restinga
dentro da seca
na crua incerteza
que a mente alimenta
respinga
amargura de outros solos
sedentos de dignidade,
amor, decência
retinta
a pouca luz
que aos olhos resigna
pavor, estupor
novamente a restinga
baixa e rasteirinha
surge lentamente
entre grãos e selvageria
calmamente restinga
nos olhos diante da dor
suscita mais um ciclo
e ressucita amor.
quem sou eu
28.11.08
2.11.08
Essência

como se estivessem deitados diante de um céu estrelado de possilibidades, universo de brilhos se acendendo e apagando-se constantemente, cada luz uma via, uma vontade, um caminho. no escuro azul do cenário de fundo, os mistérios, o que cada escolha reserva dentro do seu percurso, o invisível, pouco previsível. cada vez que uma porta se abre podem ser eternas e infinitas as andanças e as descobertas.
de olhos fechados parecem intuir a estrela que os chama, que pisca e reluz a sabedoria do instante. mas dentro da retina encoberta pela escuridão das pálpebras, dormem sonhos distantes, amores intocados no pedaço de terra que deitam seus corpos. cabeça unida com outra cabeca, unidas e separadas, cada olho que se abre mira uma estrela diferente, cada palavra que pronunciam emite um som e outro tom. eles sonham em mundos diversos, tentam fazer suas estradas se cruzarem, procuram o brilho raso, a preciosidade da essência.
28.10.08
metade nuvem, metade azul
A cidade tinha se tornado uma massa pesada, uma "mansidão",como diria uma amiga, condensada de falta de tempo e humor, pressa, fumaça, nóia, cheiros e mau-cheiros, publicidade e papéis, jornais rasgados, latas de cerveja. A cidade para mim estava mais pesada que a vontade de suportá-la. Compramos a passagem e fomos rumo ao interior, não importava onde, eu queria apenas ver a estrada, o horizonte, os campos verdes. A saída da cidade já foi divagante, o ônibus fez um caminho ao redor do maior parque da cidade, o tal do Hyde Park e do andar de cima do ônibus vi o tapete de folhas esparramadas pela grama e pelas calçadas. Adoro o outono na Europa, as ruas ficam cheias de folhas marrons esvoaçantes, parece que a calçada ficou doida varrida, as folhas estão dançando com o vento e fugindo de vassoura, uma beleza de carnaval que arrasta o que estiver na frente. No parque, árvores marrons, amarelas, avermelhadas sob um céu de nuvens. Mansidão.
Na estrada, lentamente no afastar da cidade as nuvens foram ganhando cores de tom azulado. No percorrer do trajeto um feixe amarelado começa a surgir por detrás dos aglutinados esbranquiçados. Estava olhando os campos, sabia que no interior desse país os campos seriam assim, com gramas tão verdes que parecem uma pintura impressionista, com poucas ovelhas e vacas pastando. Olho pro céu novamente e lá está a divisão de um céu carregado de nuvens e um céu límpido e azul. Esfrego os olhos, miro novamente; a divisão de céus é absurdamente comovente, chega a parecer forças do bem e do mau, o inferno e o paraíso, como bem descritos nos capítulos do antigo testamento. Mas dessa vez parecia que o mundo estava dividido em dois e que o ônibus cruzaria a linha.
A medida que avançava na estrada, os raios de sol iam surgindo um a um, delineando um brilho nos fios de cabelos dos passageiros que estavam sentados do lado da janela. E num piscar de olhos a luz amarela invadiu o onibus num jato dourado, estávamos atravessando o mundo de nuvens para o mundo de céu azul. Eu estava perplexa e comecei a agradecer deus por aquilo. Eu pedira o horizonte ao longe dos campos verdes, na amplitude sem margens. Ele estava me dando o sol, que aparecia tao enigmaticamente como tantas revelações na vida. Olhei pro lado, meu amor dormia e mais adiante tinha um rapaz, um rapaz que eu já tinha olhado antes porque ele estava muito arrumado, com sapatos de couro marrons, combinando com um cachecol também marron, um casaco aveludado e uma bolsa de couro, daquelas de antigos escritores de filme. Ele não ia pra uma festa, provavelmente estaria indo à universidade (como tantos por aqui). Me deparei com a luz do sol refletida nos olhos claros dele e sua cabeça levemente erguida pra ver a paisagem, porque ele estava sentado na fileira do outro lado do corredor, sua janela nao dava pro horizonte. Pude notar seu encantamento pela paisagem que se derramava diante de nossas visões e naturalmente um sorriso apareceu em sua face. OLhei mais ao redor, uns dormiam, outros escreviam no laptop, outros liam. Somente eu e aquele menino olhávamos pro espetáculo. Somente eu sabia o significado daquilo pra mim naquele momento.
Na estrada, lentamente no afastar da cidade as nuvens foram ganhando cores de tom azulado. No percorrer do trajeto um feixe amarelado começa a surgir por detrás dos aglutinados esbranquiçados. Estava olhando os campos, sabia que no interior desse país os campos seriam assim, com gramas tão verdes que parecem uma pintura impressionista, com poucas ovelhas e vacas pastando. Olho pro céu novamente e lá está a divisão de um céu carregado de nuvens e um céu límpido e azul. Esfrego os olhos, miro novamente; a divisão de céus é absurdamente comovente, chega a parecer forças do bem e do mau, o inferno e o paraíso, como bem descritos nos capítulos do antigo testamento. Mas dessa vez parecia que o mundo estava dividido em dois e que o ônibus cruzaria a linha.
A medida que avançava na estrada, os raios de sol iam surgindo um a um, delineando um brilho nos fios de cabelos dos passageiros que estavam sentados do lado da janela. E num piscar de olhos a luz amarela invadiu o onibus num jato dourado, estávamos atravessando o mundo de nuvens para o mundo de céu azul. Eu estava perplexa e comecei a agradecer deus por aquilo. Eu pedira o horizonte ao longe dos campos verdes, na amplitude sem margens. Ele estava me dando o sol, que aparecia tao enigmaticamente como tantas revelações na vida. Olhei pro lado, meu amor dormia e mais adiante tinha um rapaz, um rapaz que eu já tinha olhado antes porque ele estava muito arrumado, com sapatos de couro marrons, combinando com um cachecol também marron, um casaco aveludado e uma bolsa de couro, daquelas de antigos escritores de filme. Ele não ia pra uma festa, provavelmente estaria indo à universidade (como tantos por aqui). Me deparei com a luz do sol refletida nos olhos claros dele e sua cabeça levemente erguida pra ver a paisagem, porque ele estava sentado na fileira do outro lado do corredor, sua janela nao dava pro horizonte. Pude notar seu encantamento pela paisagem que se derramava diante de nossas visões e naturalmente um sorriso apareceu em sua face. OLhei mais ao redor, uns dormiam, outros escreviam no laptop, outros liam. Somente eu e aquele menino olhávamos pro espetáculo. Somente eu sabia o significado daquilo pra mim naquele momento.
22.10.08
Atrás da conversa
"Sinto que ele está triste" - disse Amalia. "Faz dias que não me olha nos olhos, não tem sorrido muito, a cabeça cabisbaixa pelos corredores da casa. Quando entro no quarto ele está jogando video-game, coisa que nunca faz, só quando nao tem nada pra fazer".
Ariela continuava a fitá-la, ouvindo-a atentamente. Então prosseguiu "Eu acho que ele está descobrindo. Está percebendo que talvez eu não seja a mulher que ele tanto desejou, porque eu nem provoco mais desejo nele. Há um mes estamos sem transar, voce sabe o que é isso?" Ariela desviou o olhar de Amalia para o clarão que desapareceu no chão do quarto, mais uma nuvem tinha vindo cobrir o sol. "Simplesmente não sabemos como despertar o prazer erótico um no outro" Continuou a dizer com palavras e mãos articulando. Deu uma pausa e uma longa piscada. "Nao sei se eu devo insistir. Toda vez que estou nua diante dele, parece que meu corpo não tem vida, cada parte é a mesma num todo, nada vibra, nada se aquece, nem um pedacinho de pele. As poucas vezes que ele me beijou eu não o desejei e logo ele parou de me beijar."
"Voce tentou dizer a ele que queria ser tocada de outra forma?" quis saber Ariela. Olhou para a janela, viu a sombra da árvore que vinha de fora e balançou a testa "Falamos algumas vezes sobre isso, mas eu não gosto muito. O que vou ficar repetindo? Meu amor, eu te amo mas voce nao me dá tesão? Oras, ninguem quer ouvir isso Ariela, eu sei que ele também não quer. Eu teria que chegar com a solução nas mãos, te-las na bandeija e serví-lo, mas enquanto eu não o oferecer isso, ele vai repetir a mesma coisa das outras conversas, que o prazer deve ser uma coisa espontanea, que um corpo saudavel sente prazer, que eu deveria ir procurar ajuda..." Suspirou.
Ariela então continuou. "Olhe, mesmo assim, isso não justifica o teu silencio. Voce tem que falar, tem que dizer o que quer e que não quer, o que gosta e o que não gosta. O pior numa relacao é a falta de comunicação, seja pras coisas positivas quanto pras negativas. Desse silencio pode virar um deserto e voces podem se chatear muito mais que se tivessem conversado. Um deserto pode matar tanto de frio quanto de calor. Tanto de seca quanto de vento."
Amalia mordeu os lábios, franziu levemente a testa, olhou pro teto. "Eu queria deseja-lo. Eu queria que ele me tocasse e fossemos à loucura. Eu não posso mais viver pensando que eternamente seremos mornos, casados com uma vida sexual estagnada, eu não posso me repetir isso todos os dias." E virou bruscamente a cabeça para o lado, em desaprovação. "Então mexa-se Amalia. Diga, grite, esperneie, faça qualquer coisa ou destrua seu casamento, deixe-o morrer lentamente e veja todos os dias um olhar que não te fita porque perdeu a confiança. Não confia porque não ouve sequer a verdade. Esclaresce amiga, isso é importante, ou voce quer continuar a ve-lo entristescer cada vez mais?" A pergunta ficou ressoando como um eco nos ouvidos de Amalia. Dentro de si, sabia perfeitamente que não queria ve-lo sofrer, mas que estava fazendo como se estivesse de olhos tapados, fingindo nao enxergar que ele sofria, e muito. "Tens razão. Vou dizer, nao sei bem como começar e nem sei no que isso vai terminar, mas ser fiel é ser verdadeiro."
Abriram a janela e foram ver o sol que voltava a aparecer por entre as nuvens.
Ariela continuava a fitá-la, ouvindo-a atentamente. Então prosseguiu "Eu acho que ele está descobrindo. Está percebendo que talvez eu não seja a mulher que ele tanto desejou, porque eu nem provoco mais desejo nele. Há um mes estamos sem transar, voce sabe o que é isso?" Ariela desviou o olhar de Amalia para o clarão que desapareceu no chão do quarto, mais uma nuvem tinha vindo cobrir o sol. "Simplesmente não sabemos como despertar o prazer erótico um no outro" Continuou a dizer com palavras e mãos articulando. Deu uma pausa e uma longa piscada. "Nao sei se eu devo insistir. Toda vez que estou nua diante dele, parece que meu corpo não tem vida, cada parte é a mesma num todo, nada vibra, nada se aquece, nem um pedacinho de pele. As poucas vezes que ele me beijou eu não o desejei e logo ele parou de me beijar."
"Voce tentou dizer a ele que queria ser tocada de outra forma?" quis saber Ariela. Olhou para a janela, viu a sombra da árvore que vinha de fora e balançou a testa "Falamos algumas vezes sobre isso, mas eu não gosto muito. O que vou ficar repetindo? Meu amor, eu te amo mas voce nao me dá tesão? Oras, ninguem quer ouvir isso Ariela, eu sei que ele também não quer. Eu teria que chegar com a solução nas mãos, te-las na bandeija e serví-lo, mas enquanto eu não o oferecer isso, ele vai repetir a mesma coisa das outras conversas, que o prazer deve ser uma coisa espontanea, que um corpo saudavel sente prazer, que eu deveria ir procurar ajuda..." Suspirou.
Ariela então continuou. "Olhe, mesmo assim, isso não justifica o teu silencio. Voce tem que falar, tem que dizer o que quer e que não quer, o que gosta e o que não gosta. O pior numa relacao é a falta de comunicação, seja pras coisas positivas quanto pras negativas. Desse silencio pode virar um deserto e voces podem se chatear muito mais que se tivessem conversado. Um deserto pode matar tanto de frio quanto de calor. Tanto de seca quanto de vento."
Amalia mordeu os lábios, franziu levemente a testa, olhou pro teto. "Eu queria deseja-lo. Eu queria que ele me tocasse e fossemos à loucura. Eu não posso mais viver pensando que eternamente seremos mornos, casados com uma vida sexual estagnada, eu não posso me repetir isso todos os dias." E virou bruscamente a cabeça para o lado, em desaprovação. "Então mexa-se Amalia. Diga, grite, esperneie, faça qualquer coisa ou destrua seu casamento, deixe-o morrer lentamente e veja todos os dias um olhar que não te fita porque perdeu a confiança. Não confia porque não ouve sequer a verdade. Esclaresce amiga, isso é importante, ou voce quer continuar a ve-lo entristescer cada vez mais?" A pergunta ficou ressoando como um eco nos ouvidos de Amalia. Dentro de si, sabia perfeitamente que não queria ve-lo sofrer, mas que estava fazendo como se estivesse de olhos tapados, fingindo nao enxergar que ele sofria, e muito. "Tens razão. Vou dizer, nao sei bem como começar e nem sei no que isso vai terminar, mas ser fiel é ser verdadeiro."
Abriram a janela e foram ver o sol que voltava a aparecer por entre as nuvens.
17.10.08
Far from home II
far from home
that's the music she sings alone
passing through tones
finds her way back in a song
far from home
is where her heart is
miles distance beating
nowhere willing to go
far from home
she watches the life along
crossing borders over the years
sailing grounds of missing owns
far from home
she dares to live
and to hopefully sink and drown
cold blames in the water flows.
that's the music she sings alone
passing through tones
finds her way back in a song
far from home
is where her heart is
miles distance beating
nowhere willing to go
far from home
she watches the life along
crossing borders over the years
sailing grounds of missing owns
far from home
she dares to live
and to hopefully sink and drown
cold blames in the water flows.
10.10.08
Oleo de mirra com gergelim
Subiamos as escadas de madeira, daquelas que precisa das maos pra dar empulso, os degraus eram distantes um do outro, era preciso segurar firme com as duas maos, uma de cada lado e um pe por vez apoiava no fino degrau e depois o outro. La em cima estava a palha estendida, alguns vasos, pedras, incensos, velas, umas pecas em madeira talhadas a mao, alguns livros sobre astrologia, calendario maia, heiki, medicina chinesa. Da janela de vidro se viam duas torres e o telhado de uma outra casa. O sotao fora construido para ele que queria ficar perto do ceu, no seu oratorio, recebendo a energia do alto. Quando subiamos ali, ficavamos suspensos em algum universo longiquo, nos transportavamos para alem da atmosfera, em alguma camada celeste. Nossa voz baixava de volume enquanto nossos ouvidos ficavam mais sensiveis para escutar a respiracao um do outro, que ia se tornando lisa, serena, profunda. Quando suspiravamos, alguma mao ja tinha procurado tocar em qualquer parte do corpo do outro e quando quem sentia ja se amolecia, relaxando no toque, o outro dizia, "pegue o oleo de mirra com gergelim".Estava iniciada a massagem. As maos de um que percorria os caminhos de veias, musculos, ossos, cavidades, todos sendo massageados com dedos atentos a cada pequena parte do corpo do outro, a cada reacao que certos pontos equivalentes a outras partes do corpo nos pe's ou nas maos provocada. Ficavamos horas, soltando algumas palavras, oras exprimindo reacoes prazerosas, oras dores que se desmanchavam nos dedos do outro, as vezes alguem dava uma risada boa, de alivio ou de deleite. Depois de um longo tempo, fora de qualquer cronometro, um tempo imaginario no qual ambos nos deixavamos levar pela sensacao provocada, e um suspiro em agradecimento era seguido de um sorriso que nao saia do rosto, ficava por entre os olhos, na face iluminada pela luz alaranjada da vela ou por algum raio de lua que vinha de fora. Assim permaneciamos aquecidos pela branda energia que disseminavamos mutuamente, cultivando um calor que nascia no peito e se espalhava pelo corpo e pela mente, como uma onda propagando suas moleculas sem cessar. Nos agradeciamos num abraco ainda com os joelhos sobre a palha. Quando era o momento de descer davam um longo suspiro e sabiam que tinham que voltar pra terra, mas voltavam flutuando, pisando em folhas de flores que brotavam de seuas coracoes.
6.10.08
Presentes e presencas
O bar nao era um bar qualquer. Do lado de fora dava pra ver uma luz amarelada e uma porta verde dando pra um pequeno jardim. Ao aproximar-me da porta, ouvi o som do piano, macio, percorrendo as teclas numa noite fria e azul. Entrei no bar e um cheiro de comida casieira invadiu as narinas, junto com um vapor de ambiente quente, "pretty warm", como dizem os ingleses. Cheiro de ervas e temperos, adocicados, levemente picantes. Dei tres passos e a musica acabou, olhei a pianista de soslaio e logo vi seu sorriso em agradecimento às palmas. Ela vestia uma meia-calça colorida, com uma saia acima do joelho e uma botinha de camurça. Nos demos um abraço e ela logo voltou ao seu banco para tocar outra musica, mas antes me apresentou sua mãe, uma senhora de cabelos brancos encaracolados, finos e esvoacantes. Ela acabara de chegar de viagem de Israel, tinha feito 4 horas de avião, mais duas horas de transito da cidade até o aeroporto. Estava com os olhos cansados, no entanto sorria pausadamente. Olhava a filha tocar piano. Fazia 9 meses que mãe e filha não se viam. Conversamos sobre o tempo em Israel, ela disse que estava calor, enquanto aqui a temperatura cai a cada dia, com vento frio e garoas constantes. Ela me perguntou se eu não gostaria de ir a Israel um dia, e eu respondi que sim, mesmo sem nunca ter pensado muito nisso efetivamente. É engraçado como a vida vai tecendo seus fios e de um momento ao outro você passa a pensar em lugares que nunca lhe trouxeram outras informações a nao ser as mesmas que a midia nos apresenta. Mas de repente você passa a conviver com pessoas de um certo pais, voce ouvê suas linguas, experimenta sua culinaria, ouve suas musicas, observa seus comportamentos.
"Ha mais instrumentos embaixo da mesa" me diz a pianista. "Toque-os quando quiser". Após um suco de limonada rosa, especialidade da casa, me levantei e fui ao lado dela com leves instrumentos percussivos comecei a acompanhá-la e logo estávamos entretidas tocando musica folclorica israelense e depois, com outros musicos que chegaram, tudo virou samba. A noite foi bonita, cheia de sorrisos e palmas. De vez em quando eu lembrava de olhar pra senhorinha e via que ela estava com os olhos semi-cerrados, num cansaço que dava pena de ver!
No dia seguinte acordo e recebo uma mensagem da pianista, agradecendo a minha presença na noite anterior. Eu é que tenho agradecido a presença dela na minha vida.
"Ha mais instrumentos embaixo da mesa" me diz a pianista. "Toque-os quando quiser". Após um suco de limonada rosa, especialidade da casa, me levantei e fui ao lado dela com leves instrumentos percussivos comecei a acompanhá-la e logo estávamos entretidas tocando musica folclorica israelense e depois, com outros musicos que chegaram, tudo virou samba. A noite foi bonita, cheia de sorrisos e palmas. De vez em quando eu lembrava de olhar pra senhorinha e via que ela estava com os olhos semi-cerrados, num cansaço que dava pena de ver!
No dia seguinte acordo e recebo uma mensagem da pianista, agradecendo a minha presença na noite anterior. Eu é que tenho agradecido a presença dela na minha vida.
4.10.08
Pela rua
Passei o dia em casa sentada na frente do piano (nao e' um piano de verdade, um teclado que faz parecer) e em cima dele estava o computador, e nas telas eu procurei as musicas que quero cantar, enquanto no piano brincava com os tons e semitons das notas sendo transpostas pela voz. Finalmente estou descobrindo as notas dentro da minha propria voz. Parece magica, parece magia. Fiquei horas, saltanto de uma musica pra outra, encontrando versos dentro da melodia.
O tempo mudou. Talvez tenha mudado a estacao com a vinda de um vento frio e incessante que carrega nuvens cheias e passantes. Eu desviava o olhar do piano para a janela e via as folhas de uma parreira em cima do muro dancarem uma danca sem fim, movimentos continuos e aleatorios. No fim da tarde decidi ir a padaria e caminhando pela rua senti a garoa fina no cabelo e no nariz. Me lembrei que estou num outro pais, vivendo uma vida nova cheia de lembrancas da vida no meu pais, na minha casa, com os meus amigos querendo me ligar a qualquer hora, fazendo alguma visita deliciosa, buscando inventar algum passeio, algum show instrumental gratuito, comer uma pizza na pizzaria barata onde o garcon te trata bem. Sempre a lembranca de qualquer situacao imprevista,dos elogios e agradecimentos por ter o amigo por perto. Mas andando sozinha na rua, lembrei-me da sensacao de estar em outro pais, onde as situacoes tambem sao imprevistas porque voce sabe que aquele amigo nao esta' la' pra te ligar, nem vai encontrar sua mae de touca de banho cozinhando os legumes, esperando o tempo da tintura do cabelo. A sensasao nao e' essa, e' outra, e' tambem meio poetica porque o frio naturalmente traz instrospeccao, maos guardadas nos bolsos dos casacos longos e acolchoados. Parece que voce esta' sempre precisando proteger-se, aninhar-se num casulo quentinho, buscar calor dentro de voce mesmo e na sua casa que nao e' tao sua ainda, porque e' nova, mas que ja contem sua energia.
Em pleno sabado a noite, eu nao tenho a euforia no peito de saber que vai ter festa e eu vou sair pra dancar com meus amigos preferidos, nem vou comemorar o aniversario da mulher que eu mais admiro na vida, ela esta' longe, trabalhando pra poder vir pro outro pais e conhecer a sensacao de que tanto lhe falo. Se eu tivesse um cigarro, fumaria enquanto caminhava, e em casa tambem fumaria na frente da chamine' com uma xicara de cha.
O frio esta' trazendo calma e quietude. A mente comeca a perceber que o tempo vai passar mais devagar e isso vai ser bom pra nao ver a vida passar tao rapido, como acontece na maioria das vezes. Talvez seja tempo de compor, de descobrir pequenas coisas, de inventar historias e de sentir o coracao bater. E de escutar mais uma vez o que Chico gosta de dizer.
"Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo O afazer
Me pego em sonho A navegar
Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa Só o tempo não"
O tempo mudou. Talvez tenha mudado a estacao com a vinda de um vento frio e incessante que carrega nuvens cheias e passantes. Eu desviava o olhar do piano para a janela e via as folhas de uma parreira em cima do muro dancarem uma danca sem fim, movimentos continuos e aleatorios. No fim da tarde decidi ir a padaria e caminhando pela rua senti a garoa fina no cabelo e no nariz. Me lembrei que estou num outro pais, vivendo uma vida nova cheia de lembrancas da vida no meu pais, na minha casa, com os meus amigos querendo me ligar a qualquer hora, fazendo alguma visita deliciosa, buscando inventar algum passeio, algum show instrumental gratuito, comer uma pizza na pizzaria barata onde o garcon te trata bem. Sempre a lembranca de qualquer situacao imprevista,dos elogios e agradecimentos por ter o amigo por perto. Mas andando sozinha na rua, lembrei-me da sensacao de estar em outro pais, onde as situacoes tambem sao imprevistas porque voce sabe que aquele amigo nao esta' la' pra te ligar, nem vai encontrar sua mae de touca de banho cozinhando os legumes, esperando o tempo da tintura do cabelo. A sensasao nao e' essa, e' outra, e' tambem meio poetica porque o frio naturalmente traz instrospeccao, maos guardadas nos bolsos dos casacos longos e acolchoados. Parece que voce esta' sempre precisando proteger-se, aninhar-se num casulo quentinho, buscar calor dentro de voce mesmo e na sua casa que nao e' tao sua ainda, porque e' nova, mas que ja contem sua energia.
Em pleno sabado a noite, eu nao tenho a euforia no peito de saber que vai ter festa e eu vou sair pra dancar com meus amigos preferidos, nem vou comemorar o aniversario da mulher que eu mais admiro na vida, ela esta' longe, trabalhando pra poder vir pro outro pais e conhecer a sensacao de que tanto lhe falo. Se eu tivesse um cigarro, fumaria enquanto caminhava, e em casa tambem fumaria na frente da chamine' com uma xicara de cha.
O frio esta' trazendo calma e quietude. A mente comeca a perceber que o tempo vai passar mais devagar e isso vai ser bom pra nao ver a vida passar tao rapido, como acontece na maioria das vezes. Talvez seja tempo de compor, de descobrir pequenas coisas, de inventar historias e de sentir o coracao bater. E de escutar mais uma vez o que Chico gosta de dizer.
"Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo O afazer
Me pego em sonho A navegar
Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa Só o tempo não"
2.10.08
Ana Terra
Nao fale muito da tristeza que assola o peito, chore as lagrimas de dor, elas precisam escorrer como um rio caldaloso em direcao ao mar, com toda sua furia, com toda sua correnteza, rolando pesadamente sobre a pele macia do teu rosto. Tua face ficara' marcada por todos os sentimentos ruims que por ali passarao e penetrarao em cada poro, deixando um furor queimando de leve as linhas do teu semblante feminino. Desde crianca percebi que chorar e' fazer uma limpeza profunda, que traz toda a vermelhidao do sofrimento e estampa nos olhos tantas impurezas trazidas`a tona. Uma amiga me escreveu que esta' submersa num mar de lagrimas que ela nao chorou e por isso se sente sufocada, a agua dentro provocando um maremoto enquanto a agua colocada fora transborda, escoa, vai sendo transformada ate desaparecer. Transparecem os medos, os desejos perdidos, as ilusoes de todas as noites nao dormidas, as vontades intocadas, a falta de coragem, os receios dormindo na sua cama aconchegante, sem nunca quererem acordar e sair de perto, a culpa que cutuca, a duvida que julga o pensamento do outro, a falta de fe', de animo, de energia pura, de confianca, a cegueira. Tudo transparece em todas as lagrimas que milagrosamente brotam como agua da fonte, sem cessar, durante dias ou noites, tardes e fim de tardes, na solitude ou na doce companhia de alguem que desperta tua sensibilidade de alguma forma.
Pra mim foi assim. Jorrei as lagrimas que nao mais podia, ate' sentir que tudo havia escorrido, que a lagrima havia tornado-se agua pura, como se filtrada apos ter passado tantas vezes pelo mesmo lugar. Nesse dia pouco me olhei no espelho, ou nem me olhei, porque nao queria ficar questionando a razao de tudo isso, de dores que vao se acumulando no peito sem nos darmos conta. Evitei o meu proprio olhar para que evitasse julgar-me como ha semanas vinha fazendo. Apenas o choro e tudo o que nele continha.Apenas o choro regando a terra.
Pra mim foi assim. Jorrei as lagrimas que nao mais podia, ate' sentir que tudo havia escorrido, que a lagrima havia tornado-se agua pura, como se filtrada apos ter passado tantas vezes pelo mesmo lugar. Nesse dia pouco me olhei no espelho, ou nem me olhei, porque nao queria ficar questionando a razao de tudo isso, de dores que vao se acumulando no peito sem nos darmos conta. Evitei o meu proprio olhar para que evitasse julgar-me como ha semanas vinha fazendo. Apenas o choro e tudo o que nele continha.Apenas o choro regando a terra.
15.9.08
14.9.08
Foram longos os poucos dias
Canta a alma
embebida de luz
na varanda com sol.
Fita as folhas dancando
por detras do muro branco,
estao banhadas pelos raios
amarelecidos de uma estacao
que chega ao fim.
O verao foi suave,
dias claros na retina
vespertina.
Foi salpicado de briza
varrendo o ceu
sutilmente
como uma renda de nuvem
transparente.
O calor brando tocou
a pele, mao de seda
acariciando a nuca
num leve sopro;
os fios de cabelos
rocando as orelhas;
o coque ao topo da cabeca
enrolado com um laco de flor
tomando vento.
Numa manha de verao
colheram rosas e lirios
e enfeitaram a mesa
da cozinha.
O cha fumegante
na xicara ao lado do vaso
envolveu os aromas-
as ervas, as flores.
Sempre alguem oferecia
cafe.
Sempre em dia de sol
moviam-se com liberdade
os pes,
nus, umidecidos.
Foram longos
os poucos dias quentes
da estacao que traz
estado de euforia.
Aqui na ilha de nuvens chuvosas
e' raridade azular
por dias sucessivos,
e' como sombra no deserto,
quando se lhe avista,
tao rapido o corpo
dela se aproxima.
Hoje o sol atravessou
os telhados, saltou os muros,
espiou por entre as frestas,
apoiou-se nos cilios,
sagradamente
irradiou sanidade.
embebida de luz
na varanda com sol.
Fita as folhas dancando
por detras do muro branco,
estao banhadas pelos raios
amarelecidos de uma estacao
que chega ao fim.
O verao foi suave,
dias claros na retina
vespertina.
Foi salpicado de briza
varrendo o ceu
sutilmente
como uma renda de nuvem
transparente.
O calor brando tocou
a pele, mao de seda
acariciando a nuca
num leve sopro;
os fios de cabelos
rocando as orelhas;
o coque ao topo da cabeca
enrolado com um laco de flor
tomando vento.
Numa manha de verao
colheram rosas e lirios
e enfeitaram a mesa
da cozinha.
O cha fumegante
na xicara ao lado do vaso
envolveu os aromas-
as ervas, as flores.
Sempre alguem oferecia
cafe.
Sempre em dia de sol
moviam-se com liberdade
os pes,
nus, umidecidos.
Foram longos
os poucos dias quentes
da estacao que traz
estado de euforia.
Aqui na ilha de nuvens chuvosas
e' raridade azular
por dias sucessivos,
e' como sombra no deserto,
quando se lhe avista,
tao rapido o corpo
dela se aproxima.
Hoje o sol atravessou
os telhados, saltou os muros,
espiou por entre as frestas,
apoiou-se nos cilios,
sagradamente
irradiou sanidade.
7.9.08
Universos que nao nos pertencem
Estar em outro pais e' escutar historias que lembram aqueles filmes sobre a vida de alguem que ja se enfiou no fundo do abismo, com dias initerruptos de drogas injetaveis, os olhos revirando numa euforia descartavel que se lanca incontrolavelmente no jardim de alucinacoes mirabolaveis, depois rasteja incondicionalmente fincando suas garras na pele de quem precisa consumir uma outra porcao, os olhos nunca voltam ao seu branco aparente, riscos avermelhados estilhassam nas suas janelas. Alguns anos podem se passar sem que um dia limpo possa intervir na lembranca de quem soube o que era estar em paz. Pode-se tropecar com passos cambaleantes que amolecem as pernas, curvam a coluna, fazem o corpo espiralar quando um sorriso relaxado invade a feicao de quem quer passar seus estados de extase fora do universo comum, nao importa onde esteja, se o palco de suas realizacoes for um liquido que faz seu corpo extremecer, vibrar numa compulsao louca de uma energia exorbitante.
Um corpo pode ser esvaziado e ceder lugar a uma apropriacao de qualquer especie. Seus labirintos sao explorados com as toxinas que lhe possam trazer sensacoes indescritiveis, e a vida pode virar um trunfo de sensacoes que nao cabem em palavras, uma alternancia de dor e cor, parece que tudo brilha e ofusca os olhos, parece que tudo fica palido e sombrio, quando o peso do corpo cede 'a gravidade do chao umido e frio, e as pernas ficam desordenadas como se nao fizessem parte de um conjunto harmonioso que e' o corpo humano.
Quando ouve-se as historias de vidas que sugaram o verde-escuro de frias estacoes do ano, a mente recria o filme das cenas mais confusas tecendo as verdades que nunca se completam porque sao ilusoes na cabeca de quem delira. Depois de um tempo vem a fragilidade, o caos, o inferno queimando todas as veias que ardem incessantemente. A dor que tambem alucina, o grito da angustia, o sofrimento de alguem que nao sabe mais onde foi parar sua vida.
Alguem reconta uma tragetoria e ainda esta' jovem, mas sente o estremecer de um passado recente e borrado com cores indefinidas. Esse mesmo alguem busca respirar, olha o passado com receio de ter envelhecido muitos anos e lembra-se da dor com um fio de remorso sobre si mesmo.
O mundo interno traz tantos universos que nem sempre nos pertencem.
Um corpo pode ser esvaziado e ceder lugar a uma apropriacao de qualquer especie. Seus labirintos sao explorados com as toxinas que lhe possam trazer sensacoes indescritiveis, e a vida pode virar um trunfo de sensacoes que nao cabem em palavras, uma alternancia de dor e cor, parece que tudo brilha e ofusca os olhos, parece que tudo fica palido e sombrio, quando o peso do corpo cede 'a gravidade do chao umido e frio, e as pernas ficam desordenadas como se nao fizessem parte de um conjunto harmonioso que e' o corpo humano.
Quando ouve-se as historias de vidas que sugaram o verde-escuro de frias estacoes do ano, a mente recria o filme das cenas mais confusas tecendo as verdades que nunca se completam porque sao ilusoes na cabeca de quem delira. Depois de um tempo vem a fragilidade, o caos, o inferno queimando todas as veias que ardem incessantemente. A dor que tambem alucina, o grito da angustia, o sofrimento de alguem que nao sabe mais onde foi parar sua vida.
Alguem reconta uma tragetoria e ainda esta' jovem, mas sente o estremecer de um passado recente e borrado com cores indefinidas. Esse mesmo alguem busca respirar, olha o passado com receio de ter envelhecido muitos anos e lembra-se da dor com um fio de remorso sobre si mesmo.
O mundo interno traz tantos universos que nem sempre nos pertencem.
5.9.08
ode aos amigos
os amigos me cantam as melodias que trazem fe'
os amigos pintam palavras que se combinam e soam poesias a serem ouvidas;
os amigos enfeitam o muro das lembrancas com ornamentos reluzentes
e grafitam os desenhos de vidas que sao possiveis num aceno de maos;
os amigos criam versos e rimas que nitidamente pousam no livro de nossas parcerias;
os amigos recitam poemas de alem-mar, que trazem o verde aperolado do extenso oceano salgado;
os amigos perfazem cada qual seus caminhos e receitam a sabedoria de compartilhar cada lagrima partida, cada sorriso que espartilha;
os amigos intuem o anseio daquele que precisa de suas sabedorias, qualquer novidade do dia, o minimo que se conquista;
os amigos glorificam sua presenca, mesmo no espaco de uma atemporal ausencia.
os amigos
sao como jasmins perfumando a janela que se abre pro quintal;
sao luas eternas nas fases que se alternam entre o universo e a terra;
sao gotas de diamante que regam o solo sedento de novas sementes;
sao todos os sentimentos que prosperam no olhar quando lhes abraco, no beijo quando lhes toco, no dialogo quando lhes confidencio.
aos amigos escrevo e agradeco.
os amigos pintam palavras que se combinam e soam poesias a serem ouvidas;
os amigos enfeitam o muro das lembrancas com ornamentos reluzentes
e grafitam os desenhos de vidas que sao possiveis num aceno de maos;
os amigos criam versos e rimas que nitidamente pousam no livro de nossas parcerias;
os amigos recitam poemas de alem-mar, que trazem o verde aperolado do extenso oceano salgado;
os amigos perfazem cada qual seus caminhos e receitam a sabedoria de compartilhar cada lagrima partida, cada sorriso que espartilha;
os amigos intuem o anseio daquele que precisa de suas sabedorias, qualquer novidade do dia, o minimo que se conquista;
os amigos glorificam sua presenca, mesmo no espaco de uma atemporal ausencia.
os amigos
sao como jasmins perfumando a janela que se abre pro quintal;
sao luas eternas nas fases que se alternam entre o universo e a terra;
sao gotas de diamante que regam o solo sedento de novas sementes;
sao todos os sentimentos que prosperam no olhar quando lhes abraco, no beijo quando lhes toco, no dialogo quando lhes confidencio.
aos amigos escrevo e agradeco.
22.8.08
A na' ta' ali.
Se a vida fosse uma canção, cantaria com toda a vontade que a amizade é como um botão de flor que desabrocha quando chega a primavera, que sabe o valor de uma estação e inspira com prazer os perfumes que traz o vento.
No refrão, cantaria que a amizade sabe bem o quanto dura um tempo, sabe que os periodos distantes sao feitos de inverno, neve branca que cobre a vida, palavra petrificada pelo tapete de neve.
Como uma canção de amor, cantaria que o amor de um amigo não morre jamais, apenas repousa quando o tempo nao o permite viver com intensidade e respiros profundos; apenas acorda com o sopro de voz vindo do coração distante, a luz volta a iluminá-lo e o amor transparece na amizade em renascimento.
E como uma verdadeira canção, jamais deixaria de ser entoada. Uma vez cantada, resta encantada por mais de uma vida.
No refrão, cantaria que a amizade sabe bem o quanto dura um tempo, sabe que os periodos distantes sao feitos de inverno, neve branca que cobre a vida, palavra petrificada pelo tapete de neve.
Como uma canção de amor, cantaria que o amor de um amigo não morre jamais, apenas repousa quando o tempo nao o permite viver com intensidade e respiros profundos; apenas acorda com o sopro de voz vindo do coração distante, a luz volta a iluminá-lo e o amor transparece na amizade em renascimento.
E como uma verdadeira canção, jamais deixaria de ser entoada. Uma vez cantada, resta encantada por mais de uma vida.
20.8.08
horas
o que mais ela quer quando fica escrevendo no escuro? ela fica remontando as estorias de seu passado, com se fossem unicas e devessem prevalescer. quando ela fica horas e horas assim, martelando palavras e arrancando pensamentos, o tempo presente nem existe. nao existe luz, nem pessoas, nem sentimentos, nem obrigacoes. quando para de escrever o mundo desaba em sua cabeca e ela lembra-se de quem e', de quem ainda nao foi e fica remoendo sua falta de animo pra fazer as coisas. ela escreve o que sabe fazer bem feito. ela conta nos dedos as habilidades que tem. depois se cansa e vai ler qualquer outro assunto que lhe seja interessante. mesmo quando le, se ve nas entrelinhas e busca nao parecer conformista, sentada diante de paginas enquanto tenta nutrir sua mente com informacoes que lhe sejam de grande sabedoria.
depois volta a sentar-se e escrever. pergunta-se o por onde deixou escapar a sabedoria de engrandecer o tempo. primeiro responde 'a pergunta do que seria engrandecer o tempo e repete a si mesma que e' dedicar-se as coisas que lhe sao importantes naquele caminho que esta' percorrendo. depois questiona porque deixou a sabedoria de engrandecer o tempo escapar se, afinal, ve diante de si todo o tempo do mundo. talvez ela responda que esta' confusa, que nao sabe pra que lado ir. talvez ela responda que esta' estudando as possibilidades. ainda assim ela argumenta que ainda havera' o tempo de colheitas. e no fundo de tudo que escreve, ela aceita que so' quer escrever.
depois volta a sentar-se e escrever. pergunta-se o por onde deixou escapar a sabedoria de engrandecer o tempo. primeiro responde 'a pergunta do que seria engrandecer o tempo e repete a si mesma que e' dedicar-se as coisas que lhe sao importantes naquele caminho que esta' percorrendo. depois questiona porque deixou a sabedoria de engrandecer o tempo escapar se, afinal, ve diante de si todo o tempo do mundo. talvez ela responda que esta' confusa, que nao sabe pra que lado ir. talvez ela responda que esta' estudando as possibilidades. ainda assim ela argumenta que ainda havera' o tempo de colheitas. e no fundo de tudo que escreve, ela aceita que so' quer escrever.
distantes na linha
Um dia eles se falaram por telefone e suas vozes estavam distantes na linha. Cada uma vinha de um lado da estrada que percorriam, cada uma tinha um timbre tao delineado que criava certa melodia. Nao tiveram muito tempo para prosear, trocaram algumas palavras e seguiram seus rumos.
-Fico contente e um pouco triste talvez...
-Por que triste?
-Ah difícil dizer meu caro, a tristeza é senhora...
-Eu estou um pouco triste também
-Acho que eu sinto a sutil brisa desse entristecer,de algo tão bonito. Certa vez eu te disse: "Eu não o toco, para mim ele é sublime, quase um anjo", lembra-se? Vejo que palavras soltas são asas voando em muitas direções [pausa - suspiro]
A paixão revira, por mais que inspire.
- Eu sabia que isso aconteceria. Pude prever nos meus sonhos. Mas sabes tambem que sou um ser quase desprovido da razão, por isso danço.
-Dançaríamos assim
-Já dancei na noite do sim
- E eu na noite sem fim
-Na tarde do talvez [pausa]
Na manhã nasceu enfim,o sol do querubim
cujas asas caíram-se ao voar antes mesmo que pudesse sentir o peso da gravidade e a dor de uma saudade.
-Pois bem, nao temos outra saida, o tempo é o mágico da vez e ha muita agua no mar que existe entre no's.
-Adeus
-Ate' breve.
Despediram-se em silencio.
Lanca-se a brisa de quem ama e dança.
-Fico contente e um pouco triste talvez...
-Por que triste?
-Ah difícil dizer meu caro, a tristeza é senhora...
-Eu estou um pouco triste também
-Acho que eu sinto a sutil brisa desse entristecer,de algo tão bonito. Certa vez eu te disse: "Eu não o toco, para mim ele é sublime, quase um anjo", lembra-se? Vejo que palavras soltas são asas voando em muitas direções [pausa - suspiro]
A paixão revira, por mais que inspire.
- Eu sabia que isso aconteceria. Pude prever nos meus sonhos. Mas sabes tambem que sou um ser quase desprovido da razão, por isso danço.
-Dançaríamos assim
-Já dancei na noite do sim
- E eu na noite sem fim
-Na tarde do talvez [pausa]
Na manhã nasceu enfim,o sol do querubim
cujas asas caíram-se ao voar antes mesmo que pudesse sentir o peso da gravidade e a dor de uma saudade.
-Pois bem, nao temos outra saida, o tempo é o mágico da vez e ha muita agua no mar que existe entre no's.
-Adeus
-Ate' breve.
Despediram-se em silencio.
Lanca-se a brisa de quem ama e dança.
16.8.08
Flor em caule
Ter-te por perto 'e como acordar no meio da noite depois de um sonho bonito, um sonho de encontro de almas e sorrisos, apenas gestos e olhares, sem palavras. Ter-te por perto 'e abrir os olhos no silencio desta noite e sentir-te proximo, acariciando meus cabelos depois do sonho.
Levanto-me pois despertei-me com tua presenca. Intuo onde ela possa estar nesse momento. Abro a cortina e vejo que esta' amanhecendo. O ceu a leste tem um tom de azul que vai clareando pelos telhados das casas de ruas vazias, umidas e silenciosas. Te sinto ao amanhecer como quando da tua presenca ha poucos dias atras. Olho para baixo, desta mesma janela e avisto a unica flor cujo caule comprido sustentam petalas roseadas bem no canteiro ao lado de casa. A unica flor da rua, bem ao lado da minha janela, da minha nova janela, da minha mais nova casa.
Logo que cheguei, enquanto ainda caminhava pela rua, pensava qual seria a nova casa, ja que todas desta rua sao iguais ou muito parecisas, com algum ornamento na porta que as distinguem de outras portas de outras casas. Avistei a flor e a voz dele que me trazia: "Estamos chegando". -"E' aquela com a flor" pensei. Mas nao era, e sim a casa ao lado. Olho a flor novamente. Agora ela balanca levemente. Talvez seja um pequeno sopro de vento, talvez seja a tua presenca presenteando-me na primeira aurora desta vida deste lado de ca'. Lembro-me dos ceus que percorremos intensamente, dos dias amarelos em que tua musica soava suavemente pelos labirintos meus.
Ter-te por perto e' sentir a respiracao macia, o ar que perpassa por cada orgao, que entra e que sai, preenche e logo esvazia, na sutilidade da expansao, como se expande a luz do amanhecer, calmamente com a plenitude e a beleza de cada instante, de cada parte pequena do corpo, de cada nota na sua infinidade de som.
a flor parece erguer-se em direcao 'a luz que renasce nesta hora de comeco de dia, cuja vastidao vai cedendo lugar ao ceu escuro e misterioso da noite anterior. Os segredos que a noite guarda desmancham-se na sua luz, a luz da aurora.
Miro o fim da rua, l'a de onde o clarao comeca a amarelar-se. Hoje sera' dia de sol. Ter-te por perto e' como sentir a luz; vibrante, necessaria e verdadeira.
Levanto-me pois despertei-me com tua presenca. Intuo onde ela possa estar nesse momento. Abro a cortina e vejo que esta' amanhecendo. O ceu a leste tem um tom de azul que vai clareando pelos telhados das casas de ruas vazias, umidas e silenciosas. Te sinto ao amanhecer como quando da tua presenca ha poucos dias atras. Olho para baixo, desta mesma janela e avisto a unica flor cujo caule comprido sustentam petalas roseadas bem no canteiro ao lado de casa. A unica flor da rua, bem ao lado da minha janela, da minha nova janela, da minha mais nova casa.
Logo que cheguei, enquanto ainda caminhava pela rua, pensava qual seria a nova casa, ja que todas desta rua sao iguais ou muito parecisas, com algum ornamento na porta que as distinguem de outras portas de outras casas. Avistei a flor e a voz dele que me trazia: "Estamos chegando". -"E' aquela com a flor" pensei. Mas nao era, e sim a casa ao lado. Olho a flor novamente. Agora ela balanca levemente. Talvez seja um pequeno sopro de vento, talvez seja a tua presenca presenteando-me na primeira aurora desta vida deste lado de ca'. Lembro-me dos ceus que percorremos intensamente, dos dias amarelos em que tua musica soava suavemente pelos labirintos meus.
Ter-te por perto e' sentir a respiracao macia, o ar que perpassa por cada orgao, que entra e que sai, preenche e logo esvazia, na sutilidade da expansao, como se expande a luz do amanhecer, calmamente com a plenitude e a beleza de cada instante, de cada parte pequena do corpo, de cada nota na sua infinidade de som.
a flor parece erguer-se em direcao 'a luz que renasce nesta hora de comeco de dia, cuja vastidao vai cedendo lugar ao ceu escuro e misterioso da noite anterior. Os segredos que a noite guarda desmancham-se na sua luz, a luz da aurora.
Miro o fim da rua, l'a de onde o clarao comeca a amarelar-se. Hoje sera' dia de sol. Ter-te por perto e' como sentir a luz; vibrante, necessaria e verdadeira.
1.8.08
fios
deita na beleza
que sabe apreciar o coracao.
desliza na cama de sementes;
nela a alma encontra descanso
os dias sao ensolarados
passam com sopro de vento.
revelam os passos em silencio;
calam alguma dor
rastejam lembrancas,
serpentinam memorias lentas.
o amor renasce;
tem gosto de uva
saboreia a saudade,
experimenta a liberdade.
ralenta os anseios;
serena a conquista
beleza
raridade
que sabe apreciar o coracao.
desliza na cama de sementes;
nela a alma encontra descanso
os dias sao ensolarados
passam com sopro de vento.
revelam os passos em silencio;
calam alguma dor
rastejam lembrancas,
serpentinam memorias lentas.
o amor renasce;
tem gosto de uva
saboreia a saudade,
experimenta a liberdade.
ralenta os anseios;
serena a conquista
beleza
raridade
10.7.08
espaco tao maior que o imaginado
todas as noites segue aquele choro contido de quem quer amar demais e nao consegue deixar o peito livre da dor. escorre uma lagrima, escorre a saudade de uma beleza que ficou longe, sentindo-se pequena, embora nao saiba o espaco que ocupa nessas noites de meia lua. deixar pra tras o que esta' no coracao nao simplifica a intensidade da ausencia. um vacuo. uma vastidao. um deserto. um clarao que cega os olhos. o branco que nao deixa cor transparecer. um fica. outro parte. quem leva a escolha assume a tristeza lentamente, raramente sabe se a carrega nas maos ou se nela deita e espera o dia amanhecer. com os punhos cerrados nao quer aceitar a mudanca que caminha embaixo dos pe's. quem assiste a escolha permanece calado. observa com alguma dor, eleva as maos ao alto e talvez ore, talvez chore.
ambos esperam a saudade ir-se com o vazio do tempo que ocupa no peito um espaco tao maior que o imaginado.
ambos esperam a saudade ir-se com o vazio do tempo que ocupa no peito um espaco tao maior que o imaginado.
9.7.08
2.7.08
o que é querer o quê da vida
não quero que muito menos o papa venha me fazer essa pergunta tentando insinuar algum moralismo. a preocupação dos homens deveria girar em torno do bem estar coletivo, da preservação à natureza, da sanação da miséria, do fim à crueldade carnal e logo espiritual. O que querer mais além de aprender para poder ensinar? ensinar é disseminar. disseminar é espalhar sementes, que por sua vez é plantar. se planta se colhe. há beleza maior que essa?
mas hoje não há beleza neste pensamento. não cabe a poesia de viver porque também é preciso questionar umas coisas mesquinhas que saem das bocas de alguns seres. nem todas as pessoas tem o mesmo olhar sobre vida. não mesmo. algumas querem o quê quando outras sabe-se lá o que querem..e mesmo não sabendo o quê exatamente poderiam ao menos respeitar as escolhas.
não quero que muito menos o papa venha me fazer essa pergunta tentando insinuar algum moralismo. a preocupação dos homens deveria girar em torno do bem estar coletivo, da preservação à natureza, da sanação da miséria, do fim à crueldade carnal e logo espiritual. O que querer mais além de aprender para poder ensinar? ensinar é disseminar. disseminar é espalhar sementes, que por sua vez é plantar. se planta se colhe. há beleza maior que essa?
mas hoje não há beleza neste pensamento. não cabe a poesia de viver porque também é preciso questionar umas coisas mesquinhas que saem das bocas de alguns seres. nem todas as pessoas tem o mesmo olhar sobre vida. não mesmo. algumas querem o quê quando outras sabe-se lá o que querem..e mesmo não sabendo o quê exatamente poderiam ao menos respeitar as escolhas.
28.6.08
O amor ensina
Outro dia um cara que só me conhece dos anos em que nos encontrávamos no caminho para a faculdade, me perguntou, segurando minha cabeça: "O que você quer da sua vida garota?" Aquela pergunta vinha para me assustar, mas pelo contrário, a resposta foi imediata: "Eu quero viver apenas". Deposi seguiram-se horas de discussões intermináveis sobre o futuro das velhas e novas gerações, sobre a tecnologia nos países desenvolvidos, sobre a modernidade na China, sobre a inconsciência política dos problemas no Brasil. Ele passou anos da vida acreditando na ambição, ensinando os outros a terem ambição, porque afinal, conseguir as coisas é o objetivo do desenvolver da humanidade. Mas dentre todos os questionamentos que fizemos, o que mais me deixou abismada foi a pergunta que ele me havia feito. Como assim? O que ele quer insinuar? Eu estou partindo para mais uma viagem no exterior, a segunda em menos 10 meses após eu ter regressado de uma vivência que fiz durante um ano, num país da Europa. Não que eu ache que a Europa seja a solução dos milagres, o paraíso dos deuses, a perfeição dos homens. Nada disso. Muito pelo contrário, a perfeição é tão superficial que às vezes dá nojo. Mas existe um elo entre uma vida intelectual estagnada e a procura sendenta por vida mais pulsante que me deixou intrigada e talvez esteja me fazendo voltar pra lá. Porque as pessoas de lá não sabem o que é miséria social e pureza de espírito. Nem o que é lavrar a terra com os próprios pés. Assim como os brasileiros não sabem o que é tranquilidade social e respeito mútuo. Ainda preciso trocar muito com eles para sentir que ambos os lados estejam aprendendo e melhorando com essa troca. Ninguém pode ser tão bitolado a ponto de pensar que abrir os olhos pra cultura do outro é insignificante. Quase respondi a ele com uma outra pergunta, "e quem faz todo dia a mesma coisa, pega o mesmo ônibus, senta na frente do mesmo computador, exerce os mesmos programas, volta pra casa no mesmo horário de trânsito e assiste as mesmas novelas, quer o quê da vida?" Oras, aquilo me intrigou. Mas o que sucedeu-se não foi a pergunta, foi aquela resposta simples e imediata, que veio precedida da voz dele: "Você precisa ter ambição. Você precisa ter sonhos." Eu já sabia que ele era meio equivocado quanto à sua forma de julgar a minha vida, mas a partir dessas palavras eu percebi que ele não alimentava algo fundamental: seu próprio espírito. E quando eu falei pra ele cuidar do espírito ele disse: "Eu não ligo pra isso, ando meio sem tempo". Então eu não quis insistir e deixei de pensar que talvez eu estivesse errada mesmo, sem sequer zelar por algum tipo de ambição de "coisas". Dessa vida, nada se leva. O amor fica. O amor ensina.
1.6.08
Tecido
são verdades escondidas no tecido colorido
tudo o que o olhar compreende
tudo que aos olhos encanta
são dons que os ouvidos orientam
por entre o silêncio do anoitecer
na claridade da lua que se põe
quando a solaridade do pensar
esvai-se na beleza das lembranças
são como anjos que sobrevoam
o quarto aquecido
por aquele que nele respira
preenchendo o próprio espaço
com a alma que lhe abita
são como divindades espelhadas
na luminosidade do luar
são estrelas unidas
arco-íris brilhando
arqueado em recordar-se
são riquezas como pérolas
acordar em companhia
aspirar a solenidade de mais um dia
agradecer à proteção evocada de cima
para a benção receber
quando o ar se inspira.
tudo o que o olhar compreende
tudo que aos olhos encanta
são dons que os ouvidos orientam
por entre o silêncio do anoitecer
na claridade da lua que se põe
quando a solaridade do pensar
esvai-se na beleza das lembranças
são como anjos que sobrevoam
o quarto aquecido
por aquele que nele respira
preenchendo o próprio espaço
com a alma que lhe abita
são como divindades espelhadas
na luminosidade do luar
são estrelas unidas
arco-íris brilhando
arqueado em recordar-se
são riquezas como pérolas
acordar em companhia
aspirar a solenidade de mais um dia
agradecer à proteção evocada de cima
para a benção receber
quando o ar se inspira.
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