quem sou eu

30.5.09

Saga

Olhos d´água
do animal feroz que passa
e num piscar ameaça
quem detrás
dos muros da praça
se esconde na sombra
e finge que não vê
os olhos famintos
do andante que traça
sua saga de fome.
A pele enrugada
com vigas profundas
riscaram seu caminho
ao longo da face
de sol a sol
e em dia de chuva
a mesma busca
a incessante procura
do alimento
que lhe dá a cura.

Que mofe a fome
de alguém sem nome
que nada come
e no vazio some.

Paisagem amarelecida

O céu acinzentado
com o tempo envelheceu.
Escuridão maltada;
o fosco clandestino
de impurezas,
o sol se lhe escureceu.

Em cismar olhando ao longe
a tristeza me anoiteceu;
um choro apertado
no peito recendeu.

Dessarte conciliar
- na noite posterior -
a voz cantada, os hinos
a prece e o louvor,
o divino me enterneceu.

24.5.09

Louvores

"a sala está cheia, minha gente,
como é que eu entro agora?

eu entro minha gente, eu entro
com deus e nossa senhora"

Assim aquela senhorinha, de um metro e meio de altura, cabelo preso num pequeno rabo de cavalo, pulseiras de bolinhas coloridas e poucos colares, saia de renda amarela e camisa bordada à mão, com as mãos elevadas ao céu, os olhos voltados para a sala repleta de ouvintes, com q voz firme no microfone, ela pronunciou esses versos lindamente e deu inicio à cantoria feita por mais de dez mulheres no palco. Era um show especial, uma homenagem ao Divino com a tradição das caixeiras do divino do Maranhão.

As maranhenses que estavam no palco eram lindas. Mulheres fortes, simples, umas tímidas outras sorridentes e alegres, todas com um brilho especial no olhar, com uma ternura enquanto cantavam, vozes potentes, agudas, cantoria de fé. Os canticos eram como louvores ao Espírito Santo, à estrela guia, aos mastros que conservam os pedidos, as devoções, as promessas. Foram dias de procissão, adoração, homenagem, saias brancas, giro de saias, toque das caixas.

Parece que uma vida se passou em duas semanas e meia de celebração. A cada dia de encontro, outra vela acesa, outro lenço estendido na mesa, a imagem do pombo branco que voa pela paz, voa paz, avoa em paz. Tocar sentada com aquela caixa no colo ao lado de mulheres e à frente de outras mulheres é como um mantra que nos cobre com um manto suave, que aquece o ventre e dá o aconchego do calor materno, da pureza de sentimentos, de beleza de desejar coisas boas e ter uma luz amarelada por dentro, mesmo com os olhos cerrados.

Nesse ritual não tocam os homens. Não se pode tocar de calça comprida. Ninguém ousa atravessar o corredor de duas fileiras de caixeiras. A força das vozes femininas e a lentidão das mesmas se emaranham e se dissolvem na melodia serena. O mais bonito de tudo isso é que elas fazem por amor à vida, à vida desta terra, à vida terna, à vida eterna.

16.5.09

o sonho e a harpa

A pequena harpa estava em minhas mãos enquanto eu caminhava por entre as pessoas no vilaregio. Emitia um som doce, suave. Eu a olhava e a tocava sem me ater às sequências harmônicas combinadas. Precisava entregá-la ao músico daquela noite, naquele festival de música intrumental. O músico que a tocaria era um caro amigo meu, que não tem a harpa como seu intrumento na vida fora do sonho, mas aqui ele a tocaria. Eu, porém, não conseguia encontrá-lo. Não havia angústia no entanto. Houve a certeza de um encontro antes que ambos subissem ao palco; a harpa e seu tocador.

O sonho acordou-me assim, com o som da lira ao longe, como um túnel de seda que vai se desmanchando lentamente até desaparecer com os olhos abrindo-se ainda sonados no amanhecer de uma cidade com montanhas de areia no fim da rua,e logo depois das montanhas, o imenso mar. No dia seguinte o amigo músico inusitadamente telefonou quando estávamos na praia. Na volta,ao ver seu número grafado no celular, lhe escrevi a mensagem "Tinha uma harpa no meu sonho para suas mãos". Em menos de cinco minutos uma mensagem dele apareceu no meu visor: "Inesperadamente, uma harpa veio parar em minhas mãos dias desses".

O sorriso ivadiu-me como o sol na parede do quarto às sete da manhã.
Permanceu, alumiado.

Na semana seguinte, entrei na sala da minha professora de canto, e perto do piano havia uma caixa de madeira, que nunca estivera ali antes. Perguntei se era algum instrumento. Ela disse que era uma harpa. Abriu a caixa, lá estava ela com as cordas finas prateadas como o brilho da ponta das estrelas, esticadas por uma clara madeira cor marfim e, calmamente a harpa veio parar em minhas mãos. Do sonho, para minhas mãos.

parábola chinesa sobre o estudo

Hoje eu li uma fábula chinesa que dizia o seguinte: o aprendizado não tem idade e se ele vier, não importa quando, vai sempre contribuir e iluminar. Obviamente a fábula não continha essas palavras tão diretas e esclarecedoras. Havia dois personagens: um velho de setenta anos, com vontade de estudar os Clássicos e sem ânimo por fazê-lo, afinal dizia-se ser um velho e de que serviria começar a lê-los agora? O outro era um mestre de música que também era velho, porém era um mestre que logo discordou do amigo dizendo-lhe: "Pois bem, se achas que estás velho, por que não compras uma vela então?"

A pergunta soou fora de contexto veio pra ambos, ao velho e a mim, leitor. Imediatamente tivemos feito a pergunta: "Vela? pra que vela? eu digo um você diz cem, o que isso tem haver?!Oras bolas!" O velho certamente usou outras palavras, melhores do que estas, seguidas da explicação àquela pergunta, que coincidentemente era a resposta do título da parábola "Acerca dos estudos". O mestre chinês disse então que o aprendizado na juventude é como ter uma vida no futuro com o clarão de um sol numa madrugada,chega cedo e permanece; que o estudo na meia idade é como conviver com o sol do meio-dia, extamente sobre si; e que o estudo na velhice é como a chama de uma vela, se bem não iluminar tanto, ao menos não nos deixa completamente na escuridão.

O velho agradeceu as sábias palavras e refletiu. Tive o alívio de crer permanecer com o sol do meio-dia no meu futuro de hoje. Também me senti aliviada ao perceber que um estudo que eu sempre disse que faria quando fosse velha - para fazê-lo sem pressa - eu andei iniciando ano passado, quando chegou um piano em casa. Percebi, ao ler a parábola que o conhecimento alumia e dura o eterno brilho de uma vida.

19.4.09

ensaio





As teclas iniciais emitem o grave, de cor densa, escura, como se fosse uma massa condensada que estivesse sujeita à sustentação do peso da terra, onde o centro da gravidade atinge seu rigor. Através do som, resplandecea imagem de uma mistura de minerais e metais, interpelados por raízes sóbrias, emaranhados de filos energéticos nutridos na profunda umidade do solo. O grave das teclas do piano trazem a força, um certo poder de convicção, das coisas que possuem continuidade, constância, um mistério envolvente, o som que se propaga com vibrações perpetuantes, lentas. O grave que arrepia a nossa concha acústica, o som retumbante de dentro da caixa acústica da madeira do piano para o coração.

Na oitava central os tons ganham certo brilho e cor cujos sons trazem a lembrança da superfície do mar, onde se pode flutuar com naturalidade, e o peso do corpo ganha leveza, sentindo a tração do que está abaixo, como se pudesse perceber o sentido de um todo no profundo da matéria e acima dela. São os tons que fazem qualquer música e que a voz consegue acompanhar. É quase simples, bonito por existir.

As notas agudas lá no fim da escala cintilam no alto, são como pássaros no céu. Tão sutis quanto estridentes quando lhes falta voar. Serpentinam, chocam-se com o ar sublimado, abrem as asas para dar giros rasantes, podem atingir uma velocidade diluída no tempo, caminho de pontilhados e riscos, sons que o corpo assimila sorrindo, uma beleza quase infantil de sapecar, brincadeiras em dia de sol.

Quando aurora, o piano agrega terra, mar e céu ao toque de duas mãos. Nasce no magma da terra, atravessa a profundeza das águas, balança nas marolas das ondas, se mistura na espuma com o vento e evapora pro infinito do universo. Neste caminho que percorre de dentro pra fora, num espaço sem limites, o mesmo acontece no corpo do ser que o escuta; o som ressoa lá dentro, da alma ao corpo mental, sensório, emocional, motório, físico e carnal,vem vindo à superfíce até chegar à pele, e em contato com o ar, os pelos se arrepiam, partindo pro espírito que circunda o corpo, mistura-se com o ar e novamente ganha o universo...

piano

gran piano ou pianoforte

Dentro e Fora

Meu amor que tem
pernas fortes
caminha em terras distantes
em busca de um sonho
que su´alma guardou

Meu amor com
ombros largos
carrega-me em seus braços
como se me embalasse
em suas cantigas

Num balanço meu amor
gira meu corpo
que em suas mãos
levita

Meu amor tem olhos
que sabem a profundidade
da luz do meu olhar
tem sorriso querendo
a paz alcançar
[e músculos que
sustentam sanidade]

Meu amor tem
uma beleza
de terra com sol
dourando a pele,
de céu aberto
beijando a superfície
abraçando o universo

Meu amor está
dentro
e fora
no espaço
semeando
conquistas.

30.1.09

Terra de Santo III

extrai da terra
a rica pureza
do olhar que se distancia
de toda ilusao
que um corpo cria
que a mente alucina
que um coracao dissipa.
dorme nos sonhos
embebidos de luz
e gotas de chuva
umedecendo a lama
verde da cura,
do sabor que a seiva
amacia nos labios
na carne suave
de um corpo sublime.

viram-se na longitude
celeste de um tempo
infindo
amor incondicional
na amplitude
do horizonte eterno
de lacos que transcendem
o espirito e a divindade.

15.1.09

Terra de Santo II

em Terra de Santo
o amor que o peito nao pode sentir
quer morrer
pra ascender-se no divino
ser apenas luz piscante
breve, distante, micropartícula

em Terra de Santo
a flor quer murchar em lentidão
pétala a pétala secando
e perdendo a cor
pra não deixar nenhuma rosa
perfumar o vento

em Terra de Santo
o vendaval vai inundar o buraco
onde todos que ali se protegem
terão de sair um a um
mas serão abençoados com
a chuva incessante

em Terra de Santo
hemos de partir solenemente
seguindo a carruagem da vida
amando quem nos é concedido
no presente que se lança ao
futuro ainda incerto

em Terra de Santo
hei de permanecer
sem memória
sem rancor
sem passado.

11.1.09

Terra de Santo

Há lembranças
que os corpos eternizam
com a sutileza
de uma ponta de luz,
minuciosa luminosidade
dentro de uma imagem
longíqua
quase dissolvida,
quase renascida
na sensação que
toca - com dedos
de cetim, -
um desejo que um dia
persistiu.

Quando o sol imperiou
sob a rosa-bahía,
cintilaram-se os pêlos do corpo todo
ao brilho do amanhecer.

Era ano quatro.

Na cama, um pássaro
me cantou seu hino de estupor,
veio trêmulo e esmiuçado
de pequeno pavor.
Mesmo triste, bonito soou.

Foi a cantiga da claridade
de mais um dia
em terra de Santo.

9.1.09

Descortina do mundo

por onde andam os passos que guiam os olhos
cujas pálpebras semi-cerradas enchergam na escuridão
o vazio da falta de esperança

de quem são os pés magros
que caminham diante da dor
do cenário de sangue, tortura, terror

o olhar traz o mundo dentro
contido como uma semente morta
que caiu na terra e secou na amargura

a lágrima que escorre é pouca
pra lavar a doença que contamina
outros olhos, outros pés, outras vidas

ninguém pode mudar o olhar daquele
que desespera
será?
e aquele vulto que passa no semblante da noite?

é o amor?
sim, trazendo paz
mas vagueando sem por nenhuma porta conseguir entrar.


1.1.09

anoema

um ano
de encanto
de gente que canta
um tanto de entoar
outro canto

um anoecer
na raridade
das partidas
saudades doídas
lamentos enaltecendo ídas

um anominhar
por estradelas
desconhecidas
passos celebram
verdades adormecidas

um anouvar
aos céus com braços erguidos
pelos dons recebidos
e a pureza do amor
de fora adentro
pra fora concebido.

13.12.08

l'epife

qualquer palavra trocada
é mais que poesia pronunciada

sentença no meio da noite
parafraseando desejo de longe

quem escreve muito se atreve
em água misteriosa se atira

para a leitura, o branco
se tinge de cintilante mistura

o que bebe a beleza
nela se inspira e corteja

a sorte da linha que cruza
e a letra de prazer se lambuza.

28.11.08

Sucinto

restinga
dentro da seca
na crua incerteza
que a mente alimenta

respinga
amargura de outros solos
sedentos de dignidade,
amor, decência

retinta
a pouca luz
que aos olhos resigna
pavor, estupor

novamente a restinga
baixa e rasteirinha
surge lentamente
entre grãos e selvageria

calmamente restinga
nos olhos diante da dor
suscita mais um ciclo
e ressucita amor.

2.11.08

Essência


como se estivessem deitados diante de um céu estrelado de possilibidades, universo de brilhos se acendendo e apagando-se constantemente, cada luz uma via, uma vontade, um caminho. no escuro azul do cenário de fundo, os mistérios, o que cada escolha reserva dentro do seu percurso, o invisível, pouco previsível. cada vez que uma porta se abre podem ser eternas e infinitas as andanças e as descobertas.
de olhos fechados parecem intuir a estrela que os chama, que pisca e reluz a sabedoria do instante. mas dentro da retina encoberta pela escuridão das pálpebras, dormem sonhos distantes, amores intocados no pedaço de terra que deitam seus corpos. cabeça unida com outra cabeca, unidas e separadas, cada olho que se abre mira uma estrela diferente, cada palavra que pronunciam emite um som e outro tom. eles sonham em mundos diversos, tentam fazer suas estradas se cruzarem, procuram o brilho raso, a preciosidade da essência.

1.11.08





leaves living loneliness,
lying lounged longevity
lighten and loosen
lovable, lusty, lyric lives...

28.10.08

metade nuvem, metade azul

A cidade tinha se tornado uma massa pesada, uma "mansidão",como diria uma amiga, condensada de falta de tempo e humor, pressa, fumaça, nóia, cheiros e mau-cheiros, publicidade e papéis, jornais rasgados, latas de cerveja. A cidade para mim estava mais pesada que a vontade de suportá-la. Compramos a passagem e fomos rumo ao interior, não importava onde, eu queria apenas ver a estrada, o horizonte, os campos verdes. A saída da cidade já foi divagante, o ônibus fez um caminho ao redor do maior parque da cidade, o tal do Hyde Park e do andar de cima do ônibus vi o tapete de folhas esparramadas pela grama e pelas calçadas. Adoro o outono na Europa, as ruas ficam cheias de folhas marrons esvoaçantes, parece que a calçada ficou doida varrida, as folhas estão dançando com o vento e fugindo de vassoura, uma beleza de carnaval que arrasta o que estiver na frente. No parque, árvores marrons, amarelas, avermelhadas sob um céu de nuvens. Mansidão.
Na estrada, lentamente no afastar da cidade as nuvens foram ganhando cores de tom azulado. No percorrer do trajeto um feixe amarelado começa a surgir por detrás dos aglutinados esbranquiçados. Estava olhando os campos, sabia que no interior desse país os campos seriam assim, com gramas tão verdes que parecem uma pintura impressionista, com poucas ovelhas e vacas pastando. Olho pro céu novamente e lá está a divisão de um céu carregado de nuvens e um céu límpido e azul. Esfrego os olhos, miro novamente; a divisão de céus é absurdamente comovente, chega a parecer forças do bem e do mau, o inferno e o paraíso, como bem descritos nos capítulos do antigo testamento. Mas dessa vez parecia que o mundo estava dividido em dois e que o ônibus cruzaria a linha.
A medida que avançava na estrada, os raios de sol iam surgindo um a um, delineando um brilho nos fios de cabelos dos passageiros que estavam sentados do lado da janela. E num piscar de olhos a luz amarela invadiu o onibus num jato dourado, estávamos atravessando o mundo de nuvens para o mundo de céu azul. Eu estava perplexa e comecei a agradecer deus por aquilo. Eu pedira o horizonte ao longe dos campos verdes, na amplitude sem margens. Ele estava me dando o sol, que aparecia tao enigmaticamente como tantas revelações na vida. Olhei pro lado, meu amor dormia e mais adiante tinha um rapaz, um rapaz que eu já tinha olhado antes porque ele estava muito arrumado, com sapatos de couro marrons, combinando com um cachecol também marron, um casaco aveludado e uma bolsa de couro, daquelas de antigos escritores de filme. Ele não ia pra uma festa, provavelmente estaria indo à universidade (como tantos por aqui). Me deparei com a luz do sol refletida nos olhos claros dele e sua cabeça levemente erguida pra ver a paisagem, porque ele estava sentado na fileira do outro lado do corredor, sua janela nao dava pro horizonte. Pude notar seu encantamento pela paisagem que se derramava diante de nossas visões e naturalmente um sorriso apareceu em sua face. OLhei mais ao redor, uns dormiam, outros escreviam no laptop, outros liam. Somente eu e aquele menino olhávamos pro espetáculo. Somente eu sabia o significado daquilo pra mim naquele momento.

22.10.08

Atrás da conversa

"Sinto que ele está triste" - disse Amalia. "Faz dias que não me olha nos olhos, não tem sorrido muito, a cabeça cabisbaixa pelos corredores da casa. Quando entro no quarto ele está jogando video-game, coisa que nunca faz, só quando nao tem nada pra fazer".
Ariela continuava a fitá-la, ouvindo-a atentamente. Então prosseguiu "Eu acho que ele está descobrindo. Está percebendo que talvez eu não seja a mulher que ele tanto desejou, porque eu nem provoco mais desejo nele. Há um mes estamos sem transar, voce sabe o que é isso?" Ariela desviou o olhar de Amalia para o clarão que desapareceu no chão do quarto, mais uma nuvem tinha vindo cobrir o sol. "Simplesmente não sabemos como despertar o prazer erótico um no outro" Continuou a dizer com palavras e mãos articulando. Deu uma pausa e uma longa piscada. "Nao sei se eu devo insistir. Toda vez que estou nua diante dele, parece que meu corpo não tem vida, cada parte é a mesma num todo, nada vibra, nada se aquece, nem um pedacinho de pele. As poucas vezes que ele me beijou eu não o desejei e logo ele parou de me beijar."
"Voce tentou dizer a ele que queria ser tocada de outra forma?" quis saber Ariela. Olhou para a janela, viu a sombra da árvore que vinha de fora e balançou a testa "Falamos algumas vezes sobre isso, mas eu não gosto muito. O que vou ficar repetindo? Meu amor, eu te amo mas voce nao me dá tesão? Oras, ninguem quer ouvir isso Ariela, eu sei que ele também não quer. Eu teria que chegar com a solução nas mãos, te-las na bandeija e serví-lo, mas enquanto eu não o oferecer isso, ele vai repetir a mesma coisa das outras conversas, que o prazer deve ser uma coisa espontanea, que um corpo saudavel sente prazer, que eu deveria ir procurar ajuda..." Suspirou.
Ariela então continuou. "Olhe, mesmo assim, isso não justifica o teu silencio. Voce tem que falar, tem que dizer o que quer e que não quer, o que gosta e o que não gosta. O pior numa relacao é a falta de comunicação, seja pras coisas positivas quanto pras negativas. Desse silencio pode virar um deserto e voces podem se chatear muito mais que se tivessem conversado. Um deserto pode matar tanto de frio quanto de calor. Tanto de seca quanto de vento."
Amalia mordeu os lábios, franziu levemente a testa, olhou pro teto. "Eu queria deseja-lo. Eu queria que ele me tocasse e fossemos à loucura. Eu não posso mais viver pensando que eternamente seremos mornos, casados com uma vida sexual estagnada, eu não posso me repetir isso todos os dias." E virou bruscamente a cabeça para o lado, em desaprovação. "Então mexa-se Amalia. Diga, grite, esperneie, faça qualquer coisa ou destrua seu casamento, deixe-o morrer lentamente e veja todos os dias um olhar que não te fita porque perdeu a confiança. Não confia porque não ouve sequer a verdade. Esclaresce amiga, isso é importante, ou voce quer continuar a ve-lo entristescer cada vez mais?" A pergunta ficou ressoando como um eco nos ouvidos de Amalia. Dentro de si, sabia perfeitamente que não queria ve-lo sofrer, mas que estava fazendo como se estivesse de olhos tapados, fingindo nao enxergar que ele sofria, e muito. "Tens razão. Vou dizer, nao sei bem como começar e nem sei no que isso vai terminar, mas ser fiel é ser verdadeiro."

Abriram a janela e foram ver o sol que voltava a aparecer por entre as nuvens.

17.10.08

Far from home II

far from home
that's the music she sings alone
passing through tones
finds her way back in a song

far from home
is where her heart is
miles distance beating
nowhere willing to go

far from home
she watches the life along
crossing borders over the years
sailing grounds of missing owns

far from home
she dares to live
and to hopefully sink and drown
cold blames in the water flows.

10.10.08

Oleo de mirra com gergelim

Subiamos as escadas de madeira, daquelas que precisa das maos pra dar empulso, os degraus eram distantes um do outro, era preciso segurar firme com as duas maos, uma de cada lado e um pe por vez apoiava no fino degrau e depois o outro. La em cima estava a palha estendida, alguns vasos, pedras, incensos, velas, umas pecas em madeira talhadas a mao, alguns livros sobre astrologia, calendario maia, heiki, medicina chinesa. Da janela de vidro se viam duas torres e o telhado de uma outra casa. O sotao fora construido para ele que queria ficar perto do ceu, no seu oratorio, recebendo a energia do alto. Quando subiamos ali, ficavamos suspensos em algum universo longiquo, nos transportavamos para alem da atmosfera, em alguma camada celeste. Nossa voz baixava de volume enquanto nossos ouvidos ficavam mais sensiveis para escutar a respiracao um do outro, que ia se tornando lisa, serena, profunda. Quando suspiravamos, alguma mao ja tinha procurado tocar em qualquer parte do corpo do outro e quando quem sentia ja se amolecia, relaxando no toque, o outro dizia, "pegue o oleo de mirra com gergelim".Estava iniciada a massagem. As maos de um que percorria os caminhos de veias, musculos, ossos, cavidades, todos sendo massageados com dedos atentos a cada pequena parte do corpo do outro, a cada reacao que certos pontos equivalentes a outras partes do corpo nos pe's ou nas maos provocada. Ficavamos horas, soltando algumas palavras, oras exprimindo reacoes prazerosas, oras dores que se desmanchavam nos dedos do outro, as vezes alguem dava uma risada boa, de alivio ou de deleite. Depois de um longo tempo, fora de qualquer cronometro, um tempo imaginario no qual ambos nos deixavamos levar pela sensacao provocada, e um suspiro em agradecimento era seguido de um sorriso que nao saia do rosto, ficava por entre os olhos, na face iluminada pela luz alaranjada da vela ou por algum raio de lua que vinha de fora. Assim permaneciamos aquecidos pela branda energia que disseminavamos mutuamente, cultivando um calor que nascia no peito e se espalhava pelo corpo e pela mente, como uma onda propagando suas moleculas sem cessar. Nos agradeciamos num abraco ainda com os joelhos sobre a palha. Quando era o momento de descer davam um longo suspiro e sabiam que tinham que voltar pra terra, mas voltavam flutuando, pisando em folhas de flores que brotavam de seuas coracoes.

6.10.08

Presentes e presencas

O bar nao era um bar qualquer. Do lado de fora dava pra ver uma luz amarelada e uma porta verde dando pra um pequeno jardim. Ao aproximar-me da porta, ouvi o som do piano, macio, percorrendo as teclas numa noite fria e azul. Entrei no bar e um cheiro de comida casieira invadiu as narinas, junto com um vapor de ambiente quente, "pretty warm", como dizem os ingleses. Cheiro de ervas e temperos, adocicados, levemente picantes. Dei tres passos e a musica acabou, olhei a pianista de soslaio e logo vi seu sorriso em agradecimento às palmas. Ela vestia uma meia-calça colorida, com uma saia acima do joelho e uma botinha de camurça. Nos demos um abraço e ela logo voltou ao seu banco para tocar outra musica, mas antes me apresentou sua mãe, uma senhora de cabelos brancos encaracolados, finos e esvoacantes. Ela acabara de chegar de viagem de Israel, tinha feito 4 horas de avião, mais duas horas de transito da cidade até o aeroporto. Estava com os olhos cansados, no entanto sorria pausadamente. Olhava a filha tocar piano. Fazia 9 meses que mãe e filha não se viam. Conversamos sobre o tempo em Israel, ela disse que estava calor, enquanto aqui a temperatura cai a cada dia, com vento frio e garoas constantes. Ela me perguntou se eu não gostaria de ir a Israel um dia, e eu respondi que sim, mesmo sem nunca ter pensado muito nisso efetivamente. É engraçado como a vida vai tecendo seus fios e de um momento ao outro você passa a pensar em lugares que nunca lhe trouxeram outras informações a nao ser as mesmas que a midia nos apresenta. Mas de repente você passa a conviver com pessoas de um certo pais, voce ouvê suas linguas, experimenta sua culinaria, ouve suas musicas, observa seus comportamentos.
"Ha mais instrumentos embaixo da mesa" me diz a pianista. "Toque-os quando quiser". Após um suco de limonada rosa, especialidade da casa, me levantei e fui ao lado dela com leves instrumentos percussivos comecei a acompanhá-la e logo estávamos entretidas tocando musica folclorica israelense e depois, com outros musicos que chegaram, tudo virou samba. A noite foi bonita, cheia de sorrisos e palmas. De vez em quando eu lembrava de olhar pra senhorinha e via que ela estava com os olhos semi-cerrados, num cansaço que dava pena de ver!
No dia seguinte acordo e recebo uma mensagem da pianista, agradecendo a minha presença na noite anterior. Eu é que tenho agradecido a presença dela na minha vida.

4.10.08

Pela rua

Passei o dia em casa sentada na frente do piano (nao e' um piano de verdade, um teclado que faz parecer) e em cima dele estava o computador, e nas telas eu procurei as musicas que quero cantar, enquanto no piano brincava com os tons e semitons das notas sendo transpostas pela voz. Finalmente estou descobrindo as notas dentro da minha propria voz. Parece magica, parece magia. Fiquei horas, saltanto de uma musica pra outra, encontrando versos dentro da melodia.
O tempo mudou. Talvez tenha mudado a estacao com a vinda de um vento frio e incessante que carrega nuvens cheias e passantes. Eu desviava o olhar do piano para a janela e via as folhas de uma parreira em cima do muro dancarem uma danca sem fim, movimentos continuos e aleatorios. No fim da tarde decidi ir a padaria e caminhando pela rua senti a garoa fina no cabelo e no nariz. Me lembrei que estou num outro pais, vivendo uma vida nova cheia de lembrancas da vida no meu pais, na minha casa, com os meus amigos querendo me ligar a qualquer hora, fazendo alguma visita deliciosa, buscando inventar algum passeio, algum show instrumental gratuito, comer uma pizza na pizzaria barata onde o garcon te trata bem. Sempre a lembranca de qualquer situacao imprevista,dos elogios e agradecimentos por ter o amigo por perto. Mas andando sozinha na rua, lembrei-me da sensacao de estar em outro pais, onde as situacoes tambem sao imprevistas porque voce sabe que aquele amigo nao esta' la' pra te ligar, nem vai encontrar sua mae de touca de banho cozinhando os legumes, esperando o tempo da tintura do cabelo. A sensasao nao e' essa, e' outra, e' tambem meio poetica porque o frio naturalmente traz instrospeccao, maos guardadas nos bolsos dos casacos longos e acolchoados. Parece que voce esta' sempre precisando proteger-se, aninhar-se num casulo quentinho, buscar calor dentro de voce mesmo e na sua casa que nao e' tao sua ainda, porque e' nova, mas que ja contem sua energia.
Em pleno sabado a noite, eu nao tenho a euforia no peito de saber que vai ter festa e eu vou sair pra dancar com meus amigos preferidos, nem vou comemorar o aniversario da mulher que eu mais admiro na vida, ela esta' longe, trabalhando pra poder vir pro outro pais e conhecer a sensacao de que tanto lhe falo. Se eu tivesse um cigarro, fumaria enquanto caminhava, e em casa tambem fumaria na frente da chamine' com uma xicara de cha.
O frio esta' trazendo calma e quietude. A mente comeca a perceber que o tempo vai passar mais devagar e isso vai ser bom pra nao ver a vida passar tao rapido, como acontece na maioria das vezes. Talvez seja tempo de compor, de descobrir pequenas coisas, de inventar historias e de sentir o coracao bater. E de escutar mais uma vez o que Chico gosta de dizer.

"Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo O afazer
Me pego em sonho A navegar
Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa Só o tempo não"