubbarb's tune "But beautiful".












10.5.16

Repost AR

tempo é vida.

tempo não é o que vai passar, nem o que vai chegar
tampouco é o que já passou

tempo é o que se respira
no momento em que o pulmão se enche de ar

falta tempo pra fazer um verso
falta tempo pra aprender a dançar
falta tempo pra visitar quem se ama
falta tempo pra cozinhar comida fresca

falta-lhe tempo? é porque nem se deu conta de que tem ar pra se respirar no seu andar

leva tempo pra curar um machucado
leva tempo pra construir uma casa
leva tempo pra fazer um amigo
leva tempo pra ir à pé

leva-lhe o tempo? o tempo que leva é o tempo que se tem pra se viver o que se queira

caso não queira, deixe o tempo passar
caso o tempo passe, culpe o tempo que passou
caso não viva, esqueça o tempo

tempo é vida.

vida é o tempo que temos para respirar - sem demora, sem pressa
no tempo em que o pulmão se enche de ar - e depois o solta.



2.4.16

Magma

Na Chapada flores renascem do solo incendiado
diamantes brotam de um terreno que parece infértil
e dentro de si germina o mais belo ser amado
tais petalas desabrocham em esperança versátil

Dos segredos que a terra guarda
o céu anoitece e a lua resplandece
chuva de estrelas vem saciar o que se escaldou
orvalho noturno vem humidificar o que se abrasou

O milagre das rochas que se cristalizaram no manto
e subiram à superficie em busca de ar e respiro
do inflamado e corado magma se dissiparam aos tantos
atônitos e desatinados se renderam a um maravilhado suspiro

Do que se ressurge, o sol vem e lhes nutre
Do que se afogueia, a água vem e lhes clareia
No que se afaga, o toque vem e lhes agrada
No que se crê, o tempo vem e lhes presenteia.








The Golden Lady**

If only your senses
flare up your temper
a snap decision
scintillates like ember
and glistens like a ray of bliss

Some sort of inquisition
commence to bring your head to spin

Uncovered memories at the helm
of a seething sea of thoughts
Unavoidable intentions tied
in a string with knots

Golden lady,
You can´t lose your gleam, though
Forget me not

If only your senses
guide you short way hence
your persuasive intention
and great eloquence
are like incandescent gold that flashes.

**Inspired by Sun Ra's tune "The Golden Lady" .

23.3.16

Centelha

deixe que te guiem
teus sentidos
tua centelha pequenina
lapidada no teu cerne
se assemelha
ao estalido das brasas
tilintante faísca doirada
ao afiado som das harpas
cintilante fagulha prateada

deixe que te carreguem
teus impulsos
lampejos femininos
congregados no teu ser
surgem como revelação
epifania inusitada
rajada de luz
mágica aparição
que se confia

se firma

se alia.








Steam

Green hearts on a
                                s
                                  t
                                   r
                                    i
                                     n
                                       g
           Suspension
P
u
r
p
l
e
r
a
i
n
o
f
l
e
a
v
e
s


Blue skies of crystal
                             Devotion
Hanging realities

            Solid Dreams
               being melted on a s
                                                   p
                                                     r
                                                       i
                                                        n
                                                          g
                                                           of sun
            Nothing is lost
                all being transformed into a mist of
                                                                                      s          e         m.
                                                                                            t          a  

8.3.16

She was too good to me*

Night of cold stars
moon off the clouds
dim light of the outside lumiere
leaning affectionately on the bedroom windows
her sentient body moved seamlessly

From Earth to Mars
fireworks sparkled all sort of sounds
tender perception fluttering everywhere
nuzzling passionately my torso
her awaken lips adored me endlessly

Orchestrating for brass
her scent brushed me around
flashes of smiles - the truth was there
longing fondly for more
her deep sigh surrounded me cares-singly

She was too good to me.


*inspired by Chet Baker´s album "She was too good to me".




28.2.16

I'll see you in my dreams*

I'll see you in my dreams
as broken gleaming particles of crystals
sharp thin crispy crushed bits
creep into my flesh
despite that's no blood for the sorrow.
Water is dripping from sky
perhaps it's an eyewitness cloud
just burst out laughing towards the remains
might have I just dropped the fragility
of this content
and still I can it all retain

I'll see you in my dreams
scattered over the stairs
no one is around sooner than
the moon lightens up the night
so I can sweep away the brittle fragments
that are about to grasp various layers of my tissues
Shall them pass from sight
be mislaid
leave a forgotten trace.

*inspired by Django Reinhart's "I'll see you in my dreams".






24.2.16

Excesso

Será que foi algum feitiço
o que deixaste em mim?
foi amor
foi excesso de calor
foi sede e fome
foi água e cheiro
foi pele e sabor
foi suor e lágrimas
milagre foi
foi-se um dia
foram-se mais dois
foi o que sinto
sinto o que foi
não o deixo ir
embora já o fostes
nem de ti sei
o que sentes
não digo
a mim repito
me insisto
fecho os olhos
longo suspiro
foi o quê?


22.2.16

A 1.000 senses

The see-thru passage has never looked like a collage as it seems today
just when my feet go one step after the other
there's hunger for swerving off the tiles
each little corner, a fragment of oneself
each single line, bloodstream in search of a bosom
tree shadows of no windproof
slapping on my face the truth
- yet hidden thoughts -
manic desires being devoured by a single soul
these corridors never looked like portraits of my concrete fears but today
as my hands search for some warmth in my pockets
the lush fields of my skin
thrive for what's beneath
a thousand senses
dankness inside spread, no sun to endeavor neatness
nevertheless a palpable drifting grain thrusts against the wall
has it been detached from the core?
has it become part of an investigation?
it just asks for the freedom to pass
break shell
through sheer persistence.







20.2.16

De passagem, o passante

assim quando chega, despretenciosamente, ou com algum plano em mente
carinhosamente ocupa o espa
ço, lança o olhar terno, se afaga mansamente,
passa silenciosamente, mas sempre deixa um rastro de 'estou aqui, pra você'


e se você nao me vê, estou a espiar pela janela, o céu, os passaros ao longe
e se você nao me ouve, estou a te chamar em pensamento, com a calma que preciso ter.

então o passante passa o dia em busca de intempéries, aventuras, amizades
outros cheiros, outros portões, outras janelas, outras paisagens
sobe e desce a ladeira, atravessa a rua, pula um muro, descobre o outro lado

quando eu voltar, quero te encontrar, te ver debaixo pra cima, tua beleza no alto
quando eu te encontrar, vou me achegar bem perto, tocar teu colo docemente.

durante a noite fica misterioso, tenro, eufórico e atiç
ado,
o que lhe desperta os sentidos seria o som, o escuro, a sombra, a lua?
vem passando, deixa o seu calor, roçando levemente a nuca, a orelha

e num ímpeto, eu arranho a ti e a tua roupa, te rasgo delicadamente a pele,
preciso me sentir vivo, eu quero estar vivo ao teu lado e te amar como posso.

pela manhã o passante adormece, fecha as pestanas como quem não vai abrí-las,
faz preguiça e fica com ar de quem vive de sonhos, em seu próprio mundo,
como se nada importasse, a não ser estar ali, lado a lado, emanando calor.