quem sou eu

14.6.11

Carta de manhã

Numa manhá chuvosa, daquelas que a natureza diz para ficares calado e quem sabe cantar um mantra, saudar os deuses dormentes, que sentir os deuses é ter entusiasmo, ter entusiasmo é sentir que eles estão presentes no ar, na água, no céu, na beleza, na chuva, na voz, em cada movimento. Saudade de ver o mar, a beleza do movimento, das cores, da força e vivissitude.

Numa manhã de mormasso, quando a chuva foi passando, recebi uma carta. Era de um tom um pouco melancólico, contava do segredo que habita um coração que ama em silêncio, por tanto tempo que se passou, nem sabe ao certo medir. Gostaria para esse amigo dispor de muitas horas, pra conversar e dizer-lhe que o amor se transforma a todo momento, nem tampouco perdemos as pessoas quando elas morrem.   Nossa alma fica ainda mais proxima do amor pelo outro, o que em vida só parece acontecer quando os olhos veem. Eis a beleza de almas que se encontram sem palavras, nem olhares, nem gestos.

Numa manhã cujo sol despontava  tão lentamente que parecia um parto demorado, lembrei da joia do sentimento puro de estar ao lado de um amigo. Rindo, dançando uma valsa alegre e pouco triste, que todas as valsas são um tanto tristes, descobrindo segredos, despindo-se de outros afazeres, respirando o momento, escutando uma musica junto, partilhando estorias, tomando café e o que a imaginação permitir na felicidade de uma companhia verdadeira.

Numa manhã qualquer, procurando um sentido que fizesse o tempo parar, ele diz ter recebido o presente mais bonito de uma Chapada inteira: meu sorriso. Tendo lido esta parte da carta, sorri loucamente, intuindo a imensidão daquele gesto tão pequeno para mim, mas puro e sincero, esbanjado de amor e saúde.

10.6.11

versando

"queria te dizer de desejos
que nao digo a ninguem
mas como voce nao passa de mim,
fica guardado entre nos"

5.5.11

Queria com as palavras mais bonitas e sinceras, com a ajuda da alma,com a sutil calma que pousa num coracao feliz agradecer a vida, que tanto e de tudo nos da'. Hoje nao posso. Quando olho pela janela do trem passante, as ruas desertas, as casas sempre com as cortinas fechadas, os quintais vazios, os portas fechadas; as poucas criancas que caminham nas calcadas, raras senhoras a comprar o pao, nenhum velhote no bar, existira' alguem com uma rotina normal andando em direcao 'a lanchonete ou a banca de jornal...hoje nao consigo agradecer porque a dor no coracao e' tao grande que ofusca o brilho de qualquer luz. Tudo pode sempre ser mais simples, os mesmos lugares, os mesmos amigos, mas como estao ausentes as coisas queridas? Moro aqui, dentro de mim mesma, onde encontrarei os sonhos da verdade nos meus olhos caidos?
Com as maos e um punhal, ferida. Nao ha sangue, beleza rubra esta' escondida. Cantando so', como uma cigarra, sobrevivente de uma noite sem lua, para renascer queira entoar uma serenata? Nao sei ao certo que dor e' essa, que vontade de viver em cada flor e no entanto parece chuva que castiga. Nao quero ressentir sem agradecer, por tudo, por tanto amor, por cada petala, mas hoje perdi o encanto.

4.5.11

"Para todas as coisas dicionario,
para que fiquem prontas, paciencia"
Diariamente. Acordar, agradecer, contemplar, relembrar da vida que todo dia recomeca ou continua, a mesma ou um pouco diferente, depende de quantas coisas simples, boas, importantes ou naturais aconteceram no seu dia.
Ontem falamos sobre a memoria, e o quanto o prosseguir da vida e' feito dela ou atraves do que ela processa a cada segundo e armazena. Imagine se ao acordar nao se lembrasse de nada; exclusivamente um branco ocupasse tudo o que se sente e pensa numa manha silenciosa e ensolarada enquanto a casa ainda dorme e quem acorda primeiro fica lentamente percebendo se ha alguem acordado.Entre o levantar-se e o girar-se de um lado a outro na cama, acontece o resgate das coisas almejadas naquele dia, das que ficaram por fazer, das que foram cumpridas, das que ainda merecem a devida atencao e dedicacao; a consciencia vai guanhando forma de quem esta' ao lado, quem esta' longe, quem ainda vive, alguem especial que ja se foi, de alguma musica ou uma oracao. Quando se acorda e a memoria que pouco dormiu - caso estivesse sonhando profundamente -, faz-se presente de uma maneira muito sutil mas muito marcante, imaginar a falta de memoria num momento de despertar dos olhos num dia e' ver o cenario desmontar-se num piscar. Nao ha o que continuar, nem melhorar, nem o passado, nem bem o presente, que e' a soma de tudo que vem sendo feito. Nao ter memoria e' estar vazio, por completo.

28.4.11

O parto

Chegara a hora do parto. A futura mae nao sabia muito bem o que estava por vir. Havia lido sobre respiracao, contracoes, forca do ventre, escuta do coracao, concentracao, agachamento, posicao de cocoras, e mais uma porcao de informacoes para a preparacao na hora da vinda. A tao esperada hora. Quem disse que ouvir historias atenua o sofrimento do outro?

Cada ser com a sua experiencia. A mae da maebarriguda, havia dito que parto natural em casa era o melhor a se fazer e que ali, naquela mesma casa dera 'a luz a tres lindas criaturas saudaveis, inclusive a sua filha que horas depois 'aquelas tao sofridas, tornaria-se mae pela primeira vez. Conversa de mae, entretanto, vale a pena ouvir e concordar. Fez-se entao o contato com a primeira parteira, cujo pre-natal teria sido bem tranquilizante, nao fosse a sua partida 5 dias antes do bebe dar sinal de querer sair de dentro.

Fez-se entao o contato com a segunda parteira. Muito doce, muito traquila. Chegara na casa, no dia da luz, as dez da manha, de mala e cuia, tudo preparado, soro de emergencia, vidrinhos, seringas, luvas, gel, escutador de coracao de bebe. Esse era seu aparato mais importante, o colocava na barriga da mae e sabia o quanto ainda poderia esperar, o quanto o bebe resistia e vibrava naquele ciclo de contracoes doidas.

A dor foi aumentando. A dor tornou-se o centro das atencoes, quando a saida do bebe deveria ser o foco. Mas o foco nao depende somente do olhar. A dor fe-la enlouquecer. Berros, sussuros e berros. Havia panico nos gritos, havia medo, havia tristeza e muita dor, tudo misturado com o fato da propria inaptidao de nunca ter feito aquilo antes, da relutancia ao repetir a si mesma "Nao vou conseguir". Do meio-dia 'as cinco da tarde tudo parecia desespero. A parteira, sempre um doce. A Flor, amiga da garota barriguda ainda que em prantos silenciosos, fazia de tudo para encoraja-la. O futuro pai a amparava com seus ombros, seu colo, seu olhar tenro, sua voz mansa e carinhosa. A mae queria protejer a propria filha, mas comecou a ficar tensa, assim como a sogra que orava, de um lado para o outro, a todos os santos e astros para as bencaos dos ceus.

Tanta dor, meu pai do ceu.  A familia prometendo e cumprindo a ajuda envolta dela. Todos assistindo tudo sem entender ao certo, queriam ver o bebe vivo e o trabalho terminado. Seria melhor a todos. A gestante, no entanto, entrou no seu redemoinho doloroso, e la ficou aninhada por todas aquelas horas, um processo todo seu de sofrer, de deixar-se doer, de externalizar os gritos, de segurar e soltar suas tensoes, um revival de tudo que havia sido sua gravidez, um drama com final feliz, uma tragedia comica, uma possivel beleza na sua vida acrescida de incertezas.

O tempo chega pra cada qual. Nao foi diferente com ela. A parteira decidiu agir em prol de todos e sussurrando quando a mae da gestante saiu do quarto, encarou o desafio: "Voce segura aperna dela de ca, a Flor de la', o pai, empurra a barriga assim e, vo', segura as maos dela envolta dos pescoco do pai" e quando veio a contracao, ouviu-se alto e forte "Segura o grito menina, faz essa forca pra baixo, empurra" entao o bebe veio, de uma vez. Havia duas horas que se via o cabelo na porta da saida, mas, como o nome diz, um parto e' um parto!

Aprendiz de parteira e da vida: nao se pode adiar os fatos. Quanto mais demorado, mais dolorido fica. Deixa tudo ir, com a forca que e' preciso ter.

27.4.11

Riso da liberdade

Jogou fora muitas cartas de amor. N]ao soube ao certo que sentimento lhe veio à tona para tal ato, tão decidido, pouco pensado e, de instantaneo, resolvido. Enquanto as relia rapidamente, ria de alguma coisa que não era mais verdade. Tudo havia passado. Os medos, as vontades proibidas, a dor, a paixão vermelha, o tesão guardado - ou consumado. Ria da  liberdade de não mais sofrer. Ria das palavras que escolhera escrever em suas cartas, fina ironia feminina, aos poucos insinuava sutilmente, que tudo estaria bem naquele momento, quando na verdade sentira vontade morrer.

Sim, ela lembrou-se, sem culpa, dos foguetes que já se foram. E apagou muitas cartas, sem dó, nem remorso. Os segredos deixaram de ser segredos. E se fossem revelados um dia? Sentiria-se penalizada pelo tempo. Mas agora passou.

21.4.11

A sombra e suas vizinhas

Acordou e nao quis se levantar. Tentou rezar, dormir novemente, ignorar a luz do dia, sonhar outra vez, beijar o namorado dormindo ao lado. Nada. Os pensamentos vinham, sombra de si mesma, vinham numa avalanche, passavam, uns voltavam, outros seguiam flutuando, e no meio de tanta confusao resolveu levantar-se, tomar agua e sentar-se ao sol.

Era uma manha ensolarada, deveria estar feliz por isso, sempre em busca pela felicidade simples, mas nao conseguia. O que era felicidade simples naquele momento de sua vida? Nao sabia responder; outrora havia sido voltar a ver sua mae; depois ter um trabalho com criancas; depois dormir na areia e caminhar nela durante o dia, e assim foi, felicidade simples. E de um dia pro outro, num retorno aquela casa tao pouco sua, ELA se perguntava por onde escapara a felicidade simples.

Logo depois aproximou-se da casa da culpa. Ah! antiga certeira, sempre ali, mesmo escondida, vez ou outra aparecendo, bem naquela manha que poderia ser a mais bonita ou a mais normal como outras haviam sido. A culpa por algum caminho que com o tempo se tornou secreto, quase ninguem a ve caminhar por ali, parece que vai so', fala pouco do que ve, demora pra voltar e ainda tem certas duvidas se o caminho e' bom mesmo, por mais que pareca.

Entao, vizinha da culpa mora a duvida. Gostam de estarem ali, para o que der e vier. Infernizam um bocado em manha como estas, vazias de espirito e repleta de sombras contidas. As sombras contidas sao aquelas que de tanto espremidas, ficam inchadas e gordas, escapando do seu espaco e invadindo outros.

Mesmo com todos esses moradores, o sol venceu e ELA foi de bicicleta ate' a biblioteca. La, por acaso encontrou uma amiga que esperava por outra amiga e foram tomar um cafe. No cafe, a amiga contou que havia feito uma danca muito particular, xamanica e que tinha durado muitas horas. No dia seguinte, havia reparado que existira uma sombra muito extensa dentro da sala de danca e ao comentar com o instrutor, descobriu que ele tambem havia percebido.

"A sombra e' tudo que voce enxerga dentro de voce - e nao gosta-  mas esconde aos olhos dos outros. Pode ser que voce tente esconde-la de si mesma, mas normalmente, voce a enxerga, a rejeita por ignorancia, acredita que va desaparecer pois e' um sentimento que nao gosta de mostrar, nem de ver, nem de deixar os outros virem. Mas, sem recursos, ela nao some. "

O recurso no caso da amiga tinha sido o curso de danca. Tinha um olhar ainda meio aturdido, mas parecia ter se livrado de uma daquelas. ELA entao, pensou na preguica que sentia aquela manha, na culpa por nao ter a felicidade simples, na sombra que se tornara imensa por tanta ignorancia, suspeita de si propria, falta de estima. Nem sabe ao certo quem nao a estima, mas todo mundo tem questoes consigo proprio.Para reslve-las talvez precise de um terapeuta que lhe diga:" Isso,apesar de parecer louco, voce esta' no caminho certo!"

19.4.11

Regresso II

Entretanto chegou chorando.
Conhecia aquela dor,
uma dor que não é pequena
nem grande
parecendo não haver tamanho
algo como um espaço que ocupa
neutralizando as sensações
desprovocando a curiosidade
extasiando a vontade
esmorrecendo o ímpeto
e finalmente
acalentando o sono.

Aquela dor já conhecida
lhe provocava sono,
fino prazer dos olhos molhados
e levemente inchados;
o nariz a escorrer,
a cabeça enfadada ao travesseiro
as pernas e o tronco
encolhidos como caramujo
para proteger-se.

A proteção é fictícia.
A dor talvez não.
Quando a sente,
não sabe bem raciocinar,
nem dizer, nem buscar palavras.
Fica ali, se banhando,
achando que não vai passar,
que tudo está errado,
que os sonhos nunca mais voltarão,
e que a saudade se amontoa em cima de gente que acorda distante.

Portanto, deixou-se levar.

Até que o sono veio e apagou tudo.

6.4.11

voltar a pisar no terreno do desconhecido

-tem alguém aí?

não se sabe ao certo quem abrirá a porta
ou se virá recebê-lo no quintal.

o chamado dá o tom;
vai bater palma, assobiar ou gritar?
existe um código de som ou se chega em silêncio?

não importa o terreno,
se chega sorrindo.

28.1.11

"aquilo que você procurava e não podia encontrar, era simplesmente luz"

novamente as palavras doces que acariaciam chegaram pela carta por ele escrita. a luz de que são feitos os longos dias, aquela que entra logo cedo pela janela, que permanece, depois clareia a casa, os olhos quase se ofuscam, preenche tudo como se fosse uma alegria natural, não vai-se embora, nem quando a noite se aproxima, aquece, deixa tudo mais leve, mais vivo, mais brilhante.

depois ele falou da música.

"vi dentro dos seus olhos o amor e respeito que nutre por ela, coisa que não tinha percebido há uns 4 anos atrás, quando te conheci"

naquela época o amor à música era algo mais puro, menos latente, como se adorasse um santo distante, não conseguia tanto tocá-lo, embora o fizesse vez e outra. com o passar dos anos o amor ficou incondicional e de dentro veio brotando, e a curiosidade de experimentar os sons já não mais podia ser guardada dentro.

"faço preces pra ti, nem sei bem rezar, mas tudo que penso com admiração, com tão grande afeto não encontro outro nome senão oração para desejar-te o bem"

quanto uma pessoa pode oferecer-te com o coração, é um bem tão precioso que dá pra sentir a brisa tênue soprando no ouvido, a abundância de luz que faz a vida ser plena a cada novo amanhecer.

obrigada amigo zingaro.

11.12.10

Filha

O espaco vazio na alma das mulheres. O que elas teimam em sentir quando estao longe de suas maes, de suas avos. Mulher e' tao maternal, quer logo se aconchegar no peito, quer sentir o afago dos bracos, o calor do ventre, o som da voz da mae, as conversas 'a toa que elas tem na cozinha na hora dos cafes.
A vida pode seguir com um bocado de sofrimento se uma filha sentir-se longe demais de sua mae. Mas a distancia e' so' espacial. Mesmo assim, o coracao muitas vezes chora em homenagem, sente que a mae acorda e pensa quao infinita e' a saudades que pode provar e nao sabe muito bem se e' um sentimento reciproco. E fica ali, por instantes na cama, percebendo se o que sente vai passar, se a vida vai mudar, se vai voltar a sentir uma alegria sem peso, como se a vida fosse normal e todos pudessem estar por perto.
O que as maes sonham, a maior parte delas, e' justamente o que mais parece impossivel. Que a vida seja "normal", como as criancas que quando pequenas correm no jardim, depois entram pra tomar banho e jantar, dormem pelo sofa, fazendo perguntas caraminholante aos pais. Quao boa parece esta etapa da vida, de zelar pelos filhos sem muito mais pra se preocupar, curtindo as surpresas, ate quando lavando a roupa suja descobre uma mancha que deu indicio de que o filho esteve por algum lugar que a mae jamais imaginaria, mas acabou por saber. Uma forte e tao perto intimidade que a mae tem com os filhos e que so' elas podem ter.

2.12.10

Almirante

Lendo "O Poeta  é um fingidor", não esse livro exatamente, mas uma coletânea de poemas com comentários de uma pessoa que passou boa parte da vida lendo o Pessoa, reconhecendo seus museus, sabendo cada pedaço de vida do poeta amargurado, veio a pausa para observar; uma aparente infelicidade do Poeta fingidor se apoderava. Quem o sabe exatamente? Conviver com as palavras podia ser um caminho dos bem-acompanhados. O mundo lá fora pareceria pouco poético quando as palavras que um ser podia juntar eram todos os outros sonhos que se realizavam, outras imagens que se apresentavam, uma realidade que podia trazer algum sentimento novo, fora aquele que já se reconhecia no mundinho em que o poeta vivia. Ele vivia circundado de poucas pessoas, poucos poetas amantes de verdade.

Ao ler o poeta navegador, ele dizia - ou o personagem que nele existia, dizia: "Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida./ Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei/ A caligrafia rápida desses versos/ Pórtico partido para o Impossivel (...)". Em poucas novas linhas, quem tem a cabeça incendiada de versos, logo faz a ponte do que está fora e o que ele, seu próprio ser enfrenta dentro. São momentos distintos entre bater de frente, face a face contra sua outra mesma face, de se xingar, de enrugar a testa, dá quase pra ouvir o tom de voz engrossando com desgosto de encher a boca com aquelas palavras proferidas pelo seu Eu, vindas do seu próprio espelho em fúria. São, enfim, momentos de ver o barco navegar e passar lentamente, com todas as estações que nele se carrega.

O Poeta acreditava ser sempre "o da mansarda" e talvez o fosse, não sei, hoje são muitos outros que traduzem suas palavras, são ensadecidos por elas, pelo que elas provocam, pela maneira como se configuram e mostram um pensamento, o Pessoa tinha um gênio que em si vivia e não se concebia, como tantos outros homens e por não crer em nada e  não ter certeza de nada, também se perguntava, "sou mais certo ou menos certo"? Hoje em dia e também antigamente, quem respondia à questão eram os pais das crianças, regrando tudo, colocando horários, notas, impostando sonhos. Ainda tem gente pagando imposto pra sonhar..."Mas-esta é  boa!- era de coração que eu falava...e onde diabo estou eu agora com almirante em vez de sensação?..."

véu de neve

vai caindo assim, de pouquin em punhadin
leve como pluma, branca como nuvem
devararin vira um montão
cara de algodão
traz branda sensação
de estar no deserto
e sozinho no mundo
frágil diante de tanto gelo,
completamente suscetível
ao que o céu imenso
tem pra oferecer;
o vazio de cor
o silencio dos pontinhos
brancos em movimento
a temperatura tão baixa
que o corpo luta
dentro
para aquecer
resplandecer
não adormecer
e nesse incessar do corpo
não querer se calar frágil
não podendo vencer o tempo
nem se render à poesia
da ausencia de luz no fim do dia,
todo um coração se enternece,
vai balançando como os flocos de neve
de um lado para o outro,
numa lenta dança que sempre acontece
e vai deitar-se nos outros pontinhos brancos
que já se achegaram de outro ceu,
deita macia no todo
em cima de outros todos
dentro porém o edredon branco como a neve
chama por aquele mesmo corpo
pequeno diante da imansidão,
clama no pé do ouvido baixinho
acariciando os sonhos
a levidade do sono
que invade os olhos
quando a paisagem branca olha.

deita um corpo. sonha no sonho.
ao acordar, vê o branco no escurecer.

16.10.10

Paradeiro

Rumam todos
ao ponto mais alto
do centro da terra,
cesto de mantimentos
equilibrando-se na cabeça,
filhos acomodados nos panos
amarrados pelo corpo
na curva do cocix,
no calor do ventre,
no macio do seio materno
na cela do pescoço alongado do pai
outros filhos maiores vão caminhando
também carregando suas ninharias,
poucas roupas e algumas palhas
nas quais dormem.
não carregam espelho nem brinquedo,
sapatos nem bolsas
vão soltos, mudam de paradeiro
quando a seca chega e a chuva desaparece.
O céu, mesmo ausente de gotas,
 permanece esperança;
talvez pelo azul, talvez pela infinitude.
O trajeto é longo. Vão-se dias.
a paisagem muda de cor
e quanto mais o verde se aproxima,
mais cresce a alegria de saber
a saga chegando ao fim.
Na beira de uma lagoa feita de chuvas passadas,
acomodam suas tendas, seus barros, suas pedras.
Estão a salvo até a seguinte estação
que antecede a seca.
Depois seguem, na vida não se pode parar.

12.10.10

Fly, fly high butterfly

Um batalhao inteiro de homens diz estar sofrendo.
Será que os homens estão mais sensiveis? Ou sofrem com a constante opressão feminina?
Gente! As mulheres oprimem seus homens. Eu já vi. Elas saem de dentro de casa, com passos apressados ao encontro deles, e quando os veem numa mesa, conversando com outras mulheres, ficam furiosas e chegam bufando, apesar do sorriso sinico, dizendo qualquer coisa do tipo: "nossa, mas eu queria ter só um pouquinho do meu homem pra mim, há horas que o estou procurando" - e virando-se para o tal, logo acrescentam: "Você pode me dar atenção ja que eu vim até aqui te ver, meu amor?".

Que cena. Se eu tivesse nascido homem, ia chutar o pau da barraca. Se elas ficassem furiosas por uma besteira qualquer, eu faria questão de deixa-las ainda mais furiosas, ignorando completamente qualquer manifestação de egoismo e ainda por cima disfarçado querendo parecer doçura feminina. Encontrar uma mulher equilibrada, normal, que não precisasse se agarrar aos seus medos para proteger a sua presa seria uma saga muito interessante. Saberia reconhecer desde os primeiros movimentos a loucura quase esquizofrênica de um olhar em busca de pra-onde-esta-olhando-meu-namorado.

Outro dia eu fui sugada com um esses olhares. Que unpleasant, deselegante, desconfortável, insuportável. Fui embora da balada porque aquela mulher tava me tirando do sério. Vai ver que ela desconfia que o homem dela me olha com o olhar de quem gosta de olhar profundamente, mas que culpa tenho eu se ela é assim pra sempre louca, como muitas outras? O que quase me trucida é o sorriso mediocre, a vontade de demonstrar simpatia enquanto vemos sua face corar de ódio.

Pode ser que algum dia eu descubra a pilula do não-refletir no espelho. Acho que sou um espelho. Vejo exatamente as pessoas como são quando me olham. Vejo tudo, meu espelho as reflete e no silêncio absorve tudo que elas exibem quando à minha frente. Já viram, por acaso, tantas mulheres fazendo pose de esnobe, sensual, aborrecida, choramingosa, doce, alegre, todas essas e outras expressões na frente do espelho? Normamente elas fazem isso quando não há ninguém por perto, assim podem descontar - no espelho - o que lhes está dentro. E aquela moldura que está sempre ali, vê a tudo e todos caladamente....

Minha moldura quer desprender-se lentamente do espelho que nela habita. Preferia ser uma borboleta, que sai voando, nota poucas coisas ao redor, percebe flores, escapa dos sapos. Hoje na escola fizemos borboletas de origami com as crianças. As mães estavam ajudando. Quando terminadas, perguntei se sabiam cantar uma musica sobre borboleta na lingua delas. Ninguém sabia nenhuma cantiga.O que é isso minha gente? Não houve por acaso uma alma pueril a cantar pelas borboletas nessa lingua? O que as mulheres ficaram fazendo na vida que não criaram canções sobre as borboletas para suas crianças?! Me restou ficar repertindo assim de improviso: Fly, fly high butterfly....

11.10.10

Cenas ao redor do fogo num país da Europa

Ontem à noite, ao redor da fogueira, entre baixas melodias que as pessoas cantavam, uma breve pausa entre um comentário e outro, alguns diziam-se hipnotizados, outros riam baixo e permaneciam calados; entre o prazer de ver os olhares brilharem com o calor do fogo, apareceu um cara alto de ombros largos e barriga saliente, com uma camisa xadrez vermelho e preta, com um copo de cerveja heinekeen na mão, dizendo:
"A fogueira é que nem televisao. Fica todo mundo horas sentado olhando pra ele e até esquecem da vida. Pra mim, o fogo é uma televisao, infact". Nisso, eu que já cutucava a lenha, posicionando melhor os galhos pra que o fogo nao cessasse, disse:
"Discordo. Aproxime sua mao do fogo e da TV e veja o que você sente. É bem diferente!"
Ele disse que sim, claro, aquilo era evidente. Mas o que ele queria dizer e que não foi muito bem expressado, era que antigamente as pessoas contavam histórias em volta do fogo, quando ainda não havia luz elétrica e as pessoas ficavam ali paradas, olhando e ouvindo. E hoje em dia, as pessoas continuam paradas olhando e ouvindo histórias que vem da televisão. Então ele complementou: "Eu mesmo ficaria horas aqui, que nem quando assisto TV" e eu que ja tinha ido buscar outra lenha mais ao fundo do quintal arrematei: "Eu fico horas aqui e nem um minuto assistindo TV, por isso nao concordo com voce".

Ninguém na roda quis efetivamente que aquilo virasse uma discussão. Ninguem quis se aventurar a dizer o que era melhor, que tv era uma merda, que no passado as pessoas eram mais livres para se expressarem na frente do fogo, as histórias aconteciam porque as pessoas se manifestavam, não porque o fogo lhes contava historia. Ninguém rebateu aquele comentário inútil, que aliás nao passou de um comentário, como deveria ser e eu que queria suscitar uma contrariedade a um pensamento estreito, logo acabei na risada irônica silenciosa que me restou rir.

Nessa mesma roda ao redor do fogo, haviam pessoas de outros paises. Ali´ss, esse cara de camisa xadrez não era da minha nacionalidade. Certo tempo depois de mais cantorias, risadas, vinho, amizade, eu desabafei o quanto poderia ser dificil naquele momento falar uma outra lingua, já que me sentia tão conectada com o fogo da terra, que parecia o da minha terra. Nesse momento, senti o olhar de sensura do meu companheiro. "Não diga essa blasfemia", pude ouvi-lo em silêncio. Oras, eu só queria me expressar com pessoas que tambem falavam a minha lingua e que poderiam ter sentido o mesmo. Calei-me. Ainda alguns minutos depois, a anfitrian da festa entoava versos e agradecia os aplausos, claro, numa lingua comum a todos. Após uma das inumeras cantigas que interpretou, virou-se pra mim, e disse: "Agora é a sua vez de cantar, que musica você escolhe?" Respondi: "Cantei muitas aqui enquanto você não estava, agora só canto quando todos cantam juntos". Imediatamente ela franziu a testa e reprovou-me "Why are you speaking in portuguese?!"

OH! suuuugar! Me deixem falar a minha lingua pelamordideus! - pensei mas nao falei. Talvez o fogo tivesse suscitado alguma selvageria dentro de mim, algum bicho adormecido que precisava esbaforar o calor de dentro. Ao final de tudo isso, antes que o vizinho reclamasse do barulho -quase a uma da manhâ - minha amiga, sentada ao meu lado, aproximou-se de minha orelha e me disse: "Olha só que engracado, enquanto nós que estamos sentados perto do fogo (do lado esquerdo onde a fumaça nao vem), estamos tão relaxados que parecemos estarmos nas nossas casas de praia com quintal,  o pessoal do lado de lá (lado direito, todos em pé cercados por um murinho, pra onde a fumaça ia) está todo tumultuado como se tivessem dentro do apartamento deles, achando que a vida é normal e legal assim. Que sorte termos nossas casas de praia!" e soltou uma gargalhada. Pena ela nao estivesse presente na hora do comentário infeliz do cara da cerveja heinekeen, nem no fora que tomei por falar a minha lingua. Uma gargalhada dela em qualquer um daqueles momentos teria sido incrivel...pra descontrair assim, quebrando o gelo, coisa que nem o fogo foi capaz de fazer.

12.9.10

Enlaçado


solta as correntes da vaidade
verdade estampa na pele
os laços que apertam
se desamarram

cada nó uma sentença

em cada quadro de grade
um trecho de liberdade
libertinagem é Bandeira
se carrega com braços abertos

para além da cerca,
passos descompassados

o caminho fora dos trilhos

longe dos canteiros
as rosas
o perfume
espinhos que não ferem

véu acerca dos sonhos
rendado
se tinge de pérola

farpas desprendem-se
dos fios de arame
faça-se passar
pouco ou nada arranha

tá vindo?
- tô vendo o céu.

6.9.10

Variaçao de tema

que a clareza do mar
venha trazer pedras
para no futuro lancar
brisa marinha
de espuma e sol
agua com vento
sal e sombra

quem vê o mar
sabe o gosto que tem
amar
fita o horizonte
barco a vela
vida a navegar

Pessoa dizia um dia:
"Navegar é preciso"
rimaria também com
viver é impreciso
já que viver
é sempre um risco.

No semblante da noite

- Vim só pra te ver essa noite, você sabe disso nao é?

Ele olhou pra ela com olhos profundos e castanhos, não esperava por aquele comentário, nem tampouco supunha a reaçao que nele causaria logo de imediato. E numa resposta que nem era resposta mas continuação da conversa que ela iniciou, desabafou:

-Eu penso em você às vezes viu? Aliás muitas vezes e fico lá pensando, pensando. Mas logo me vem a realidade a toda, aquelas outras vozes separando as fantasias e aí deixo tudo escapar.

-Eu tive um sonho - imendou ela. - Acordei dizendo teu nome alto e forte e de repente aquela outra voz da realidade também me disse: Ei, mais baixo aí com toda esta sonharia!

Risos. Riram a felicidade do sentimento mútuo. Ela acrescentou:

-Pelo menos não surgiu a pergunta: Mas o que você sonhou exatamente? Ufa, era melhor não contar mesmo..talvez eu nem poderia contar a ninguem.

Ele prosseguiu:

-Mas espera lá; fizeram muito bem em não perguntar nadica de nada. Deixa-se ao menos que sonhemos à vontade, que não venham perturbar essa fantasia tão boa. Aliás, vivemos todos de fantasia, você não acha?

Ela sorriu, concordou e logo passou um outro amigo interrompendo:

-Po! desculpe atrapalhar o papo sobre arte, que eu sei que vocês estão falando disso, mas precisamos brindar, pega aqui o copo....

E todos da festa se reuniram para outras conversas, outras risadas, outros brindes.
A noite passou-se com os olhares que ele lançaava sobre ela, e junto com o olhar, o sorriso.

-Você nunca deixa o cabelo solto né? Mas voce é linda de qualquer jeito.

Ambos sabiam o que estava acontecendo, um silêncio no meio de todo aquele barulho. Um raio que se propagava entre todas as distâncias que permaneciam. Ele passou as mâos nos ombros dela, na sombrancelha, em algum momento apertou a coxa dela, meio rapido, meio de supetão, depois ele brincou com os dedos da mão dela enquanto outras pessoas falavam sobre a situação do transito da cidade e tomavam cerveja. Ela quis mostrar os versos que fez pra ele numa outra vez, mas achou que tudo estava muito colorido naquela noite e preferiu guardar pra outro momento.

16.8.10

Valsa da Lua

"...vi tão sem brio
e o breu se riu
sorriu
seguiu
e a lua pérola
a se desnudar
de vulto firme
tal farol que é
luz toda luz
reluz
transluz..."



(lincoln e ney mesquita)

10.8.10

"nao é por ser flor que sempre trará o bem;
nao é por ser poesia que será um mar de alegria"

sagrado segredo

um proverbio chines diz que quem tem um segredo deve andar num bosque, escolher uma arvore, cavar um buraco nela ou perto dela e sussurrar o segredo la dentro. depois deve tapa-lo e esquecer pra sempre que um dia existiu.

aquele homem passou anos da vida repetindo este proverbio a alguns poucos amigos. os amigos entao lhe diziam: "ora, podes me contar, eu guardo o segredo" e ele respondia que nao tinha segredo algum para contar.

muitos anos depois, em sua ida as ruinas nos templos em cambodja, aproximou-se de uma das paredes feitas com centanarios tijolos pesados e um tanto gastos com aspecto de abandonados, sussurrou no buraco seu segredo. nao o tapou.

ha muito tempo que vivia da relembranca de um amor no passado, no entanto ja nao mais o enxergava nitidamente. tinha a impressao de te-lo sonhado.



a mulher continuara casada com seu marido mas agora tinha um filho.

9.8.10

des-pre-ten-der

quero  publicar um livro. nao para ter o prestigio de ver a capa na vitrine da livraria que tem o cafe' mais bacana da cidade; nao pra sair na critica do jornal mais lido da cidade, ensaios perfeccionistas feitos por aqueles escritores terceirizados que fumam feito chamine. quero publicar um livro para poder apreciar seu meio, seu feitio, passar horas, noites, alvoreceres, entardeceres preenchendo paginas, buscando palavras no fundo do cerebro, la dentro onde quase ninguem tem acesso, onde a abundancia de pensamentos jorra incessantemente como fonte em praca publica.
a trama sendo tecida fio por fio, linha por linha, em paragrafos maiores, em capitulos com nomes de lugar, de objeto, de pornografia. quantas serao as historias de amantes dentro da vida do personagem que o narrador quiser inventar. tudo que ele quiser viver e encontrar no futuro, tudo que na vida e' sempre um risco de se correr. tudo pode acontecer minuciosamente elaborado, como tudo pode vir a ser uma tremenda coincidencia que ganha certo sentido depois que o tempo passa. Ou na hora mesmo em que esta' se passando.

Um grande sabio disse-me outro dia que o tempo esta' sempre la, quem passa somos no's. que o tempo nao se segura e que muito menos somos segurados por ele. me proferia estas palavras com um sorriso despretencioso exatamente quando ele chegou na estaçao de trem onde eu o esperava em tom bufante e inquieto, estive a conversar com meus pes de um lado pro outro na curta porem longa espera, xingando nao sei quantas palavras porque ele estava fazendo-me atrasar para um ensaio. quando ele terminou sua curta sentença, virei-me, dei-lhe as costas, desci as escadas, com um ligeiro riso sinico. Ainda esbaforida, tinha de comprar o bilhete do trem. Acaso ou sorte, quando sentamos no vagao, o tempo juntou-se a no's, na mesma velocidade do trajeto, no mesmo batimento do peito. Entao o grande sabio recitou poemas, contou piadas, leu versos, entoou proverbios, apontou o dedo para cima e colocou as maos sobre as minhas.

Um outro grande poeta me escreveu: o tempo e' gordo. acreditamos tanto na precisao com que devemos usa-lo, entretanto de repente nos damos conta de que aquela pressa toda ja virou outra profissao, outro filme, mais um filho, outro livro, mais uma viagem e que assim tudo e' passivel de acontecer. Esse mesmo poeta ja pensou o que um dia eu lhe propus; publicarmos uma coletanea de poemas-temas - como por exemplo, poemas cujos versos tem apenas e sempre a mesma consoante inicial. sao feitos de palavras e frases inteiras que metaforizam a imagem ao que se pretende dizer em certa poesia. Ha alguns anos nos demos conta, fazemos assim: um mesmo momento por no's vivido vira verso na mao do outro e sempre temos uma variacao de abordagem do mesmo tema. Por isso poemas-temas.

Enquanto vou conhecendo o mundo, abraço novamente quem nele pisa. Reencontro de outras almas, camas de lençol amarelado, colchao velho de molas e paredes descascadas. Mas na varanda sempre ha flores enquanto nao faz muito frio. Na estaçao do  frio elas secam, na primavera renascem, como um milagre. Com um miraculo de gotas cintilantes e bordadas, com som de gotas de orvalho na gruta pouco iluminada, transparencia da agua, escuridao do buraco. No tunel de meu ventre habita uma serpente. Ela no entanto dorme enquanto o tocador nao vem armar a tenda de seu circo. Ela participa do espetaculo quando ele vem. Ela nunca sabe quando ele vai vir, mas ele sempre diz que um dia chega.

Assim chega mais um dia, mais uma noite se vai. Mais uma pagina pode vir a ser completada. O tempo e' largo e os sonhos mais ainda.

6.8.10

mais uma despedida.

vai ser assim pra sempre?

as lembranças mais doídas são aquelas que diz o tempo: "nao se engane, é hora da partida"

quem fica chora. quem parte vê outra paisagem. e na outra paisagem vê o por-do-sol. na mesma paisagem, quem resta não sabe onde procurar o sol, tanta nuvem encobrindo.

foram os dias mais lentos, aqueles que culminam com a breve saudação de adeus e até a próxima vida.

porque cada um leva uma vida, até que elas se encontram, se provam juntas por tão pouco. e parece muito.

no centro da terra, a linha tênue do que separa um sentimento do outro.
do que parece sonho e do que é realidade.
do que quer permanecer e sabe que não vai tão cedo regressar.

o solo está queimado com a falta de chuva. mas as árvores mais altas tem troncos fortes pra carregá-las se quiserem esconder-se do vento - elas sempre querem.

então lembraram-se da história de Cosmo, o menino que decidiu subir nas árvores e viver lá pra sempre, tornou-se o Barão das Árvores, porque a vida sempre exige que alguém se faça presente onde estiver e tome liderança para viver bem, se alimentando bem, discutindo bem, defendendo ideias, ideais melhores ainda.

a partida chega, e assim não tem como o trem não seguir. Ele segue.

Alimento pra todos os sentidos

Ando precisando de poesia. De homens poetas que saibam rimar e descombinar versos;
de homens que saibam usar as palavras como sabe combinar cores uma mulher;
preciso de versos de quem se joga na noite, sonha de olhos abertos, dorme olhando pra lua, senta com a poltrona virada pra janela, cozinha e faz uso de ervas caseiras preferencialmente plantadas no horto dos fundos;
tenho sede de versos doces e descabelados; de versos picantes e desarmados; de versos trágicos e encantados.

Quem mais poderia um verso me oferecer senão os poucos poetas que vim a conhecer? O Bandeira carrego na bolsa, o Drummond pousa na estante, o Pessoa na cabeceira da cama, o Sabino sempre pra lá e pra cá. Mas eles estão empaginados. Tesouro de paginas, sim sabemos. Mas os vivos poetas, de carne e osso e olhos que me olham, esses quero provocá-los. Deles receber poemas diários, feitos no supetão da inspiração, no estimulo da vontade, na desgraça da tristeza, na dor de quem se sente magoado, na felicidade de quem ama com simplicidade.

Alguém? algum? sim, alguns, graças a deus. Sempre das duas mesmas pessoas, que os outros parecem não ter coragem. Ou dignidade pra fazer a coisa mesmo.