quem sou eu

19.3.12

Retorno

Desta vez, entramos em casa e o cheiro de madeira limpa nos fez lembrar que nesta casa, nos poucos meses que moramos nela, tivemos todas as coisas boas, a luz, o silêncio, o cheiro doce, as árvores, o calor, os jantares e os cafés, os ensaios, os estudos, as composições, as fogueiras, o jardim cuidado, folhas de outono, terra úmida.

Nesta casa tornamos pela primeira vez, cuidaram bem dela, a vemos exatamente como a deixamos. Agora parece que os momentos continuarão fluindo dentro de tudo que se passa aqui. Por enquanto, a saudade do que ficou antes do trajeto de mais uma viagem, a saudade assolando os pensamentos. Vez e outro minuto, porém, as memórias vem vindo, bem vindas, sobre os dias por aqui passados em outro momento.

Uma conquista, um sonho bom. Está tudo bem, apesar das distâncias.

6.3.12

Pra te ou que

alguém que te faz chorar
pode ser alguém importante
pra te fazer crescer
ou pra diminuir o teu tamanho

alguém que te faz raiva sentir
pode ser alguém insuportável
que te faz rebelar
ou acordar pro que é real

alguém que te faz perder a fome
pode ser alguém insasiável
que te suga sem o ver
ou que te faz buscar um alimento

alguém que te faz reagir
pode ser alguém célebre
que quer te ver forte
ou quer mostrar a força que tem

pesa na balança os fatos
pesa o tempo o que diz
mas o tempo nao se pesa
nem o pesar se pode medir.

Perdão

somos aqueles das palavras escritas
poucas palavras ditas
acho que essa sim é a maior dívida,
a maior teia, eu diria o maior karma.

não dizer e sentir
sentir e descrever
como se algo pudesse se desprender
acredito que se desprenda,
mas não com a mesma rigidez
de palavras ditas com bocas, dentes e olhos.

mas estamos bem,
reconhecendo nossos bichos,
repaginando sonhos
educando crianças
e a nós mesmos.

diria pra não perderes tempo 
nem consigo nem com outrem
diria para colocá-lo no colo,
deixando-se embalar pelas coisas que vem,
sei que também fazes isso
mas às vezes é preciso que a aranha remonte sua teia em outro lugar
e leva "tanto tempo quanto o tempo tem"

gosto de ouvir pessoas mais velhas
com a calma dos fatos passados

hoje fui num médico-psiquiatra - to ficando louca!
isso é uma pergunta que não me pergunto,
é minha incompletude
é aquilo que pulsa, mas pode ser um coraçao e nada mais
 

uma mulher que sou e que não se deixa compreender

-porque se acha também egoísta e tantas vezes superior
aos homens endividados com seu próprio sexo

um amigo me pediu perdão,
mesmo sem sentir mágoa,
o gesto é bonito e sincero.
bem dentro dos olhos ele me olha

com vontade de carinhos que não fez

com desejos insinceros que não afagou

--sinceros a si mesmo--

invisível a outros olhares

e portanto fantasma para quem não os pode ver

amar e esconder

é feito chuva no sertão,

nunca basta.

não sei qual dor dele se apossa

de nunca poder dizê-la

fico esperando que pronuncie

mas não o quero fazer temer

a sua verdade é aquela que é

aceitar nem sempre brota na alma

há quem aceite receber,
há quem aceite doar.

eu não sei como fazê-lo feliz

e notar que nada em mim desconfia

muito além,

vê a alma passiva.

28.2.12

dentro dos olhos

as coisas ruins que se repetem ao longo da vida, reaparecem depois de um sonho mal dormido, acorda-se com a sensação de ter aquele problema que você já tão bem conhece pra resolver novamente, ou porque se resolveu mal, ou porque passou meio sem melhores perspectivas e apaziguou os ânimos, ou por tantas e outras razões, o que importa é que adiar as coisas é sempre a pior das soluções. como sempre, o copinho transborda e temos a mesma história se repedindo, um pouco mais amarga e infeliz de outrora.

tenho acompanhado pessoas próximas com problemas de dependência de drogas, daquelas bem delicadas e difíceis de superar, e toda a ira que cresce em torno de um problema como esse, que ultrapassa a esfera familiar e social, acomete tantos laços que a pessoa tem com o mundo, com as pessoas que ama, parece que o amor fica pequeno diante de problemas aparentemente sem solução. A força de vontade do ser humano é uma das coisas mais poderosas pra qualquer mudança, conquistas e vitória.

mas e o que antecede essa vontade? como encher o cérebro e cada minúscula parte do corpo com essa energia vital cheia de luz e amor? para que se queira verdadeiramente sair das caraminholas que vão nos enrrolando dia após dia, sono após sonho, como será um dia abrir a janela e perceber que é preciso buscar ajuda, fazer reike, conversar com quem sabe compartilhar, e ter a percepção do quão amplo o problema se tornou que as cores envolta se emaranharam e você nem sabe por onde começar?


bem, pra seguir adiante, basta dar o primeiro passo, que pode não ser o mais firme e seguro. mas se não vier o primeiro, nenhum outro virá. faz-me lembrar do início da vida, aquele tamanho de gente que parecia tão pequeno e indefeso..e era mesmo, até que a própria vida veio e lhe ensinou, além dos apoios próximos que estavam ali para amparar qualquer movimento. a diferença que vejo entre todas as coisas que aprendemos desde a pequena infância e mais adiante, por toda a vida adulta, é que na infância as coisas parecem acontecer no tempo justo, naquele tempo atemporal, na hora que se precisa aprender, sem depender de uma consciência, coragem, decisão racional sobre aquilo. e na vida adulta vem a consciência, depois a postergação, depois o comodismo, depois a culpa, depois o desespero, e este dura, até que venha alguém ajudar e possamos dar o primeiro passo. e por que passar por essas tantas etapas antes do primeiro passo


quem vai nos ensinar a pular essas etapas todas?buscar a si próprio e ao amor próprio. minha avó sempre dizia e eu pouco entendia "quem te ama é você mesma" e com o dedo indicador ela tocava meu ombro e me olhava de baixo, bem dentro dos olhos.

30.1.12

sowing seeds

a água volta e meia retorna, marola.
um corpo nela afunda, depois boia.
falta o ar antes de morrer.
e tudo parece flutuar,
do largo oceano
à beira do mar.

na água o carangueijo se esconde,
a sereia dorme,
o peixe nunca fecha os olhos.


quer desplatonar?
joga pra terra
ou pro infinito do céu 
que o astro recolhe

mas o amor, aquele puro,
sem dor nem presente nem futuro,
fica por todos os terrenos
da terra ao mar
do ceu pro luar.

27-07-2010

9.12.11

beleza verde e rosa

ela ja se transformou ou somente mudou de cor?
irmas do mesmo tronco
folhas sob o mesmo ceu
raiz fincada  na terra

nestes primeiros dias de outono
deitei na grama
e sonhei que deus tingia tudo
brincava com seus pinceis
e nunca apagaria as cores...

2.12.11

Shams esh'shamusa*: o pequeno sol e o sol maior

O pequeno sol apenas se espontara
com um brilho miudo, quase infantil
quando as moças ja haviam amarrados suas vestimentas
e se puseram a caminhar com o vaso
envolta dos alongados braços

ao atravessar os campos,
a luz do sol que se levantara
se lhes dourava os flancos
e reluzia a erva orvalhada
pelo frescor da madrugada

chegando ao rio, sentado o rapaz estava
em sua cadeira de palha
com o bege turbante à cabeça
e o sorriso aos labios em ar de graça

"Bom dia, seu moço corado da luz do sol,
pois viemos do alto da serra apanhar esta água
para nossa longa jornada"

"Belas raparigas, que prazer me vos trazeis
neste iluminado amanhecer,
quereis cantar-mo uma linda cantiga
pra modi deleite me perfazer..."

"Pois bem seu rapaz, aqui é a boa hora
quem vos exprime, nao há tempo
para jogos e enfeites, enche-nos este vaso
que ainda buca-lo-emos o leite"

E quando as costas das moças aos olhos do
guardador das aguas se afigurou,
acenou um adeus com as mãos
o rapaz que ainda sorria.

O sol pequeno "shamusa" se expandira,
logo o sol maior "shams" dominara o céu
espalhando luz por toda a aldeia,
pela serra, pelos prados, pelo leito do rio....

*versao adaptada da cantiga árabe cantada por Abdul Salam Kheir em sua casa, Londres 2011.

1.12.11

Assai

e tu zingaro, sulla riva del mississipi, cosa penserai?
suoni, ascolti, ti ubbriacchi,
impari, ti lanci al fiume, cosa farai?

vecchio blues, rock-pop, all of jazz
come un sogno in un mezzo scenario matto,
cosa scoprirai?

a camminare con la chitarra sulla spalla
cigaretta in boca, poca lira in tasca,
con chi parlerai?

bei neri signori che cantano
una risata dall'anima,
di che cosa per sempre ti ricorderai?

che bel pezzo di storia in tanti quartieri...
dimmelo tutto, caro mio, curiosita' mi impazzisce
lo voglio saperne assai..........................................

Terre de basse nuit

La femme
n'est pas fermee

Elle est une passant
que nous dit gallant:

"J'aime beaucoup les chansons
que j'ecoute de le votre chambre!"

On chantes au monde
et aux coeurs endormits

"Reveillez-vous" on dit,
le couche du soleil est jusqu'a
deux heurs de l'apres midi!

Suonatina

che pioggina sotile sotile
canzoncina che nasce
nel lobo dell'orecchio
plim plim ploc

fuori e' gia' buio
sono le quattro di pomeriggio
sembra un sogno notturno
il sole nascosto di giorno

il clarinetto della chinesina
con l'oud del marocchino -
melodia che passeggia
dalla finestra ai corridoi

poco a poco  il suono che
scende giu e se ne va
insieme all'acqua
plim ploc flim floc

17.11.11

Lado a lado

Na fria cidade de Zagreb - quando eu queria dizer Bergaz ao contrario, nao ha atrativo - de atrair sentimento, de provocar sensacao, de dar curiosidade. Beleza modesta em poucos quarteiroes. A feira de flores lembrou-me a Holanda. O mercado de verduras e frutas poderia ser qualquer outro, nao fossem as senhoras com rostos enrrugados e lencos de flores na cabeca a venderem seus artesanatos, cestas de vime, colheres de pau, coracoes croatas com bordado 'a mao, xicaras, pires e pratos de parede. Haviam tambem alguns daqueles brinquedos de madeira que nossa mae nos contava ter brincado na sua infancia. 
Como todo pais em desenvolvimento, a simplicidade e o crescimento estao lado a lado, um anulando o outro, e sobrou-me o frio, denso, pesado, porem cheio de luz. 

No apartamento dos tios da Maja, na periferia do sul da cidade, muitos elogios. "como ela sorri", "como aprende rapido", "como tem prazer ao comer!", "como e' delicada", "e' casada? senao vai perder o marido logo", "vem nos visitar mais vezes?", "quer levar o biscoito de nozes com canela e o licor de cerejas?" e tantas outras perguntas que Maja traduzia enquanto eu olhava para a expressao nos rostos daqueles falantes de uma lingua rustica e contida nas entonacoes. Pensei o quanto minha presenca trouxera naquela casa, famila de cinco pessoas, que pouco sorriem, tampouco saem pelo mundo, que repetem as mesmas coisas todos os dias e veem o mundo atraves de seus atlas e enciclopedias.

O irmao da amiga da Maja que faz piercing e tatuagem, suicidou-se aos 20 anos. O pai dele era alcolatra e 20 anos depois, a mae viciou-se, nao so' no alcool como tambem no cigarro. Passamos uma noite na casa dela no interior de Zagreb. Quadros empoeirados, cortinas rendadas encardidas, tapete rasgado com bordados manchados, foto do marido, um altar para o filho e um quadro da filha quando "mocinha" pendurados na parede da sala. Participara do concurso miss-do-melhor-vestido na escola, era realmente linda como beleza de princesa, bochecha de algodao, olhos de bolinha de gude. Hoje tem os dentes amarelados, e' magra como uma vareta de pesca e a pele e' aspera de tanto que fuma. Apesar da simplicidade da casa - e dos vicios escondidos em cada gaveta - receberam-me com afeto e humilde simpatia. O cafe' era turco. Alias outros aspectos me remetiam a' Turquia nesta cidade; a propria lingua, a comida, alguns bares e, como coincidencias sao sempre suspeitaveis, descobri que os turcos invadiram  Zagreb por volta de 1500, deixando, obviamente, seus rastros.

Maja e' a pessoa mais estranha que ja me aproximei na vida. Escolher um amigo me parece sempre algo prazeroso e muito intuitivo. Com Maja nao seria diferente, o olhar cativante, sorriso rapido e largo, a vontade de questionar coisas, o platonismo sobre o amor, a idealizacao de uma vida perfeita, a curiosidade pela medicina chinesa e por ai' vai. Poderia descrever muitas coisas belas sobre ela, se nao fosse a descoberta de tamanho egoismo que habita dentro daquela garota. Alem do sentimento de ser vitima de tudo, como se nao tivesse cupa de nada, nunca, jamais. Deve ser algum mimo de infancia - apesar de seus tramas aparecerem mais do que os mimos quando ela os conta - Maja guarda uma ira e uma insatisfacao absurdas dentro de si. Seu ego e' maior que toda a costa croata. Mas ela diz que o seu povo e' que e' ignorante e mesquinho.

Foi uma das viagens mais dificeis que me ocorreu nos ultimos tempos. A descoberta de um ser oco, cheio de defeitos, dificil de lidar, compreender, aceitar, compartilhar. Em certos momentos eu queria lhe dizer o quanto ela estava sendo incoerente nas atitudes, mas ela dizia "don't come and tell what you think right now", e sua voz se exaltava e seus olhos se arregalavam. Parecia um filme de terror. Meu coracao pulou de incompreensao algumas vezes e mesmo que ela nao aceitasse meus questionamentos, eu lhes demonstrava. E aquilo foi crescendo e ficando imenso. Bastaram-me duas noites e dois dias para entender que ao lado dela, eu nao quero estar. Fui fazer-lhe um favor, pensando que ela merecia uma ajuda, ja que sua vida parecia tao cheia de contratempos e porque nao dizer, azar. Percebi, porem, que favor nenhum resolvera' seus ataques de chilique, nem a mais doce das palavras, nem um olhar profundo de compaixao.

Eu desisti de amar uma pessoa, confesso.

14.11.11

bellezza!
quando tutto che si scambia
non sia altro che la poesia

tra ogni segretto
o pure a parole dette

fra il perdersi nel tempo
al ritrovarsi del momento.

7.11.11

Monte Olivetto

sul monte il sole si tramonta
versa il colore nel sentiero
rosso come dentro le vene

sulla cima la luce mi lusinga
sorvolano dei pensieri
nella memoria dipinta

suona il campagnello
mentre i raggi passegiano altronde

galleggia il mio cuore
sulle nuvole a trasformarsi nelle onde

mi si tuffa nel petto
l'immagine tua,
pezzo di una vita mia.

14.6.11

Carta de manhã

Numa manhá chuvosa, daquelas que a natureza diz para ficares calado e quem sabe cantar um mantra, saudar os deuses dormentes, que sentir os deuses é ter entusiasmo, ter entusiasmo é sentir que eles estão presentes no ar, na água, no céu, na beleza, na chuva, na voz, em cada movimento. Saudade de ver o mar, a beleza do movimento, das cores, da força e vivissitude.

Numa manhã de mormasso, quando a chuva foi passando, recebi uma carta. Era de um tom um pouco melancólico, contava do segredo que habita um coração que ama em silêncio, por tanto tempo que se passou, nem sabe ao certo medir. Gostaria para esse amigo dispor de muitas horas, pra conversar e dizer-lhe que o amor se transforma a todo momento, nem tampouco perdemos as pessoas quando elas morrem.   Nossa alma fica ainda mais proxima do amor pelo outro, o que em vida só parece acontecer quando os olhos veem. Eis a beleza de almas que se encontram sem palavras, nem olhares, nem gestos.

Numa manhã cujo sol despontava  tão lentamente que parecia um parto demorado, lembrei da joia do sentimento puro de estar ao lado de um amigo. Rindo, dançando uma valsa alegre e pouco triste, que todas as valsas são um tanto tristes, descobrindo segredos, despindo-se de outros afazeres, respirando o momento, escutando uma musica junto, partilhando estorias, tomando café e o que a imaginação permitir na felicidade de uma companhia verdadeira.

Numa manhã qualquer, procurando um sentido que fizesse o tempo parar, ele diz ter recebido o presente mais bonito de uma Chapada inteira: meu sorriso. Tendo lido esta parte da carta, sorri loucamente, intuindo a imensidão daquele gesto tão pequeno para mim, mas puro e sincero, esbanjado de amor e saúde.

10.6.11

versando

"queria te dizer de desejos
que nao digo a ninguem
mas como voce nao passa de mim,
fica guardado entre nos"

5.5.11

Queria com as palavras mais bonitas e sinceras, com a ajuda da alma,com a sutil calma que pousa num coracao feliz agradecer a vida, que tanto e de tudo nos da'. Hoje nao posso. Quando olho pela janela do trem passante, as ruas desertas, as casas sempre com as cortinas fechadas, os quintais vazios, os portas fechadas; as poucas criancas que caminham nas calcadas, raras senhoras a comprar o pao, nenhum velhote no bar, existira' alguem com uma rotina normal andando em direcao 'a lanchonete ou a banca de jornal...hoje nao consigo agradecer porque a dor no coracao e' tao grande que ofusca o brilho de qualquer luz. Tudo pode sempre ser mais simples, os mesmos lugares, os mesmos amigos, mas como estao ausentes as coisas queridas? Moro aqui, dentro de mim mesma, onde encontrarei os sonhos da verdade nos meus olhos caidos?
Com as maos e um punhal, ferida. Nao ha sangue, beleza rubra esta' escondida. Cantando so', como uma cigarra, sobrevivente de uma noite sem lua, para renascer queira entoar uma serenata? Nao sei ao certo que dor e' essa, que vontade de viver em cada flor e no entanto parece chuva que castiga. Nao quero ressentir sem agradecer, por tudo, por tanto amor, por cada petala, mas hoje perdi o encanto.

4.5.11

"Para todas as coisas dicionario,
para que fiquem prontas, paciencia"
Diariamente. Acordar, agradecer, contemplar, relembrar da vida que todo dia recomeca ou continua, a mesma ou um pouco diferente, depende de quantas coisas simples, boas, importantes ou naturais aconteceram no seu dia.
Ontem falamos sobre a memoria, e o quanto o prosseguir da vida e' feito dela ou atraves do que ela processa a cada segundo e armazena. Imagine se ao acordar nao se lembrasse de nada; exclusivamente um branco ocupasse tudo o que se sente e pensa numa manha silenciosa e ensolarada enquanto a casa ainda dorme e quem acorda primeiro fica lentamente percebendo se ha alguem acordado.Entre o levantar-se e o girar-se de um lado a outro na cama, acontece o resgate das coisas almejadas naquele dia, das que ficaram por fazer, das que foram cumpridas, das que ainda merecem a devida atencao e dedicacao; a consciencia vai guanhando forma de quem esta' ao lado, quem esta' longe, quem ainda vive, alguem especial que ja se foi, de alguma musica ou uma oracao. Quando se acorda e a memoria que pouco dormiu - caso estivesse sonhando profundamente -, faz-se presente de uma maneira muito sutil mas muito marcante, imaginar a falta de memoria num momento de despertar dos olhos num dia e' ver o cenario desmontar-se num piscar. Nao ha o que continuar, nem melhorar, nem o passado, nem bem o presente, que e' a soma de tudo que vem sendo feito. Nao ter memoria e' estar vazio, por completo.

28.4.11

O parto

Chegara a hora do parto. A futura mae nao sabia muito bem o que estava por vir. Havia lido sobre respiracao, contracoes, forca do ventre, escuta do coracao, concentracao, agachamento, posicao de cocoras, e mais uma porcao de informacoes para a preparacao na hora da vinda. A tao esperada hora. Quem disse que ouvir historias atenua o sofrimento do outro?

Cada ser com a sua experiencia. A mae da maebarriguda, havia dito que parto natural em casa era o melhor a se fazer e que ali, naquela mesma casa dera 'a luz a tres lindas criaturas saudaveis, inclusive a sua filha que horas depois 'aquelas tao sofridas, tornaria-se mae pela primeira vez. Conversa de mae, entretanto, vale a pena ouvir e concordar. Fez-se entao o contato com a primeira parteira, cujo pre-natal teria sido bem tranquilizante, nao fosse a sua partida 5 dias antes do bebe dar sinal de querer sair de dentro.

Fez-se entao o contato com a segunda parteira. Muito doce, muito traquila. Chegara na casa, no dia da luz, as dez da manha, de mala e cuia, tudo preparado, soro de emergencia, vidrinhos, seringas, luvas, gel, escutador de coracao de bebe. Esse era seu aparato mais importante, o colocava na barriga da mae e sabia o quanto ainda poderia esperar, o quanto o bebe resistia e vibrava naquele ciclo de contracoes doidas.

A dor foi aumentando. A dor tornou-se o centro das atencoes, quando a saida do bebe deveria ser o foco. Mas o foco nao depende somente do olhar. A dor fe-la enlouquecer. Berros, sussuros e berros. Havia panico nos gritos, havia medo, havia tristeza e muita dor, tudo misturado com o fato da propria inaptidao de nunca ter feito aquilo antes, da relutancia ao repetir a si mesma "Nao vou conseguir". Do meio-dia 'as cinco da tarde tudo parecia desespero. A parteira, sempre um doce. A Flor, amiga da garota barriguda ainda que em prantos silenciosos, fazia de tudo para encoraja-la. O futuro pai a amparava com seus ombros, seu colo, seu olhar tenro, sua voz mansa e carinhosa. A mae queria protejer a propria filha, mas comecou a ficar tensa, assim como a sogra que orava, de um lado para o outro, a todos os santos e astros para as bencaos dos ceus.

Tanta dor, meu pai do ceu.  A familia prometendo e cumprindo a ajuda envolta dela. Todos assistindo tudo sem entender ao certo, queriam ver o bebe vivo e o trabalho terminado. Seria melhor a todos. A gestante, no entanto, entrou no seu redemoinho doloroso, e la ficou aninhada por todas aquelas horas, um processo todo seu de sofrer, de deixar-se doer, de externalizar os gritos, de segurar e soltar suas tensoes, um revival de tudo que havia sido sua gravidez, um drama com final feliz, uma tragedia comica, uma possivel beleza na sua vida acrescida de incertezas.

O tempo chega pra cada qual. Nao foi diferente com ela. A parteira decidiu agir em prol de todos e sussurrando quando a mae da gestante saiu do quarto, encarou o desafio: "Voce segura aperna dela de ca, a Flor de la', o pai, empurra a barriga assim e, vo', segura as maos dela envolta dos pescoco do pai" e quando veio a contracao, ouviu-se alto e forte "Segura o grito menina, faz essa forca pra baixo, empurra" entao o bebe veio, de uma vez. Havia duas horas que se via o cabelo na porta da saida, mas, como o nome diz, um parto e' um parto!

Aprendiz de parteira e da vida: nao se pode adiar os fatos. Quanto mais demorado, mais dolorido fica. Deixa tudo ir, com a forca que e' preciso ter.

27.4.11

Riso da liberdade

Jogou fora muitas cartas de amor. N]ao soube ao certo que sentimento lhe veio à tona para tal ato, tão decidido, pouco pensado e, de instantaneo, resolvido. Enquanto as relia rapidamente, ria de alguma coisa que não era mais verdade. Tudo havia passado. Os medos, as vontades proibidas, a dor, a paixão vermelha, o tesão guardado - ou consumado. Ria da  liberdade de não mais sofrer. Ria das palavras que escolhera escrever em suas cartas, fina ironia feminina, aos poucos insinuava sutilmente, que tudo estaria bem naquele momento, quando na verdade sentira vontade morrer.

Sim, ela lembrou-se, sem culpa, dos foguetes que já se foram. E apagou muitas cartas, sem dó, nem remorso. Os segredos deixaram de ser segredos. E se fossem revelados um dia? Sentiria-se penalizada pelo tempo. Mas agora passou.

21.4.11

A sombra e suas vizinhas

Acordou e nao quis se levantar. Tentou rezar, dormir novemente, ignorar a luz do dia, sonhar outra vez, beijar o namorado dormindo ao lado. Nada. Os pensamentos vinham, sombra de si mesma, vinham numa avalanche, passavam, uns voltavam, outros seguiam flutuando, e no meio de tanta confusao resolveu levantar-se, tomar agua e sentar-se ao sol.

Era uma manha ensolarada, deveria estar feliz por isso, sempre em busca pela felicidade simples, mas nao conseguia. O que era felicidade simples naquele momento de sua vida? Nao sabia responder; outrora havia sido voltar a ver sua mae; depois ter um trabalho com criancas; depois dormir na areia e caminhar nela durante o dia, e assim foi, felicidade simples. E de um dia pro outro, num retorno aquela casa tao pouco sua, ELA se perguntava por onde escapara a felicidade simples.

Logo depois aproximou-se da casa da culpa. Ah! antiga certeira, sempre ali, mesmo escondida, vez ou outra aparecendo, bem naquela manha que poderia ser a mais bonita ou a mais normal como outras haviam sido. A culpa por algum caminho que com o tempo se tornou secreto, quase ninguem a ve caminhar por ali, parece que vai so', fala pouco do que ve, demora pra voltar e ainda tem certas duvidas se o caminho e' bom mesmo, por mais que pareca.

Entao, vizinha da culpa mora a duvida. Gostam de estarem ali, para o que der e vier. Infernizam um bocado em manha como estas, vazias de espirito e repleta de sombras contidas. As sombras contidas sao aquelas que de tanto espremidas, ficam inchadas e gordas, escapando do seu espaco e invadindo outros.

Mesmo com todos esses moradores, o sol venceu e ELA foi de bicicleta ate' a biblioteca. La, por acaso encontrou uma amiga que esperava por outra amiga e foram tomar um cafe. No cafe, a amiga contou que havia feito uma danca muito particular, xamanica e que tinha durado muitas horas. No dia seguinte, havia reparado que existira uma sombra muito extensa dentro da sala de danca e ao comentar com o instrutor, descobriu que ele tambem havia percebido.

"A sombra e' tudo que voce enxerga dentro de voce - e nao gosta-  mas esconde aos olhos dos outros. Pode ser que voce tente esconde-la de si mesma, mas normalmente, voce a enxerga, a rejeita por ignorancia, acredita que va desaparecer pois e' um sentimento que nao gosta de mostrar, nem de ver, nem de deixar os outros virem. Mas, sem recursos, ela nao some. "

O recurso no caso da amiga tinha sido o curso de danca. Tinha um olhar ainda meio aturdido, mas parecia ter se livrado de uma daquelas. ELA entao, pensou na preguica que sentia aquela manha, na culpa por nao ter a felicidade simples, na sombra que se tornara imensa por tanta ignorancia, suspeita de si propria, falta de estima. Nem sabe ao certo quem nao a estima, mas todo mundo tem questoes consigo proprio.Para reslve-las talvez precise de um terapeuta que lhe diga:" Isso,apesar de parecer louco, voce esta' no caminho certo!"

19.4.11

Entretanto chegou chorando. Conhecia aquela dor, uma dor que nao e' pequena nem grande, parecendo nao haver tamanho, algo como um espaco que ocupa, neutralizando as sensacoes, desprovocando a curiosidade, extasiando a vontade, esmorrecendo o impeto e finalmente, acalentando o sono. Aquela dor ja conhecida lhe provocava sono, fino prazer dos olhos molhados e levemente inchados; o nariz a escorrer, a cabeca enfadada ao travesseiro e as pernas e o tronco encolhidos como caramujo, para proteger-se.
A protecao e' ficticia. A dor talvez nao. Quando a sente, nao sabe bem raciocinar, nem dizer, nem buscar palavras. Fica ali, se banhando, achando que nao vai passar, que tudo esta' errado, que os sonhos nunca mais voltarao, e que a saudade se amontoa em cima de gente que acorda distante.

Portanto, deixou-se levar. Ate' que o sono veio e apagou tudo.

6.4.11

voltar a pisar no terreno do desconhecido

-tem alguém aí?

não se sabe ao certo quem abrirá a porta
ou se virá recebê-lo no quintal.

o chamado dá o tom;
vai bater palma, assobiar ou gritar?
existe um código de som ou se chega em silêncio?

não importa o terreno,
se chega sorrindo.

28.1.11

"aquilo que você procurava e não podia encontrar, era simplesmente luz"

novamente as palavras doces que acariaciam chegaram pela carta por ele escrita. a luz de que são feitos os longos dias, aquela que entra logo cedo pela janela, que permanece, depois clareia a casa, os olhos quase se ofuscam, preenche tudo como se fosse uma alegria natural, não vai-se embora, nem quando a noite se aproxima, aquece, deixa tudo mais leve, mais vivo, mais brilhante.

depois ele falou da música.

"vi dentro dos seus olhos o amor e respeito que nutre por ela, coisa que não tinha percebido há uns 4 anos atrás, quando te conheci"

naquela época o amor à música era algo mais puro, menos latente, como se adorasse um santo distante, não conseguia tanto tocá-lo, embora o fizesse vez e outra. com o passar dos anos o amor ficou incondicional e de dentro veio brotando, e a curiosidade de experimentar os sons já não mais podia ser guardada dentro.

"faço preces pra ti, nem sei bem rezar, mas tudo que penso com admiração, com tão grande afeto não encontro outro nome senão oração para desejar-te o bem"

quanto uma pessoa pode oferecer-te com o coração, é um bem tão precioso que dá pra sentir a brisa tênue soprando no ouvido, a abundância de luz que faz a vida ser plena a cada novo amanhecer.

obrigada amigo zingaro.

11.12.10

Filha

O espaco vazio na alma das mulheres. O que elas teimam em sentir quando estao longe de suas maes, de suas avos. Mulher e' tao maternal, quer logo se aconchegar no peito, quer sentir o afago dos bracos, o calor do ventre, o som da voz da mae, as conversas 'a toa que elas tem na cozinha na hora dos cafes.
A vida pode seguir com um bocado de sofrimento se uma filha sentir-se longe demais de sua mae. Mas a distancia e' so' espacial. Mesmo assim, o coracao muitas vezes chora em homenagem, sente que a mae acorda e pensa quao infinita e' a saudades que pode provar e nao sabe muito bem se e' um sentimento reciproco. E fica ali, por instantes na cama, percebendo se o que sente vai passar, se a vida vai mudar, se vai voltar a sentir uma alegria sem peso, como se a vida fosse normal e todos pudessem estar por perto.
O que as maes sonham, a maior parte delas, e' justamente o que mais parece impossivel. Que a vida seja "normal", como as criancas que quando pequenas correm no jardim, depois entram pra tomar banho e jantar, dormem pelo sofa, fazendo perguntas caraminholante aos pais. Quao boa parece esta etapa da vida, de zelar pelos filhos sem muito mais pra se preocupar, curtindo as surpresas, ate quando lavando a roupa suja descobre uma mancha que deu indicio de que o filho esteve por algum lugar que a mae jamais imaginaria, mas acabou por saber. Uma forte e tao perto intimidade que a mae tem com os filhos e que so' elas podem ter.